NOS PASSOS DO BOM JESUS APRENDEMOS A AMAR ATÉ O FIM
“Ele veio morar entre nós!”
Prezados irmãos e irmãs! Romeiros e Romeiras, devotos do Bom Jesus dos Passos!
Eu começo este sermão pedindo uma prece pelo meu irmão no episcopado, Dom Sebastião Bandeira, Bispo de Coroatá-MA, que iria proferir o Sermão do Bom Jesus, mas, em consequência de um acidente de veículo ocorrido há 15 dias,ficou impossibilitado de vir até nós. Um milagre aconteceu em sua vida! Ele está se recuperando, graças a Deus, mas precisando de repouso. Quis a Providência Divina que eu, Dom Edilson Nobre, lhes dirigisse a palavra.
Nesta amada cidade de Oeiras, a Capital da Fé do Piauí, realizamos um ato de devoção e piedade popular que transcorre o tempo há mais de 200 anos; trata-se da tradicional procissão fazendo memória dos passos percorridos pelo Bom Jesus em sua via crucis desde sua condenação à morte no Pretório até o Calvário.
Nesta ocasião, fazemos a memória de um homem inocente, que foi preso, torturado, julgado e condenado injustamente à pena máxima: a morte na cruz, reservada aos malfeitores, aos bandidos, aos agitadores e subversivos da ordem estabelecida.
Em atitude de fé, acompanhamos, nesta procissão, a sorte de um inocente que, como descreve o profeta (Is 53,7), “foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; tal como cordeiro, ele foi levado para o matadouro; e, como ovelha muda diante do tosquiador, ele não abriu a boca”. Irmãos e irmãs, bois morrem berrando e porcos dão gritos ensurdecedores quando vão ao matadouro. Ovelhas vão para a morte silenciosamente, sem resistência. Assim, ocorreu com o Bom Jesus, com o Filho de Deus, ele não se opôs, mas se entregou livremente, foi para a morte sem abrir a boca.
No Jardim das Oliveiras (o Getsêmani), o Senhor foi preso pela guarda do Sinédrio que estava armada de espada e acompanhada por uma tropa com lanternas e tochas, armada de paus e de cacetes. Na frente, vinha Judas, seu discípulo, cujo beijo serviu de senha para entregá-lo nas mãos de seus inimigos.
É a dura realidade de sentimentos instrumentalizados que transforma gesto de afeto, de amizade, de proximidade e de cordialidade em traição.
Alguns que estavam com Jesus, naquela hora, quiseram defender seu Senhor e atacar com a espada. Pedro chegou a ferir um servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Entretanto, o Senhor o advertiu para que guardasse a espada na bainha. O Bom Jesus quis evitar um banho de sangue. Era preciso que ele bebesse daquele cálice. Ele poderia ter resistido com uma legião de anjos, mas não foi para o confronto, não adotou a violência como instrumento de defesa. Ao contrário, se apresentou de forma livre e altiva àqueles que o procuravam: “A quem procurais?”, disse Jesus. Responderam eles: “Jesus de Nazaré”. Aos quais, ele se apresentou: “Sou eu”. O Evangelista João relata que diante dessa resposta, eles recuaram e caíram por chão.
Não é normal que alguém procurado pela polícia se apresente dessa forma; frequentemente quando alguém é procurado, foge. Jesus não fugiu e se apresentou de cabeça erguida, como fazem os inocentes. Pela segunda vez, ele replicou, “já vos disse que sou eu. Se é a mim que procurais, deixai os outros ir embora”. Era necessário que nenhum daqueles que o Pai lhe deu se perdesse. Apenas um só homem devia morrer por todo o povo, como vítima de expiação do pecado de todos.
“Oh, vós! Oh, vós! Vós que por aqui passais; olhai, dizei, quem neste mundo sofreu mais!” (bis)
Como é possível acreditar que o poder das trevas pudesse matar o Bom Jesus que nenhum mal fizera e só realizou o bem? Como acreditar que se pudesse matar o Servo do Senhor, que se pudesse matar o Filho de Deus? Era essa a loucura e o escândalo da cruz de que falava São Paulo (1Co 1,23). Mas, Deus não poderia ter evitado a cruz? Como é possível que os homens pudessem matar Deus? Ora, homem algum pode superar o poder de Deus e matá-lo, a menos que o próprio Deus o permita. E por que teria permitido? “O Senhor fez cair sobre ele os crimes de nós todos” (Isaías 53,6). Deus entregou seu Filho ao mundo para propiciar a nossa redenção. O próprio Senhor já havia dito: “eu sou o bom pastor que dá a vida pelas ovelhas […] Ninguém tira a minha vida, sou eu quem a dou livremente” (Jo10,11.18). Como o cordeiro imolado que tira o pecado do mundo, o Senhor ofertou livremente sua vida para propiciar a misericórdia de Deus em benefício de nossa redenção.
