Sermão do Descimento da Cruz proferido por Dom Edilson Nobre

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Irmãos e irmãs, em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Estamos reunidos no átrio desta Igreja-Catedral de Nossa Senhora da Vitória, na cidade de Oeiras, no contexto da celebração da Paixão de Senhor, trazendo à memória toda a experiência de dor, de abandono, de traição, de covardia, de Cruz, sentida, acolhida, experimentada e resignificada pelo nosso Salvador, o Rei do universo, o construtor da unidade, da justiça e da paz, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Fixemos o nosso olhar sobre o Cristo na Cruz… Eu vos pergunto: “Oh vós, oh vós! Vós que por aqui passais! Olhai, dizei, quem neste mundo sofreu mais?” (cantado).  Escutemos o texto do Profeta Isaías enquanto mantemos o nosso olhar sobre o Cristo pregado na cruz (Is 52,13-53,10).

“Ei-lo, o meu Servo será bem sucedido;/ sua ascensão será ao mais alto grau.
Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-lo – tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano -,
do mesmo modo ele espalhará sua fama entre os povos.
Diante dele os reis se manterão em silêncio, vendo algo que nunca lhes foi narrado
e conhecendo coisas que jamais ouviram.
Quem de nós deu crédito ao que ouvimos? E a quem foi dado reconhecer a força do Senhor? Diante do Senhor ele cresceu como renovo de planta
ou como raiz em terra seca.
Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos,                                                                 não tinha aparência que nos agradasse.
Era desprezado como o último dos mortais,
homem coberto de dores, cheio de sofrimentos;
passando por ele, tapávamos o rosto;
tão desprezível era, não fazíamos caso dele.
A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado!
Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes;
a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura.
Todos nós vagávamos como ovelhas desgarradas, cada qual seguindo seu caminho;
e o Senhor fez recair sobre ele o pecado de todos nós.
Foi maltratado, e submeteu-se, não abriu a boca;
como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam,
ele não abriu a boca. Foi atormentado pela angústia e foi condenado.
Quem se preocuparia com sua história de origem? Ele foi eliminado do mundo dos vivos; e por causa do pecado do meu povo foi golpeado até morrer.
Deram-lhe sepultura entre ímpios, um túmulo entre os ricos, porque ele não praticou o mal nem se encontrou falsidade em suas palavras.
O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação,
ele terá descendência duradoura, e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor”.

À luz do Novo Testamento facilmente podemos identificar a figura do Servo Sofredor com a Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. O trecho é revelação da poderosa e salvífica ação divina. Deus, porém, realiza este seu ato de poder apresentando seu Servo na máxima humilhação, mas os homens não o aceitam, porque parece “ferido por Deus”. No entanto, segundo o Profeta, esse sofrimento é querido por Deus para a nossa salvação. É Deus quem age em seu Servo e é o Servo que voluntariamente se une à ação de Deus e a faz sua.

Neste caso, o sofrimento e a crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo que parece ser uma tragédia, fruto da violência humana, é na verdade um caminho que garante a remissão e a vida nova a todos nós pecadores, necessitados da graça e do amor misericordioso de Deus.

A cruz foi o meio necessário para que, carregando sobre seus ombros este peso e derramando sobre ela o seu sangue, Deus pudesse nos resgatar de nossos pecados, pois, não há ressurreição sem cruz. Assim sendo, a Cruz que era sinal de condenação e de derrota, passa a ser para nós cristãos sinal de salvação.  No entanto, sabemos também que toda a experiência de dor vivida por Jesus não foi um espetáculo, uma encenação, um faz de conta; foi o verdadeiro martírio que não desejamos para nenhum ser humano.

Parece-me ser pertinente, nesta ocasião, recordarmos as ultimas palavras ditas por nosso Senhor no Calvário, antes de sua morte:

