Sermão do Descimento da Cruz proferido pelo Padre Kleyton Vieira

Compartilhe:

Irmão e irmãs presentes no adro da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Vitória, os que nos acompanham pelas emissoras de TVs, rádios, pelos meios de comunicação da paróquia. Estamos na Sexta-Feira da Paixão. Três perguntas são as colunas deste sermão. Uma primeira: o quanto custou o nosso resgate? Contemplando a cruz de Cristo devemos ter diante dos nossos olhos o preço do nosso resgate, da nossa salvação. Como diz o profeta Isaias: “eram na verdade os nossos sofrimentos que Ele carregava e a gente achava que Ele era um castigado, alguém por Deus ferido e massacrado”, como também: “por suas chagas nós fomos curados”. O castigo que deveria abater-se sobre nós, caiu sobre Ele. Ele carregou o preço das nossas iniquidades. A sua paixão foi dolorosíssima: Cristo preso, amarrado, arrastado indignamente, esbofeteado, açoitado até a sua carne se converter numa pura chaga, coroado de espinhos, esfolado e esmagado sob o peso da cruz e de nossos pecados, cravado com pregos ao madeiro, torturado pela dor, pela sede, pelo esgotamento, caluniado, julgado iniquamente, condenado injustamente; alvo de dolorosa ingratidão, de hedionda traição; é atingido pelas troças mais grosseiras, pelos insultos mais ferinos, por escárnios e tapas no rosto. Não o deixaram morrer em paz, desrespeitaram com zombarias e insultos até os últimos instantes da sua agonia. Os que passavam perto da cruz sacudiam a cabeça e diziam: “se és o Filho de Deus, desce da cruz”. Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam de Jesus nesta hora: “Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo. Se é rei de Israel, desça agora da cruz”. Esse foi o preço do nosso resgate, mas nada o fez recuar. Jesus fez tudo isso para nos livrar da maldição do inferno, da condenação eterna. Nenhum ser humano tem mérito suficiente para se salvar, é bom o suficiente para merecer o céu. A salvação é dom, é dádiva de nosso Senhor. O povo daquela época achava que só quem sofria eram os maus, os castigados, mas o Profeta Isaías, séculos antes de Jesus já falava do Servo Sofredor e, com este poema, nos ensina que os bons também sofrem, aplica-se inclusive a Jesus, que mesmo sendo inocente foi levado como ovelha ao matador. A paixão de Jesus é coroamento da sua vida terrena. Não podemos ver a cruz e a morte de Jesus como um fato isolado, mas como consequência da sua missão. Desde o início, Jesus tinha consciência da missão que o Pai lhe confiara: anunciar a Boa Nova aos pobres, sarar os corações feridos, pôr em liberdade os oprimidos. Para concretizar este projeto, Jesus passou pelos caminhos da Palestina “fazendo o bem” e anunciando a proximidade de um mundo novo, de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos. Ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem mesmo os pecadores; ensinou que os leprosos, os paralíticos, os cegos não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus; ensinou que eram os pobres e os excluídos os preferidos de Deus e aqueles que tinham o coração mais disponível para acolher o Reino; e avisou que o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, o fechamento só podiam conduzir à morte. O projeto libertador de Jesus entrou em choque – como era inevitável – com a atmosfera de egoísmo, de má

 

vontade, de opressão que dominava o mundo. As autoridades políticas e religiosas sentiram-se incomodadas com a denúncia de Jesus: não estavam dispostas a renunciar a esses mecanismos que lhes asseguravam poder, influência, domínio, privilégios; não estavam dispostos a arriscar, a desinstalar-se e a aceitar a conversão proposta por Jesus.

