Sermão do descimento da cruz proferido pelo Padre Clodomiro de Sousa e Silva

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Sermão do descimento da cruz

Oeiras-PI, 07 de abril de 2023

 

Excelentíssimo Reverendíssimo Dom Edilson, reverendíssimo Pe. Rogério, reverendíssimos padres, amados irmãos e irmãs, estamos reunidos, em oração e vigília, para celebrar a vitória de Jesus. O título com o qual veneramos a Virgem Maria, nesta amada Catedral, recorda-nos essa Vitória. No livro do Apocalipse, quando se diz que o Cristo “venceu”, não se está aludindo à sua Ressurreição e sim ao testemunho que ele deu do Pai, por toda a sua vida, até à morte na Cruz (Ap 3,21; 5,5; 6,2). Por isso, Jesus é ali chamado “a testemunha fiel… Aquele que nos ama e que nos lavou de nossos pecados com o seu sangue (Ap 1,5). A Ressurreição é obra de Deus Pai, em resposta ao testemunho de Jesus, como nos ensina São Paulo Apóstolo, na Carta aos Filipenses: “[Jesus] fez-se obediente até a morte, e morte numa Cruz, por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que está acima de todo nome…” (Fl 2,8-11).

Nas palavras do papa Bento XVI, pronunciadas por ocasião da celebração da Sexta-Feira Santa do ano de 2010: “Nesta noite, contemplamos Jesus com seu rosto cheio de dor, escarnecido, ultrajado, desfigurado pelo pecado do homem; amanhã de noite, o contemplaremos com sua face cheia de alegria, radiante e luminosa. Desde que Jesus desceu ao sepulcro, a tumba e a morte não são mais lugares sem esperança, onde a história se fecha no fracasso mais absoluto, onde o homem toca o limite extremo da sua impotência. A Sexta-feira Santa é o dia da esperança que é maior; aquela que amadureceu na Cruz enquanto Jesus exalava o último suspiro, gritando com grande voz: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’ (Lc 23,46). Entregando a sua existência ‘doada’ nas mãos do Pai, Ele sabe que a sua morte se torna fonte de vida, como a semente na terra que deve romper-se para que a planta possa nascer (Jo 12,24)”.

Isaías profetizou, na primeira leitura proclamada na celebração de hoje, a elevação de Jesus: “Ei-lo, o meu servo será bem-sucedido; sua ascensão será ao mais alto grau” (Is 52,13). Na Sua Hora, Jesus caminha para a altura da Cruz, para o momento do amor que se dá. O termo último da sua peregrinação é a altura do próprio Deus, até à qual Ele quer nos elevar (BENTO XVI. Homilia de Domingo de Ramos, 2011). A Cruz de Cristo não é manifestação da fraqueza de Deus, mas demonstração da força de um amor maior, a força de gravidade do amor de Deus, que nos atrai para o alto. O livro do Gênesis fala de uma escada de Jacó, pela qual céus e terra se encontram (Gn 28,12). Aquela escada era figura da Cruz, cravada no solo e levantada aos céus, pela qual todas as virtudes de Deus vêm até nos; Cruz pela qual nossas virtudes sobem até o Altíssimo. Os braços abertos de Jesus crucificado abraçam toda e qualquer distância; em sua Cruz se cruzam as quatro dimensões do universo, sendo ela mesma o centro de tudo.

Os antigos judeus celebravam o chamado “Dia da Grande Expiação” (em hebraico: Yôm Kippur), quando o Sumo Sacerdote sacrificava um touro e um bode – em reparação pelo seu pecado e os pecados dos sacerdotes e de toda a nação – e ingressava no recinto mais sagrado do Templo de Jerusalém, “O Santo dos Santos”, para incensar e aspergir o propiciatório da Arca da Aliança, com o sangue das vítimas imoladas. Assim, os antigos judeus acreditavam que os laços de amizade com Deus estavam reatados, pois os pecados de toda a nação tinham sido expiados.

Nós, cristãos, temos na Sexta-Feira da Paixão do Senhor o nosso Dia da Grande Expiação. É isso que diz a Carta aos Hebreus, proclamada na liturgia de hoje: “Nós temos um sumo sacerdote iminente que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus” (Hb 4,14). Em outra passagem da mesma carta, lemos: “Ele entrou uma vez por todas no Santuário, não com o sangue de bodes e de novilhos, mas com o próprio sangue, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12). Agora, celebramos não mais em figura, mas na realidade, a Grande Expiação, não mais dos pecados de uma só nação, mas de todo o mundo (cf. 1Jo 2,2; Rm 3,25).