Seguimos, nesta procissão, os passos daquele que carregou sobre seus ombros nossos pecados. Acompanhamos um Deus que nos ama sem limites, que não poupou seu próprio Filho que, por sua vez, nos amou ao extremo de entregar a sua vida para nos redimir do pecado e da morte.
No Jardim das Oliveiras, ao ser preso, o Senhor não opôs resistência. Naquela noite de quinta-feira santa, o Bom Jesus dos Passos foi levado à casa do sumo sacerdote, Caifás, onde os escribas, sacerdotes e anciãos estavam reunidos (Mt26, 57; Mc 14, 56). Naquela mesma noite, diante do Sinédrio, ele foi julgado com testemunhos falsos, zombado e surrado (Lc 22, 54.66).
Enquanto o Sinédrio estava reunido, no meio do pátio da casa do sumo sacerdote, alguns empregados acenderam uma fogueira e se assentaram ao seu redor para se aquecerem. Ali estava Pedro e, ao ser reconhecido, negou conhecer seu Mestre e Senhor. Já não bastava a traição de Judas. Até mesmo o discípulo que jurara de que jamais o abandonaria ainda que todos o abandonassem, aquele que dissera que iria com o Senhor até a morte o negou por três vezes diante daqueles empregados. A negação de Pedro é a negação de todos nós que se concretiza quando renegamos o Senhor nos contextos em que somos chamados a testemunhar a fé e a defender a vida do inocente e do injustiçado.
“Oh, vós! Oh, vós! Vós que por aqui passais; olhai, dizei, quem neste mundo sofreu mais!” (bis)
Na sexta-feira de manhã, ocorre outra reunião do Sinédrio que submeteu o Senhor a um novo julgamento, acusando-o de blasfêmia, já que as autoridades religiosas dos judeus não o aceitavam como Filho de Deus (Mc 14, 53-65). Diante das acusações, o Senhor permanece em silêncio, não se defende nem responde às acusações levantadas contra ele. Por fim, ele foi condenado pelas autoridades judaicas, pois o Senhor não podia negar que realmente Ele é o Filho de Deus.
Após ter sido condenado no Sinédrio, como eles não tinham prerrogativa de executar ninguém, já que esse tribunal julgava apenas transgressões relativas à lei judaica e somente a autoridade romana podia executar a pena de morte, os líderes judeus levaram Jesus para Pôncio Pilatos, o governador da província romana da Judeia, e pediram-lhe a pena de morte para Jesus de Nazaré.
Quais as acusações apresentaram para pedir a morte de Jesus? Foram três: a de que o Bom Jesus, com seu ensinamento, incitava o povo à revolta desde a Galileia até a Judéia, desestabilizando a ordem pública; que ele pregava a rebelião fiscal para que o povo não pagasse os impostos a Roma e a de que ele havia proclamado ser rei no Reino de César.
Pilatos considerou a última acusação, a de que ele se proclamou rei, investigou-o e constatou que ele era inocente. Ao descobrir que ele era Galileu e que pertencia à jurisdição do tetrarca Herodes, Pilatos encaminhou Jesus a HerodesAntipas, o mesmo que havia mandado decapitar João Batista. Há muito tempo, Herodes queria se encontrar com Jesus, era grande a sua curiosidade para assistir, como se estivesse num espetáculo, os milagres de Jesus, como se o Senhor fosse um ilusionista, um mágico. Herodes queria ver Jesus, não movido pela fé, mas pelo gosto do espetáculo a fim de satisfazer sua curiosidade. Ele teve a oportunidade que buscava, entretanto o Senhor quase não respondeu as suas perguntas nem as graves acusações dos sumossacerdotes e dos doutores da lei. No fim, o Bom Jesus foi zombado por Herodes e por seus soldados, que o vestiram com um manto resplandecente e, não vendo nele ameaça, Herodes o envia novamente a Pilatos.
Pela segunda vez, o Senhor se encontra diante de Pilatos, seus acusadores continuaram a pedir a pena de morte para ele. Pilatos reconhece a inocência de Jesus, pois o próprio Herodes o interrogou, não viu nenhuma ameaça nele e o remeteu de novo para ele. Aos inimigos do Senhor, Pilatos apresentou a proposta de torturá-lo e, logo depois, soltá-lo. Entretanto, eles não aceitaram, não bastava a tortura, aquele homem tinha que morrer! Pilatos apresentou a alternativa de dar o indulto de Páscoa e soltá-lo. Mas eles não aceitaram e influenciaram a opinião da maioria para que pedisse a liberdade para Barrabás e a pena de morte para Jesus. Num ato de irresponsabilidade, a autoridade romana lava as mãos. E, para satisfazer as massas, para agradar a maioria, sentencia o Senhor da vida à pena de morte, entregando o Senhor à fúria das turbas que confundem a justiça com vingança. São fatos que nos levam a pensar quando a justiça é manipulada pela opinião pública; quando em nome da maioria e do espetáculo, a justiça se transforma em vingança e aqueles que são condenados não têm seus direitos humanos respeitados.