A cruz de Jesus é consequência de tudo aquilo que Ele fez: veio derrubar os muros que nos separam do amor de Deus e do próximo, porque veio para derrubar a prepotência do coração humano, porque veio para destruir o pecado no mundo, porque veio para erguer os caídos na vida, porque veio para animar os que não encontravam mais uma razão para viver, porque amou, porque fez o bem. Mas Deus nunca permite que um homem justo permaneça continuamente na humilhação. Se o justo é humilhado, virá sempre a resposta de Deus que o eleva. Por isso que, com a sua morte, Ele transformou sofrimento em coroação, desgraça em graça; no momento da sua morte ele passa para cada um de nós a vida, estamos vivos aqui nesta praça pela graça de Deus. Ele dá sentido à própria cruz ao compreender que o grão, se não cair na terra, morrer, não produz frutos. O sentido da vida não é preservar-se de todo tipo de dor, mas fazer da sua dor uma oportunidade para o crescimento, amadurecimento, de serviço em favor da humanidade. Se o Pai permitiu a morte do Filho na cruz foi porque essa morte geraria em cada um de nós o fruto da ressurreição. Uma segunda pergunta: o quanto Deus nos amou? Não podemos medir, mas diante dos fatos podemos dizer que foi amor total, não foi um amor dividido. O sangue e a água que jorraram do seu lado aberto é sinal de entrega total e sem reservas. É um ato de mais puro amor. Podemos dizer que o sangue mais salutar e a água mais pura que jorraram sobre a face da terra foi de Jesus, porque ali é o amor entregue por nós. Foi amor gratuito, não foi por interesse econômico, político ou ideológico; não foi por fazer-se melhor do que os outros, nem para ter fama, mas foi por amor às pessoas e aos que mais sofrem. Foi amor obediente, capaz de renunciar a todos os privilégios e poderes; capaz de assumir a condição de escravo condenado injustamente, de se colocar a serviço de todos. Como diz São Paulo: “Ele foi obediente até a morte e morte de cruz”. Foi amor que perdoa. Que do alto da cruz perdoa os seus algozes. Não alimenta ódio, ressentimento, vingança, simplesmente ama. São João diz: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo13,1). Amar até o fim significa que, no caminho da sua entrega por nós na cruz, Jesus seguiu todas as etapas, sem deixar uma só, e seguiu até o final. Amar até o fim também significa que Cristo, na cruz, nos amou sem limite algum, sem recuo algum, sem se poupar em nada, até o extremo. Nada limitou o amor do Senhor por nós. Não se deteve a nenhuma barreira. Acima do seu bem-estar, da sua honra, da sua vida, colocou a salvação de cada um de nós. O amor de Cristo começa sem que nós o tenhamos amado, não é retribuição, é puro dom. Como diz São João: “nisso consiste o amor, não em termos amado a Deus, mas em que Ele nos amou por primeiro e enviou o seu filho para expiar os nossos pecados”. (1 Jo4,10). É amor – sacrifício, não é autoglorificação e nem sacrifícios de animais, mas é o sacrifício de si mesmo, em que o próprio Jesus é sacerdote, altar e o cordeiro. É ele quem sacrifica, é Ele o sacrificado, é Ele onde o sacrifício do sacrificado se realiza. Ele não sacrifica algo externo, mas oferece a si mesmo. É o amor-esperança, a glória da cruz mostra que a vida nasce da morte, que a

 