O relato da Paixão, no Evangelho Segundo João, que ouvimos há pouco, começa e termina em um jardim. Tudo começa com a prisão de Jesus, no jardim que ficava do outro lado da torrente do Cedron (Jo 18,1), e termina com o Seu sepultamento, no jardim próximo ao Gólgota (Jo 19, 41). Não estamos aqui simplesmente diante de uma informação geográfica, mas em um lugar teológico: o jardim. João nos reconduz ao jardim do Éden, onde Deus colocou o homem (Gn 2,8) e onde aconteceu o primeiro confronto entre verdade e mentira; ali, com o engano, venceu a mentira. Agora, porém, a luz brilha na escuridão da noite e põe à mostra o engano radical da desobediência do homem a Deus. “Precisamente a obediência radical de Jesus até à morte de Cruz (cf. Fl 2,8) desmascara totalmente esse pecado. Na sua obediência, realiza-se a Nova Aliança entre Deus e o homem e é-nos concedida a possibilidade da reconciliação. De fato, Jesus foi mandado pelo Pai como vítima de expiação pelos nossos pecados e pelos do mundo inteiro (cf. 1Jo 2,2; 4,10; Hb 7,27). Assim, é-nos oferecida misericordiosamente a possibilidade da redenção e o início de uma vida nova em Cristo” (BENTO XVI, A palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, n. 26).

A crucifixão de Jesus ocorreu “… no dia da preparação para a Páscoa” (Jo 19,31). Somente o evangelho de João faz coincidir a morte de Jesus com o momento da matança dos cordeiros para a Páscoa dos judeus.  Ele é o único cordeiro da Páscoa da Nova Aliança, como dissera São João Batista: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,29). A Sua imolação é uma imolação real, um sacrifício realizado de uma vez por todas, porque a vítima espiritual tornou inúteis as vítimas materiais. A constatação de que “não quebraram nenhum dos seus ossos” (Jo 19,36; cf. Ex 12,36) confirma isso. Cristo crucificado é, pois, o verdadeiro Cordeiro pascal: ele é a “nossa Páscoa” imolada (cf. 1Cor 5,7). Verdadeiro, porque é a realidade daquilo que os sacrifícios antigos prefiguravam, a saber: a salvação recebida e esperada, a aliança com Deus e a inserção em seu desígnio. Essa descrição não é uma novidade. Os profetas, especialmente Isaías, apresentam o Servo do Senhor, no momento em que realiza sua missão de libertar o povo dos pecados e de torná-lo agradável a Deus: “Foi maltratado e submeteu-se, não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam, ele não abriu a boca” (Is 53,7).

João conta que, chegado Jesus ao Calvário, “ali O crucificaram com outros dois: um de cada lado” (Jo 19,18). Não se diz que eram “ladrões” ou “malfeitores”, como afirmam Marcos, Lucas e Mateus (cf. Mc 15,27; Mt 27,38; Lc 23,33.39ss), mas apenas que eram “outros dois” e que ficaram um à Sua direita e o outro à Sua esquerda. Não seriam esses “outros dois” crucificados todos aqueles que hoje estão com fome, com sede, nus, doentes, presos e sozinhos (cf. Mt 25,35-40.42-45)? Aqueles nos quais devemos ver o rosto de Cristo crucificado e aos quais devemos abrir o coração e as mãos?

Aqui, abro um parêntese:

O Segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil (ano de 2022) apontou que 33,1 milhões de pessoas não têm garantido o que comer […]. Conforme o estudo, mais da metade da população brasileira (58,7%) convive com a insegurança alimentar em algum grau: leve, moderado ou grave (Fonte: Agência Senado). Tudo isso, no país que figura entre os cinco maiores exportadores de alimentos do mundo.

Os “outros dois” crucificados com Jesus são também os pobres e famintos, vítimas de um modelo superado de capitalismo, que ainda vigora no Brasil, sob a tutela dos mercados financeiros. Em tal contexto, a Campanha da Fraternidade 2023 denuncia o flagelo da fome no Brasil e nos convoca à solidariedade, com as palavras de Jesus: “dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).