“Eis o homem”, diz Pilatos a multidão, apresentando o Senhor, desnudo diante da massa, para que dele pudesse se divertir como quisesse. Já condenado à morte, o Senhor foi submetido à tortura, flagelado ao limite de suas forças, humilhado e zombado. Fantasiaram-no de rei, vestiram-no com um manto vermelho, puseram uma coroa de espinhos sobre sua cabeça e uma vara em sua mão direita representando o cetro real. Após a sessão de zombaria e tortura, o Senhor segue para o calvário com uma pesada cruz nas costas. Ele já não tinha mais forças para carregar a cruz. Então, pegaram certo Simão, da cidade de Cirene, que voltava do campo para a cidade e o forçaram a carregar a cruz de Jesus (Lc 23, 26).
“Oh, vós! Oh, vós! Vós que por aqui passais; olhai, dizei, quem neste mundo sofreu mais!” (bis)
Estes não são apenas fatos do passado. Muitos, em nossos dias, são forçados a carregar uma cruz que é imposta pela ganância do dinheiro e pela lógica que converte a pessoa em coisa, em objeto e em mercadoria, como ocorre com o tráfico de pessoas, o trabalho escravo, a exploração infantil e a prostituição forçada.
Uma grande multidão do povo seguia os passos do Senhor naquela via dolorosa. Enquanto mulheres batiam no peito e choravam por Jesus, ele voltou-se para elas e disse: “Mulheres de Jerusalém não chorem por mim! Chorem por vocês mesmas e por seus filhos!” (Lc 23, 27).
A lamentação das mulheres de Jerusalém, nesse encontro com Jesus, ressoa ainda hoje aos nossos ouvidos: são gritos de mães que choram seus filhos que migram por não encontrarem em seus lugares condições de renda, de trabalho e de estudo; são gritos de mães que choram seus filhos destruídos pela dependência do álcool e da droga, sem perspectiva de futuro; são gritos de mães que lamentam por não terem condições dignas de moradia; daí a razão porquenós estamos realizando a campanha da fraternidade com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema: “Ele veio morar entre nós”.
Muitas mulheres que eram discípulas do Bom Jesus seguiam silenciosamente seus passos e chegaram com ele até o lugar da crucifixão, entre elas estava Maria, a mãe de Jesus. É no Calvário, que ocorre o encontro dramático entre mãe e filho. Façamos esta memória conduzindo a imagem da Virgem Dolorosa, colocando-a mais para mais perto do Bom Jesus dos Passos.
Pela virgem dolorosa, nossa Mãe tão piedosa! Perdoai-me, meu Jesus…
Não há maior dor para uma mãe do que ver um filho destruído pela violência e pela prepotência daqueles que deveriam defender a vida. “Mãe, eis aí o seu filho”. A frase é carregada de ternura e encerra de forma enigmática um grande drama, tal como nos relata São João Evangelista (19,25-27): “Jesus viu sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava. Então disse à mãe: “Mulher, eis aí o seu filho”. Depois disse ao discípulo: “Eis aí a sua mãe”. E dessa hora em diante, o discípulo a recebeu em casa”.
A Virgem Santíssima, mulher forte, mulher das dores que, com seu silêncio e coração materno acompanha seu filho desde o presépio, agora o contempla pregado na cruz. Nesta ocasião, o Senhor nos entregou como nossa mãe. A ela amamos e veneramos pela sua bravura, pela sua serenidade, pela presença discreta, maternal e fiel em nossa vida. Não há o que temer, pois temos uma mãe que nos acompanha até o fim, até o extremo de nossa dor e que jamais nos desempara.
Lá da cruz, o Senhor perdoa seus algozes, abre seus braços acolhendo a todos nós, nos reconduzindo para Deus. “Em tuas mãos, entrego meu espírito”.
“Abre teus braços, oh, Bom Jesus, nós navegantes ao Porto conduz (bis)”
O Pai não o decepciona. Morto na cruz e sepultado, no terceiro dia o ressuscita e o constitui como Cristo e Senhor. A cruz não teve a última palavra sobre sua vida. Ele ressuscitou! Ele venceu. Assim também a cruz não tem a última palavra sobre nós. Nós também venceremos e com Ele reinaremos. “Nos passos do Bom Jesus aprendemos a amar até o fim”!
“Como Jesus, vou carregar a minha cruz pra poder ressuscitar” (bis).










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