O remédio solidário da presença

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A notícia, de sua enfermidade, não demorou chegar aos ouvidos da maioria das pessoas da pequena cidade. Ele estava no hospital, fora dali. Foi o vizinho que o levou de madrugada, às pressas, à única e desprovida unidade de saúde local. Foi chegar e, imediatamente, o ‘tiraram’ para a cidade vizinha; maior e com mais recursos.

José é o seu nome, entre tantos ‘Josés’ e ‘Marias’

Que correria! Mas, ao mesmo tempo, que prontidão do motorista. Ele é, também, um sofredor. Condivide a direção da ambulância, que ele mesmo conserta e mantêm funcionando, com um aposentado que se apresentou, voluntariamente, à prefeitura, para garantir-lhe um descanso entre as inúmeras viagens com doentes.

Enquanto isso cresce a lista de espera e a ficha dos desesperados, uma vez que não é tão fácil conseguir, do pronto atendimento, a solução do atendimento.

Essa situação, aliás, é uma rotina por essas bandas. Virou procedimento. As unidades de saúde pouco ou nada têm para amparar, com socorro adequado e digno, a população em demanda de saúde. Faltam medicamentos, médicos, equipamentos e investimento permanente.

Valha me Deu! Nossa Senhora! Grita o povo por socorro!

José foi liberado do hospital lá da cidade longe. Está a caminho. Vai voltar para casa. Quem sabe com alguma esperança de sobrevida. Ninguém está sabendo o que é que ele tem. Mas, todo mundo, ‘com uma boca só’, diz que é grave a situação e que ele não vai resistir. A questão é só o tempo. ‘Fazer o que?’, pondera com descrença o velho João que já foi farmacêutico e raizeiro da comunidade.

A ambulância não deu conta de trazer o pobre José. Quebrou a ponta de eixo na saída do hospital. O socorro foi o pequeno transporte que, diariamente, faz linha para a cidade lá de longe e que leva sete no lugar de cinco. Aperta aqui, aperta ali, conseguiram ajeitar o doente José entre as mercadorias que os passageiros estavam trazendo para fugir do ‘alto preço’ das cidades pequenas. Esta é uma outra história que dá pano pra manga.

Em frente à casa do José estava ‘forrada’ de gente: amigos, vizinhos e curiosos. Cada um foi trazendo sua cadeira e sentando-se à sua espera. Não faltou assunto. O vozerio tomou conta do lugar. A mãe do José, já bem idosa, pediu para a neta fazer café e chá e, ela mesma, fez bolo e pão e pediu para que se servissem à mesa que tinham colocado lá no canto da pequena casa geminada. E, todos os que estavam por ali foram se revezando à mesa.

José chegou, afinal. Passava das 19h. Choveu muito nos dias anteriores e as estradas e os animais fizeram o caminho ficar longo, quase sem fim. A aglomeração em torno do transporte só diminuiu quando seu João bradou de longe, pedindo licença a todos que estavam sob grande alvoroço.

Puseram o José na rede, dentro de casa, e, as pessoas deixaram a mesa para se revezar, agora, em torno do José, já deitado e sorridente. Demonstrando surpresa e agradecimento olhava, demoradamente, para cada pessoa que chegava. E, pensar que José tinha sido anunciado como morto.

Todos passaram a noite na frente da casa do José e avançaram por longo tempo até que ele recompôs a saúde. Não era o único privilegiado das visitas. Essa prática tão comum deste povo sofredor é uma espécie de catarse coletiva porque, mistura os próprios sofrimentos aos do doente e, desprovidos de qualquer pretensão, cada um oferece com a sua chegada, um verdadeiro remédio solidário da presença.

Quando alguém se aproxima de quem sofre e oferece suas mãos, palavras, ombros e coração há uma milagrosa energia que toma conta da situação, liberando a cura do contato humano.

Bendita seja a sua chegada! Bendita seja a sua visita!

Por: Pe. Edivaldo Pereira dos Santos

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