Jesus é também o Templo que os homens destruíram, mas que Deus reconstruiu, ressuscitando-O da morte: “Destruí esse Templo e, em três dias, eu o levantarei” – disse Jesus aos judeus (Jo 2,19). “Ele, porém, falava do Templo do Seu corpo” – explica o evangelista (Jo 2,21).

Numa época de grande calamidade para os judeus, quando o seu Templo fora destruído pelos babilônios e o povo vivia as duras penas no exílio da Babilônia, o profeta Ezequiel teve uma visão: ele viu reconstruído o Templo, de cuja soleira manava água viva, na direção do oriente (cf. Ez 47,1ss). O evangelista João comprovou a realização da profecia na Paixão de Cristo. Ele escreve: “… um dos soldados abriu-lhe o lado com a lança e logo saiu sangue e água” (Jo 19,34). No relato do evangelho que escutamos, o golpe da lança não foi uma comprovação de morte, pois esta já fora constatada (Jo 19,33), mas puro gesto de ódio gratuito. Jesus respondeu à violência do soldado com o amor que oferece a todos uma vida nova: “… e logo [e imediatamente, e naquele mesmo instante, concomitantemente…] saiu sangue e água”.

Peço permissão aqui para outro parêntese:

Em nossos dias, os discursos de ódio têm se tornado cada vez mais comuns, seja nos meios digitais seja na vida real, alimentando uma rede de notícias falsas, que destroem reputações, ameaçam instituições e até mesmo atentam contra vidas humanas. A escalada do ódio não poupa nem mesmo o ambiente de nossas escolas, que têm sido cada vez mais palco monstruosidades como as ocorridas recentemente em São Paulo e Blumenau.

O Templo de Jerusalém era para os judeus o lugar mais santo de todo o Israel e de todo o mundo, pois foi o espaço que Deus escolheu para fazer habitar o seu Nome (Dt 12,11; 16,8).  Somente naquele Santuário, os judeus podiam oferecer a Deus o verdadeiro culto. Todavia, aquele Templo era figura de Cristo, assim como o Antigo Testamento é figura do Novo. O Corpo de Cristo é o novo Templo, o lugar espiritual do novo culto, celebrado pelos verdadeiros adoradores do Pai, que O adoram em Espírito e verdade (Jo 4,24). É este o “mistério da fé” que se faz presente a cada Celebração Eucarística, na qual todo o povo responde: “Anunciamos, Senhor, a Vossa morte e proclamamos a Vossa Ressurreição”.

Aquela água, tal qual o profeta Ezequiel a viu, brotou inicialmente como um regato, mas foi-se avolumando, até alcançar as proporções de um grande rio. Ela prefigurava o Batismo de Cristo, que batiza com o Espírito Santo (cf. Jo 1,33), como o próprio Senhor declara: “A água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna” (Jo 4,14). Desta fonte espiritual bebemos todos nós, pois que é a mesma água que brota de todos os batistérios da Igreja. Como nos ensina São João Crisóstomo: “… esta água e este sangue são símbolos do Batismo e da Eucaristia. Foi destes Sacramentos que nasceu a santa Igreja, pelo banho da regeneração e pela renovação no Espírito Santo, isto é, pelo Batismo e pela Eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Pois Cristo formou a Igreja de Seu lado transpassado, assim como do lado de Adão foi formada Eva, sua esposa”.

Por fim, quando falamos da Cruz, não estamos pregando o sofrimento pelo sofrimento, mas contemplando o amor de Jesus que, para pagar o preço do nosso resgate, dissipou tudo o que tinha, como nos ensina o apóstolo Paulo: “Com efeito, conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo, que por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a Sua pobreza” (2Cor 8,9). Ele, chegado ao limite da pobreza, vendo que tudo estava consumado e nada mais tendo a oferecer a Deus por nós, inclinou a cabeça e entregou ao Pai o que ainda Lhe restava: o Seu último alento de vida, a Sua respiração, o Seu espírito (Jo 19,30). Jesus devolve ao Pai o sopro vital que Adão quis usurpar como propriedade sua. Assim, cumpria-se a palavra que Ele pronunciara: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus!” (Mt 5,3).

