Seguindo tradições antiquíssimas, descritas nas rubricas do missal romano, a paróquia de Nossa Senhora da Vitória de Oeiras faz memória da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo através da solene ação litúrgica da paixão, composta de três momentos: liturgia da palavra, adoração do Cristo na cruz e a comunhão eucarística; é o único dia em que a igreja católica não celebra o santo sacrifício da missa, portanto não há os demais ritos e nem a benção final, já que a sexta-feira santa faz parte do tríduo pascal que começa com a missa da ceia do senhor e só termina no fim da missa da vigília pascal no sábado santo, então a sexta-feira é apenas uma continuação da maior e mais importante celebração litúrgica da igreja e também, tida como o centro da fé católica se tratando do mistério da ressurreição.
A celebração aconteceu na Igreja Catedral Nossa Senhora da Vitória, as 17h, foi presidida por dom Edilson Soares Nobre, bispo diocesano, e concelebrada pelo padre Kleiton Vieira, pároco da catedral, e o diácono Gutemberg Rocha, colaborador paroquial.
No início, o corpo litúrgico adentrou a catedral em silêncio orante e, diante do altar que estava desnudado de toalha, os sacerdotes se prostraram como gesto de despojamento e entrega tal como Jesus se entregou em sua paixão e morte; a prostração também serve de recordação das ordenações sacerdotais onde no momento citado, o sacerdote se despoja do homem velho e se levanta para a vivência de um homem novo, tal como a paixão de Cristo, que nos convida a sepultarmos o pecado com Cristo e renascer em uma vida nova com a sua ressurreição.
A liturgia da palavra foi composta pelo cântico do servo sofredor, escrito pelo profeta Isaias e, no salmo, foi cantado o lamento de quem se entrega nas mãos de Deus afim de alcançar a salvação e, por fim, a segunda leitura mostrando o Cristo como modelo perfeito de sacerdócio e obediência que, passando por todo o sofrimento por amor ao Pai, foi por Ele exaltado na glória, e nos convida a seguir o exemplo de entrega para sermos merecedores do Reino dos Céus.
No canto da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo João, mais uma vez houve a participação direta dos fiéis ao longo da leitura e, ao fim, uma breve reflexão de dom Edilson sobre a celebração, encerrando com o questionamento: “diante da prova de amor que Jesus nos dá se entregando na cruz, quanto eu estou amando a Jesus com a minha entrega? ”
Durante a adoração do Cristo na cruz, uma multidão de fiéis adentrou a igreja e formaram filas para o tradicional beijo da cruz, como forma de agradecimento pelo sacrifício de Jesus, que se entregou por nós e que, na mesma celebração, mais uma vez se entregou na forma de pão da vida durante a sagrada comunhão eucarística; mesmo não havendo a missa, a reserva eucarística foi guardada na quinta-feira santa para ser distribuída aos fiéis na celebração da paixão. Ao final da celebração, não houve a benção final e todos se retiraram em silencio.
Diante da celebração litúrgica que compõe o tríduo pascal, não poderia faltar a este rito um pouco da manifestação da religiosidade popular oeirense, bem como a sua cultura, que foi expressada no rito do descimento da Cruz, composto pelo sermão do descimento, o rito do descimento e a procissão do Senhor morto.
Este ano, o sermão do descimento foi proferido pelo padre Francisco Inácio SDB, inspetor provincial da Pia União de São Francisco de Sales (salesianos de dom Bosco), responsável pela província salesiana da Região Nordeste do Brasil. No sermão, acompanhado por milhares de fiéis que lotavam o adro da catedral e a Praça das Vitórias o Pe. Inácio relatou a tocante manifestação de fé do povo oeirense, por ele presenciada de forma inédita, e que as manifestações religiosas e culturais visíveis, unidas aos momentos de silêncio, servem para a contemplação orante dos momentos vividos por Jesus em sua paixão e morte, e assim, nos colocarmos no lugar do povo que presenciou todos estes acontecimentos em Jerusalém, na época de Cristo, afinal as manifestações são ilustrações bíblicas, não para um espetáculo estético mas para uma melhor vivência pessoal da vida de Jesus. Ao final do sermão, a imagem do Cristo crucificado foi descida da cruz, seguindo o ritual próprio e foi depositada no esquife que foi levado pelas ruas da cidade acompanhado da imagem de Nossa Senhora das Dores, que remete ao fato de Maria ter acompanhado Jesus em todos os momentos de sua missão e que, de acordo com os evangelhos, esteve de pé junto a cruz de Jesus. A procissão do Senhor morto seguiu pelas ruas históricas de Oeiras, composta pelo corpo litúrgico e pelo corpo dramático e, mais uma vez, abrilhantada com as marchas executadas pela banda Santa Cecília e pelos lamentos de Verônica, executados em alguns pontos durante a procissão.
Ao final de tudo, a imagem do Senhor morto foi levada para o interior da catedral, onde pode ser venerada pelos fiéis que acompanharam toda a manifestação e que, aos pés de Jesus e de Maria, depositavam as suas preces e agradecimentos por tudo que vivenciaram durante a semana santa de Oeiras.
Por: Reinolt Farias























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