Uma religião a serviço da vida e não de pretensões

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A religião é, por natureza, expressão da ligação entre o imanente e o transcendente, entre o céu e a terra, entre o homem e Deus já que a etimologia latina da palavra é “religare” que, significa atar, ligar com firmeza ou até mesmo atender um chamado.

Sob este ponto de vista podemos dizer, então, que, em tese, “as coisas” da religião (templo, ritos, doutrinas, normas, estrutura etc) objetivam criar oportunidades, condições e meios que favorecem o encontro, os laços (‘ligame’), o conhecimento, a relação entre o humano e o divino.

A religião em estado puro não existe porque, cada povo e cada sociedade mistura a religião com os traços culturais da época e do lugar, de tal forma que, o “modus vivendi” da religião também obedece ao critério de tempo e espaço.

É claro, porém, que, nem tudo da religião é passível da “democracia do tempo e do espaço”. Na religião existe um conjunto de elementos estruturantes que a explica, mantém, sustenta, dá vida e prolonga: a divindade, a fé, a doutrina, os códigos morais e os rituais.

Como qualquer instituição humana, a religião engendra riscos, seja por causa da mistura com os traços culturais, levando à cooptação por forças e interesses escusos (causas externas), seja por causa do desvio de conduta, de intenção, de espírito e de poder, levando ao estrangulamento da verdadeira causa, motivo e missão (causas internas).

O evangelho sempre apresenta confrontos de Jesus com o sistema religioso e seus defensores. No centro do embate estão em jogo, não apenas, questões doutrinais e teológicas mas, o conflito de interesses relacionado ao poder religioso, econômico, político e social.

Em João 2,13-22 encontramos um dos relatos do confronto de Jesus com os ‘donos da religião’: “A Páscoa dos judeus estava próxima, e Jesus subiu para Jerusalém. No Templo, Jesus encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. Então fez um chicote de cordas e expulsou todos do Templo junto com as ovelhas e os bois; esparramou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: ‘Tirem isso daqui! Não transformem a casa de meu Pai num mercado.’ Seus discípulos se lembraram do que diz a Escritura: ‘O zelo pela tua casa me consome.’ Então os dirigentes dos judeus perguntaram a Jesus: ‘Que sinal nos mostras para agires assim?’ Jesus respondeu: ‘Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei.’ Os dirigentes dos judeus disseram: ‘A construção desse Templo demorou quarenta e seis anos, e tu o levantarás em três dias?’ Mas o Templo de que Jesus falava era o seu corpo. Quando ele ressuscitou, os discípulos se lembraram do que Jesus tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.”

O texto apresenta uma situação de conflito em torno do Templo. Na área externa do Templo existia um grande átrio que circundava o santuário, chamado de soreg. Ali podiam entrar os pagãos e também ali se estabelecera o comércio de animais para o sacrifício e os cambistas. Na Páscoa, essa atividade era muito intensificada. Esse mercado tinha a função de impedir que o dinheiro pagão entrasse no Templo, mas provavelmente não sem ágio… Era também um esquema que impunha aos peregrinos comprar ali animais que serviriam de oferenda para os sacrifícios. Longe de ser um serviço aos romeiros do Templo, a prática convertera-se em um sistema de exploração, beneficiando não somente os cambistas e vendedores, mas também a casta sacerdotal. Ou seja, a estrutura religiosa do Templo estava de tal modo contaminada pela ganância e pelo pecado que comprometia a sua real função de culto a Deus. Diante dessa situação, Jesus reage vigorosamente, à semelhança dos profetas que sempre denunciaram os desvios das funções do Templo como lugar de oração e de fidelidade.

Jesus propõe uma mudança radical na relação com o Templo pela conversão do sistema religioso vigente. A ousadia profética de Jesus está em apresentar-se como modelo e substituto ao templo de Jerusalém. Ele é, na verdade, o Templo que o Pai precisa para a instauração do seu Reino.

 

Por: Pe. Edivaldo Pereira dos Santos

Foto: Google

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