 

Descimento da Cruz

Recordemos agora o gesto daqueles que deram digna sepultura ao Senhor. Seu sepulcro era novo, onde ninguém ainda havia sido posto (cf. Jo 19,41), como nova é a Sua morte, cumprimento do amor e dom da vida e como virgem é o ventre no qual Ele foi gerado. Com sua descida ao túmulo, Jesus abençoou nossas sepulturas e as transformou em lugar de esperança. A morte não tem a última palavra, porque a Palavra definitiva de Deus é Cristo e Cristo ressuscitado. Hoje, guardaremos silêncio, para amanhã fazermos ecoar nossas vozes, em louvor a Ele que, por sua Ressurreição, é Senhor de tudo o que há no céu, na terra e debaixo da terra (cf. Fl 2,10s).

 

  1. Retire-se a inscrição da Cruz!

 “Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na Cruz; nele estava escrito: ‘Jesus Nazareno, rei dos judeus’” (Jo 19,19). A cruz é o trono daquele que veio montado sobre o jumento (Jo 12,14). O título posto no alto é a epígrafe (Mc 15,26; Mt 27,37; Lc 23,38), o ensinamento e a palavra que revela a verdade. A carne do Crucificado realiza cada palavra de Deus, porque Ele é a própria Palavra que se fez carne (Jo 1,14). O Crucificado é a nova Escritura, a ser lida e meditada, a ser degustada e assimilada: n’Ele se manifesta o amor eterno de Deus. Tudo aquilo que foi escrito cumpre-se ali: cada letra torna-se Espírito e vida. Sobre a Cruz, cumpre-se tudo quanto escreveu o profeta Zacarias: “Então o Senhor será rei sobre todo país; naquele dia, o Senhor será o único, e seu Nome o único” (Zc 14,9).

O letreiro foi escrito em hebraico, língua da promessa, para que os religiosos não presumam, mas acolham a salvação; em latim, língua dos dominadores, para que os poderosos se convençam da própria fraqueza; em grego, língua dos sábios do mundo, para que estes reconheçam a própria loucura. Deus reina do lenho da Cruz, diz São Justino, O Mártir: a Cruz é o Seu triunfo. Quem rejeita a Cruz de Cristo rejeita o próprio Deus. Tal rejeição é precisamente a causa da crucifixão de Jesus, mas é exatamente na Cruz que Ele se doa a quem o rejeita. Toda imagem que se busque de Deus e que não passe pela Cruz de Cristo é um ídolo pagão.

 

  1. Enxugue-se a Sua sagrada face!

No rosto desfigurado do Crucificado, resplandece a perfeição do amor que tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (1Cor 13,6). Por isso, aplicam-se somente a Ele as palavras do Salmo: “És o mais belo dos filhos dos homens, a graça escorre dos teus lábios, porque Deus te abençoa para sempre” (Sl 45,3). No rosto do verdadeiro discípulo de Jesus refulge a Sua Glória, que não é a vanglória do mundo, como nos ensina São Paulo: “E nós todos que, com a face descoberta, refletimos como num espelho a Glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é Espírito” (2Cor 3,18). Fomos criados para amar a Beleza Suprema, que Se revela na face de Cristo, como confessa Santo Agostinho: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! … Estáveis comigo e eu não estava Convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria, se não existisse em Vós. Porém, chamastes-me, com uma voz tão forte, que rompestes a minha Surdez! … Saboreei-Vos e, agora, tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi, no desejo da Vossa Paz”.

 

  1. Remova-se de Sua cabeça a coroa de espinhos!

“Os soldados teceram uma coroa de espinhos e a colocaram na cabeça de Jesus” (Jo 19,2). A coroa de um rei, com seus raios reluzentes, é símbolo da glória, irradiação divina, como o resplendor do sol. Aquela que os pagãos puseram sobre a cabeça do Senhor, porém, era feita de espinhos! São as penas que os dominadores deste mundo impõem sobre os súditos. A glória deste mundo é estar sobre os outros, colocando-os debaixo dos pés. A Glória do Senhor, ao invés, é servir e lavar os pés dos amigos. Quando compreenderemos que a glória deste mundo é uma grande ilusão? Contemplar o Senhor da Glória coroado de espinhos nos salva da vanglória, que destrói a nossa identidade de filhos e de irmãos. Jesus havia dito: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros, mas não procurais a Glória que vem do Deus único?” (Jo 5,44). A busca de glória mundana faz-nos colocar a nossa identidade na imagem que os outros têm de nós, fazendo-nos escravos do olho dos outros (Ef 6,6; Cl 3,22). O culto da própria imagem é a pior forma de idolatria e a raiz de todo pecado. Jesus coroado de espinhos denuncia a nossa hipocrisia, para nos fazer mergulhar na realidade mais profunda do que somos.