  1. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” – A Palavra do Perdão. Jesus foi capaz de perdoar aqueles que o condenaram, pois estes não tiveram a graça de compreender o mistério de Deus. Todos nós, assim creio, somos desejosos de viver a paz no cotidiano de nossas vidas. Mas asseguro-lhes que está condenado a viver o inferno da angústia aquele/aquela que não é capaz de perdoar, e, consequentemente, este não viverá em paz. Cantemos: “Renova-me Senhor Jesus/ Já não quero ser igual/ Renova-me Senhor Jesus/ Põe em mim teu coração/ Porque tudo que há dentro de mim/ Necessita ser mudado Senhor/ Porque tudo que há dentro do meu coração/ Necessita mais de Ti”.
  2. “Em verdade eu vos digo: hoje estarás comigo no paraíso” – A Palavra de Salvação. Palavras dirigidas a um ladrão, um malfeitor arrependido. No último instante de sua vida, Jesus ainda foi capaz de converter e salvar um pecador. Isto me fez lembrar a experiência marcante que eu vivi terça feira passada, quando visitei os encarcerados que se encontram no presídio de nossa cidade. Eram em torno de 90 detentos. Creio que 80% são jovens. Senti uma espada traspassando o meu coração ao olhar nos olhos daqueles filhos de Deus que têm uma visão míope da vida e que, por razões as mais variadas possíveis, se desviaram do que rege a lei e do que ensinaram suas famílias. Mas eu me impressionei com o quanto eles foram capazes de silenciar para me escutar, para escutar a Palavra de Deus. Eu espero em Deus que para aqueles jovens possam ter sentido o toque do amor e da misericórdia de Deus e, fortalecidos por este Amor, ao saírem daquele mundo atroz, sejam capazes de dar a volta por cima buscando novos caminhos, novas perspectivas para suas vidas, proporcionando aos seus familiares e à sociedade a superação da violência e, assim, Jesus poderá dizer para estes: “Hoje estarás comigo no paraíso”. E nós, sociedade, principalmente nós cristãos, sejamos capazes de superar a hipocrisia e não ter medo de dar a estes novas oportunidades, seja no mundo do trabalho, seja no seio da família, seja na comunidade. “Entre nós está e não o conhecemos, entre nós está e nós o desprezamos”.
  3. “Mulher, eis aí o teu filho… Eis aí a tua Mãe” – A Palavra de Amor. Um amor infinito e sem medida que garante o zelo e a proteção à sua Mãe, assim como garante também aos filhos (toda a Igreja) a certeza de que experimentarão para sempre o amor materno e a mediação de Nossa Senhora em todas as suas necessidades. Muito me honra saber que em nossa Igreja não somos órfãos de mãe e que Nossa Senhora está no céu, sempre junto a seu Filho, intercedendo por nós, como ela fez nas Bodas em Caná da Galileia ao perceber que não havia mais vinho. “Oh, Maria! Oh, Maria! Concebida sem pecado! Rogai por nós, que recorremos a vós”.
  4. “Tenho sede” – Palavra de sofrimento físico – Ele que tantas vezes disse aos que o buscavam: “Quem tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37). Ele que no encontro com a samaritana ao lado do poço de Jacó sutilmente chegou pedindo água para estabelecer um diálogo com aquela mulher e no fim daquele diálogo foi ela que disse: “Senhor, dá-me desta água para que eu não tenha mais sede” (Jo 4,15). Hoje ressoa a voz de Jesus: “Tenho sede”. Eu escuto nesta voz o ressoar do grito de tantos irmãos e irmãs inocentes que nos imploram: “Tenho sede de justiça, tenho sede de paz, tenho sede de alegria, tenho sede de dignidade, tenho sede de respeito, tenho sede bons tratos, tenho sede… “Se as águas do mar da vida quiserem te afogar segura na mão de Deus e vai. Se as tristezas desta vida quiserem te afogar segura na mão de Deus e vai”.
  5. “Eli, Eli, lama sabachtâni? – Meu Deus, meu Deu, porque me abandonastes?” – A Palavra de angústia emocional. Jesus, apesar de ser filho de Deus, passou por tudo que um ser humano passa. É na experiência do abandono que somos chamados a gritar e implorar para que o nosso Pai do céu não nos abandone. Eu, sinceramente, olhando para a aflição que vive o nosso povo brasileiro, tão sem esperança, tão decepcionado por causa do descaso e por causa de tanta corrupção, fico a pensar que este parece ser o grito mais ecoa em meio ao nosso povo sofrido: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes”. Cantemos: “Também sou teu povo, Senhor! E estou nesta estrada, somente tua graça me basta e mais nada”.
  6. “Tudo está consumado!” – A Palavra de Vitória. Tudo está consumado porque Ele cumpriu a sua missão; Ele foi obediente até a morte e morte de cruz. Pra que isto? Para garantir a nossa salvação. Nada mais gratificante na vida do que a certeza do dever cumprido. A cada um de nós compete algumas responsabilidades. Uns mais outros menos, de acordo com as nossas possibilidades. Ninguém deve fugir de suas responsabilidades (gestor, pai, mãe, educador, sacerdote, profissional). Quando não cumprimos nossa missão, isto causa desequilíbrio, desarmonia, violência na vida da comunidade. E isto é tudo que Igreja nos pede para evitar. Às vezes, isto custa muitos sacrifícios, mas não existe nada mais prazeroso do que a certeza de que as nossas conquistas são frutos do suor e da entrega. “Vitória, tu reinarás! Oh, Cruz, tu nos salvarás”.
  7. “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito” – A Palavra de fé. A morte física, e o que espera o ser humano do outro lado da morte é uma das dúvidas que mais atormenta a alma do ser humano. Poder enfrentar este momento com paz e convicção é sinal de grande fé. Quantos de nós hoje podemos dizer que estamos prontos a partir? Jesus sinalizou o tamanho da sua confiança no Pai, ao terminar a sua vida aqui com a palavra de Fé. “Eu me entrego, Senhor em tuas mãos, e espero pela tua salvação”.

Ao olhar para o Cristo Crucificado nos damos conta de que o seu tempo, enquanto homem, em meio ao povo foi muito curto (33 anos). Penso que esta realidade nos ajuda a refletir sobre o nosso tempo.  Um sábio Bispo da Arquidiocese de Natal, chamado Dom Nivaldo Monte, já falecido, um dia disse: “A vida é profundidade, não é extensão”. Devemos nos preocupar como vamos viver o tempo e não quanto tempo vamos viver. Dizia Dom Nivaldo: “Não podemos confundir a vida com a existência. Viver é mais profundo, é mais transcendental, do que simplesmente existir. Viver é realizar, a existência prescinde da ação. As pedras existem, mas como são inertes, não vivem. Se a vida está na ação, mais vive aquele mais age”. Assim, os Santos de nossa Igreja, ao olharem para Cristo, procuraram viver com intensidade suas vidas, mesmo que em extensão, para alguns, o tempo tenha sido curto.  Viveram porque agiram e porque agiram transformaram vidas. É isto que Jesus Cristo espera de nós.

 

 

Dom Edilson Soares Nobre

Bispo Diocesano de Oeiras

 

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