vitória vem do fracasso, que a salvação vem do sacrifício de si em favor dos outros. Jesus veio para salvar aqueles que lhe acolhe e acolhem o seu projeto. A cruz é o lugar da exaltação de Cristo, “o que se humilhou até a morte e morte de cruz, Deus o exaltou sobremaneira e deu-lhe o nome mais excelso e mais sublime, perante o qual se dobrem todos os joelhos”. Por isso, podemos encontrar na cruz a força para superar todos os sofrimentos, desafios, dores, fracassos. É preciso acreditar na força do amor que vence o ódio, na vitória da ressurreição. Crer em Jesus é crer na força da cruz, na humildade, no serviço aos outros, na força transformadora de colocar nossa vida a serviço. Porque a cruz como sacrifício de Cristo é uma pregação em favor dos menos favorecidos, empobrecidos, abandonados. É fruto da coerência de vida, de sua fidelidade ao projeto do Pai. A terceira pergunta: Qual o alcance da cruz de Cristo? Sabemos que Ele morreu por todos nós, para reunir todos os filhos dispersos sobre a terra. Todo ser humano está salvo pela cruz de Cristo, porque todos foram alcançados pela redenção realizada na cruz. Uma vez alcançados pela força redentora da cruz de nosso Senhor, nos perguntamos: como viver hoje? Quais a atitudes o seu amor deve provocar em nós. Todos falamos sobre o sacrifício que Jesus fez por nós, mas raramente falamos do sacrifício que Ele espera de nós. Santo Agostinho diz que: “a cruz não foi apenas o lugar do sofrimento, mas foi a cátedra de onde Jesus nos ensinou”. Ensinou o amor ao próximo: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Madre Teresa de Calcutar diz que a expressão: “tenho sede”, foi o último pedido de Jesus a humanidade, que a sua sede é de amor. Ensinou a esperança: “em verdade vos digo, hoje estarás comigo no paraíso”, é a promessa de salvação para aquele pobre homem, é a esperança que decorre da fé em Deus. Nos ensina o cuidado: “mulher, eis o teu filho” (Jo19,26); “filho, eis a tua mãe”, Maria nos é dada como mãe, mãe do seu corpo mítico, mãe dos pecadores, mãe de todos que professam a fé em Jesus. Nos ensina a oração: “meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste” (Mt27,46b), oração no sofrimento, nas adversidades, na escuridão, mas acima de tudo, oração de confiança nos desígnios de Deus, oração de abandono, desapego. Nos ensina a perseverança: “tudo está consumado”, “nas tuas mãos entrego o meu espírito”, ele perseverou até a morte. O nosso coração precisa se mover por um sentimento de gratidão. Não podemos ser indiferentes ao seu amor, precisamos preferir o amor de Deus ao pecado. O demônio não tem o poder de nos obrigar a pecar, mas tem o poder de nos tentar, de oferecer ocasiões de pecado. Cabe a nós decidir a quem queremos servir. É preciso estar em comunhão com Deus. Nos deixar atrair por Jesus. Antes de morrer Ele disse: “quando eu for elevado da terra atrairei todos para mim”. Ele é o único que pode transformar nossa vida. Diante de Jesus e da sua proposta, ou se aceita e muda de vida, ou foge e decepciona. Vejam quem ficou próximo de Jesus e quem fugiu. Porque no Gólgota nós temos o amor fiel e atravessado de uma mãe, a fidelidade de um discípulo, a coragem das mulheres que não abandonam e nem fogem, a esperança de um bom ladrão, o reconhecimento assombrado de um centurião e a indiferença de tantos outros. É preciso tomar a decisão de viver pra Jesus, de deixá-lo reinar em nossa vida. Nesta sexta- feira somos convidados ainda, à solidariedade diante dos crucificados de hoje. É preciso olhar a cruz sempre por dois lados: o dos crucificadores e dos crucificados. Do lado dos crucificadores, a cruz vai ser sempre morte. Mesmo muitas vezes cantando: “oh cruz tu

 

nos salvarás”, não podemos esquecer, que há cruzes que não são cristãs, mas legitimadoras da dor e da injustiça que recai sobre as vidas das pessoas mais feridas e excluídas. Há lugares e situações de vida dos quais não podemos deixar de exclamar: “sempre é sexta-feira da paixão”: miséria, violência, intolerância, solidão, relações de morte, sofrimentos, desmatamentos, doenças, sem trabalho, sem teto, os excluídos e tantas outras realidades, que são os crucificados de hoje. A cruz é um grito no qual cabem todos os gritos da humanidade. Aproximar-nos de cada uma dessas pessoas e realidades é tocar as chagas do crucificado, chagas que criamos e geramos com a nossa indiferença e omissão. Adentrar-nos em suas vidas é também apalpar o mistério. Nos deixemos transformar pela cruz de Cristo.

Descida de Jesus da Cruz

Foi aí, após seu último suspiro, que apareceram dois homens. Dois amigos sensibilizados. É nas horas difíceis que os amigos verdadeiros entram em ação. Quando todos abandonavam Jesus, José de Arimateia, que conforme o evangelho de Lucas 23, 50-51, “era um homem bom e justo”, era membro do Conselho, mas não tinha aprovado a decisão, nem a ação dos outros membros. Ele esperava a vinda do Reino de Deus. José de Arimateia havia pedido a Pilatos o corpo de Jesus. O outro, chamado Nicodemos, era fariseu, príncipe dos judeus. Certa vez procurou o Jesus à noite, às escondidas, e Jesus o preparou para aquilo que deveria acontecer: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15). Nicodemos estava convencido da divindade de Nosso Senhor.