 

  1. Remova-se o cravo de Sua mão direita!

“A mão direita do senhor fez proezas! A mão direita do Senhor é excelsa! Jamais morrerei, eu vou viver para contar as obras do Senhor” (Sl 117,15ss). “Retiramos a sua mão direita, nos lembrando de que essa é a mão que acaricia. Quantos gestos, quantos toques de carinho e perdão essa mão de Jesus nos recorda?! Nós, sacerdotes, que temos a enorme graça de poder traçar sobre vocês a cruz do perdão, somos a extensão dessa mão, não por mérito nosso, mas pela graça que dela recebemos. As nossas mãos terrenas prolongam a mão de Jesus, talvez no gesto mais bonito que teve nesta vida, que foi o perdão, que Ele quis que a Igreja perpetuasse ao longo dos séculos. A mão de Jesus, que traçou o perdão sobre a cabeça da mulher pecadora, é a mesma que traça agora sobre cada um de nós o seu perdão…” (J. B. LIBÂNIO. www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=543. Acesso em 21/04/2011).

 

  1. Remova-se o cravo de Sua mão esquerda!

“Que não saiba a tua esquerda o que faz a tua direita”, diz o Senhor, no Sermão da Montanha (Mt 6,3). Em Jesus, não há separação entre o que Ele diz e o que Ele faz. Por isso, tudo o que Ele apresenta como caminho para o discípulo só é caminho porque é percorrido seguindo-se as pegadas d’Ele. Nada Ele exige de nós que Ele mesmo não o faça antes. Assim também é o convite que Ele nos faz à gratuidade de uma vida que busca a Glória de Deus, e não o reconhecimento e vanglória dos homens. Para estes, quem não aparece não é lembrado. Contrariando a lógica dos homens, isto é, a sabedoria deste mundo, Jesus, que é Palavra, Pão e Vida, é também o grão de trigo, que cai na terra, desaparece e morre, para produzir sementeiras de vida eterna (cf. Jo 12,24). Nossas obras, mesmo que, “por si” mesmas, sejam boas, só serão boas “para nós” se feitas diante de Deus, por amor e com humildade.

 

  1. Remova-se, finalmente, o cravo de Seus Pés!

Jazem, agora, inertes, os pés daquele que proclamou boas novas sobre os montes e anunciou salvação, dizendo a Sião: “Reina o teu Deus” (Is 52,7). Antes, porém, Jesus teve que suportar sobre Seus pés encravados na Cruz o peso das dores do mundo, de tudo aquilo que puxa o ser humano para baixo e não quer deixá-lo elevar-se ao estado do Homem Perfeito, à medida da estatura de Cristo (Ef 4,13). No evangelho de João, o primeiro gesto de amabilidade que Jesus recebe é justamente a unção de Seus pés, por Maria de Betânia, irmã de Lázaro, seis dias antes de Sua Páscoa; o próprio Jesus viu nisso um prenúncio de Sua sepultura (Jo 12,1.3.7). Na atitude de Maria, acontece a resposta da criatura ao Criador. A criatura chega, finalmente, ao objetivo para o qual foi criada: a pronta resposta ao amor do Criador.

Também Jesus lavou os pés dos discípulos e nos mandou fazer uns com os outros a mesma coisa que Ele fez (Jo 13,2-15). Com esse sinal de humildade, Jesus nos ensinou que não devemos amar só com palavras de boca, mas com ações e em verdade (1Jo 3,18). Ensinou também que todo aquele que quiser ser o primeiro deve fazer-se servo dos outros. Hoje, se quisermos realmente remover os cravos que ferem Seus pés, temos que fazê-lo, anunciando a todos o Evangelho da Vida e aliviando as dores dos que sofrem discriminação, solidão, fome, nudez, abandono, tristeza e tantos outros males que tornam as cruzes de muitos irmãos e irmãs ainda mais pesadas.

 

Dr. Pe. Clodomiro de Sousa e Silva

Diretor do Instituto Católico de Estudos Superiores do Piauí – ICESPI

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