Testemunho de Dom Edilson Nobre sobre os Protomártires do Brasil

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Os Protomártires do Brasil, nossos amigos!

O testemunho dos mártires é sinal de impulso do Espírito Santo e torna-se semente em chão fecundo de uma Igreja que se renova, fazendo germinar vida nova na alma dos seus fiéis e na história da humanidade. Quantos mártires, ao longo destes séculos, que pela causa do Evangelho se abnegaram de si mesmos, mantiveram-se coerentes nos seus propósitos, e entregaram suas vidas, por não duvidarem das palavras de Jesus: “Pois quem quiser salvar sua vida, a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim, a encontrará” (Mt 16,25). Não menos impactante é o reclamo de Jesus quando ele diz: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só; mas se morre, produz muito fruto. Quem ama sua vida, perde-a; mas quem se desapega de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna” (Jo 12,24-25).

Evidentemente, não devemos correr atrás do martírio. O martírio é consequência de situações adversas que enfrentamos no mundo que se opõe à proposta de Evangelho que nos propõe que busquemos sempre garantir a vida plena para todos.

Em meio a tantas histórias de heróis da fé se insere a história dos Protomártires do Brasil que em terras potiguares alvejaram suas vestes com o sangue do martírio porque não abominaram a fé católica e mantiveram-se fiéis aos ensinamentos que haviam recebido da Santa Mãe Igreja Católica Apostólica Romana. Entre eles destacam-se Mateus Moreira (leigo), o padre Ambrósio Francisco Ferro, o padre André de Soveral e outros leigos entre crianças, jovens e adultos. O testemunho dado por estes fiéis é, indiscutivelmente, fruto de uma experiência de fé. Por causa da fé eles deram sinal de prontidão, constância e coragem. Este reclamo é importante para nós que também somos chamados a testemunhar a nossa fé perante a Igreja e o mundo.

Como chegaram aos meus ouvidos a história dos Protomártires do Brasil? Numa certa ocasião, eu, então seminarista, estudante de filosofia, por volta do ano de 1985, se não me falha a memória, fazendo pastoral na Paróquia de São Gonçalo, em São Gonçalo do Amarante, Estado do Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de conhecer várias comunidades, entre elas a comunidade de Uruaçu. Juntamente com o então seminarista Nicodemos, companheiro de pastoral, fizemos junto a esta comunidade uma experiência de missão. Recordo-me muito bem que na programação estabelecida realizamos uma caminhada penitencial, partindo da comunidade de Uruaçu com destino a um terreno descampado localizado a alguns quilômetros da mesma. E porque motivo fomos a este terreno? Porque aquela comunidade já considerava aquele local como a “Terra dos Mártires”. Nas Missas celebradas nesta comunidade já era comum rezarem na intenção dos mártires de Uruaçu. Ali, já era perceptível entre alguns fiéis, um sinal de devoção àqueles que tinham sido vítimas da atrocidade dos malvados que quiseram impedir a manifestação da fé católica. Foi quando eu pude perceber, portanto, que aquele terreno para onde nos dirigíamos nas caminhadas penitenciais não era simplesmente um terreno a mais, mas, tratava-se de um espaço que simbolicamente representava a história dos heróis da fé que banharam a terra de sangue, que foram triturados como o trigo e moídos como a uva para fertilizar o chão, onde hoje está edificado o Santuário a eles dedicado.

Posteriormente, começa a mobilização em âmbito arquidiocesano para os encaminhamentos e abertura do processo de canonização dos Mártires de Cunhaú (Canguaretma-RN) e Uruaçu (São Gonçalo do Amarante-RN), considerando que o morticínio se deu em dois lugares. O processo começou no pastoreio do Arcebispo Dom Alair Vilar Fernandes de Melo, por volta do ano de 1987 e prosseguiu com os demais sucessores, Dom Heitor de Araújo Sales, Dom Matias Patrício de Macedo e Dom Jaime Vieira Rocha, quando finalmente, já no pontificado do Papa Francisco, no ano de 2017, os mártires foram declarados Santos Protomártires do Brasil. Merece destaque, e seria injusto não relatar, a pessoa do Monsenhor Francisco de Assis Pereira, em memória, que, além de ter sido entusiasta pela causa, conseguiu organizar e acompanhar bem o processo que foi encaminhado para a Congregação para a Causa dos Santos em Roma. Até chegar à culminância desta declaração muitos relatos de milagres e graças recebidas foram se multiplicando na experiência de fé entre os devotos, o que serve, nos tempos atuais como sinais de motivação para nós que peregrinamos na fé.

Eu posso testemunhar que a história dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu ajudou-me, consideravelmente, a aprofundar a minha fé e a buscar raízes sólidas que me ajudam até hoje a viver a minha vocação e o ministério de sucessor dos Apóstolos que me foi confiado pelo Santo Padre, o Papa Francisco.  Entre os ícones que tenho em minha sala de produção literária está o ícone dos Santos Protomártires do Brasil. Nos momentos mais difíceis da vida em que os desafios ameaçam me atormentar, eu recorro sempre à nossa Mãe, Maria Santíssima, e a estes santos a quem afetivamente (pelo fato de eu ser das terras potiguares), sinto-me profundamente ligado, e peço para que eles intercedam a Deus por mim.

O Papa Francisco na Encíclica Gaudete et Exultate, n° 4, diz que “os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm conosco laços de amor e comunhão”. E justifica a sua afirmação com o texto do Apocalipse de São João: “Vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido mortos, por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que deram. E clamavam em alta voz: “Tu, que és o Poderoso, o Santo, o Verdadeiro! Até quando esperarás para julgar?” (6, 9-10).

Portanto, mantenhamos a nossa amizade com os santos, pois, sua heroicidade na prática das virtudes, o sacrifício da vida no martírio e o oferecimento da própria vida pelos outros, mantido até à morte, manifestam uma imitação exemplar de Cristo, e é digna da admiração de todos nós fiéis discípulos missionários de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Dom Edilson Soares Nobre

Bispo Diocesano de Oeiras – PI

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