Os dois aproximam-se do Monte   Calvário,   com as faixas, os lençóis e perfumes, e pedem permissão a Maria para enterrarem o seu filho.

  • PRIMEIRO RETIRAM A INSCRIÇÃO – INRI – Jesus Nazareno Rei dos Escrito em hebraico, latim e grego. Jesus interrogado por Pilatos, se era ele, o rei dos judeus, respondeu: “O meu Reino não é deste mundo. (…) eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que está com a verdade ouve a minha voz. (Jo 18,36). Pilatos, ciente deste diálogo mandou escrever e cravar o letreiro na cruz, contra a vontade dos chefes dos sacerdotes. A inscrição é agora uma profissão de fé incontestável. “Pai, Venha a nós o vosso Reino”. O Reino de Deus se fará na terra dos homens, quando os homens e mulheres ouvirem e obedecerem a voz de Cristo. Ele é “Caminho, Verdade e Vida”.
  • ENXUGAM O ROSTO DE Como fizera Verônica, quando Jesus estava sob o peso da cruz. Ela limpa o rosto cheio de sangue e suor. Quando retirou o véu, o rosto de Cristo ficou estampado no pano, que passou a ser chamado de santo sudário.
  • RETIRAM, DELICADAMENTE A COROA DE ESPINHOS. Puseram uma coroa falsa naquele que era o rei verdadeiro. Era uma cora de espinhos; não um espinho qualquer; era um espinho chamado “espinho africano”, medindo entre 7 e 10 cm, tão rígidos que poderiam até furar o crânio de uma pessoa. Os espinhos pontiagudos torturaram o corpo daquele que assumira a nossa natureza

 

humana, para que, mais próximo de nós nos fizesse sentir a liberdade e a suavidade do amor de Deus. Os espinhos simbolizam as consequências do pecado.

  • DESPRENDEM O BRAÇO DIREITO – RETIRAM O CRAVO E DESCEM O BRAÇO. Para

ser pregado na cruz, deitaram Jesus naquela cruz. O deitar de Jesus foi torturante, afinal, estavam suas costas perfuradas e doloridas. Ao ser crucificado, recebeu pregos em suas mãos e pés. Nem todos os condenados eram pregados. Aliás, os pregos eram uma condenação para os criminosos que tinham cometido os piores crimes. Jesus recebeu também, além dos açoites, o castigo dos pregos. Cada um desses pregos tinha de 15 a 20 cm, no formato de uma estaca, com uma ‘cabeça’ de 6 cm de diâmetro. A outra extremidade era pontiaguda.

  • DESPRENDEM O BRAÇO ESQUERDO – RETIRAM O CRAVO E DESCEM O BRAÇO.

Para o segundo prego ser pregado no seu outro braço, Jesus teve que ser “esticado” pelos soldados para o prego entrar na marcação que estava na cruz, já que a cruz era para Barrabás e não para Jesus. Sendo que Barrabás era mais alto que Jesus, e tendo os braços mais compridos, Jesus foi esticado para caber na cruz.

  • DESPRENDE OS PÉS. Na luta por um pouco de ar, Jesus era obrigado a apoiar-se no prego colocado em seus pés que eram maiores ainda que o de suas mãos, porque pregaram os seus dois pés E como seus pés não aguentariam por muito tempo sem rasgarem-se também, Jesus era obrigado a alternar esse ciclo simplesmente para poder respirar, sem encostar suas feridas das costas na cruz, para sofrer uma dor a menos.
  • Desceram o corpo de Jesus da Cruz. Desçamos a imagem da cruz, em silêncio. Desçamo-la com cuidado para que a nossa aspereza, nossa falta de fé e de sensibilidade não fira ainda mais o corpo de nosso Senhor, já tão ultrajado pelos açoites e pelos nossos Vamos colocá-la no esquife para sair em procissão. Em silêncio vamos pensando: como tenho correspondido a tão grande amor? como posso corresponder ainda mais? Vamos caminhado com fé e esperança.

Posts Relacionados

ANO
JUBILAR

AMIGOS DO
SEMINÁRIO

ESCOLA
MISSIONÁRIA
DISCÍPULOS DE
EMAÚS - EMIDE

Facebook

Instagram

Últimos Posts