“O MISTÉRIO, EU O TOCO COM A PONTA DOS DEDOS, MAS NÃO O MANIPULO”

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“O MISTÉRIO, EU O TOCO COM A PONTA DOS DEDOS, MAS NÃO O MANIPULO”

 

O título tomei emprestado das palavras de Dom Antônio Carlos (Bispo da Diocese de Caicó) proferidas na oficina – Espiritualidade Eucarística: entre piedade e escrúpulos, no Simpósio Teológico, por ocasião do 18º Congresso Nacional Eucarístico, celebrado na Arquidiocese de Olinda e Recife, de 11 a 15 de novembro de 2022. Tomo essa afirmação para título deste relato, através do qual manifesto algumas impressões sobre o 18º CEN, porque essas palavras e seu desdobramento na oficina possibilitaram-me muitas reflexões sobre a riqueza do sacramento da Eucaristia, bem como da vida cristã em si.

É comum o conhecimento de que a Eucaristia é um Mistério, o Mistério central da Igreja, sua riqueza fundamental, e é bonito perceber nas palavras de Dom Antônio que todos nós podemos tocar este Mistério, mas – pela sua sacralidade, por ser Ele o nosso Deus vivo em corpo, alma e divindade – nós o tocamos apenas com os dedos, isso implica dizer que não nos é permitido abarcá-lo com as mãos, porque Deus não é manipulável. Eu toco o Mistério para senti-lo, acolhê-lo, aceitá-lo, fazer-me parte, sentir-me pertença, nunca para moldá-lo conforme qualquer que seja o desejo pessoal.

Essa compreensão veio ao encontro da primeira moção (movimento interior) que tive na Celebração Eucarística de abertura do CEN. Olhando aquela multidão de consagrados e leigos; escutando as palavras iniciais de Dom Fernando Saburido, ao lembrar de Jesus dizendo: “desejei ardentemente comer esta Páscoa”, pensei sobre a vastidão deste Deus. Que Deus é este que se oferece, se reparte em pedaços de pão e gotas de vinho para unir-se a nós?! Enquanto assim inquiria, numa locução interior, ouvi: um Deus que se divide é um Deus que não é de ninguém para ser de todos. A partir deste momento fez mais sentido, para mim, o tema do congresso: “Pão em todas as mesas” e o lema: Repartiam o pão com alegria e não havia necessidade entre eles”. (cf. At 2,46). Continuando em movimento reflexivo, pensei: o pão em todas as mesas não se trata somente do suprimento material para a fome do corpo, mas o Pão que vem de Deus e abastece a vida da alma. Essa moção se confirmou em seguida, em carta lida, na abertura do evento, na qual está manifesta a prece de Papa Francisco para que a Casa do Pão – fruto concreto do congresso – “seja sempre um lugar de acolhida para os irmãos mais necessitados, onde eles encontrem não somente o pão material, mas também o Pão da Palavra de Deus anunciada com alegria e entusiasmo”.

O Santo Padre tem nos exortado para a necessidade de reacender o ardor missionário; de anunciar Jesus com alegria. Eu entendo que a alegria do anúncio só pode vir do encontro pessoal com o Senhor, o que só é possível nos corações que se abrem e se deixam ser terra fértil para o cultivo da Palavra. Corações abertos se alimentam bem do Pão da Eucaristia e, uma vez alimentados, a alegria do anúncio é um ato espontâneo, intenso e frutuoso. Eventos, como o 18º CEN, são oportunidades primorosas para encontros e reencontros com o Cristo, na medida em que promovem a disseminação de saberes importantes para o conhecimento e a aceitação do Mistério da Eucaristia no coração da Igreja. Nesse encontro, fomos evangelizados pela escuta, pelos conhecimentos teológicos partilhados em linguagem acessível, pelos testemunhos e experiências, pela participação nas Celebrações Eucarísticas, pelas expressões artísticas, pela adoração, pelas catequeses e orações com Nossa Senhora, pelo convívio fraterno, pela acolhida, dentre outros aspectos que visivelmente nos educam e nos convidam a “conhecer para amar o Deus que nos amou primeiro”.

Na conferência: Eucaristia e Mistério Pascal: aspectos históricos e sistemáticos, Dom Armando Bucciol disse: “O Senhor se transubstancia num pedaço de pão e num pouco de vinho por amor a nós”. Eu creio que nutridos desta consciência, a vontade do ide e a ousadia do eis-me brotam de forma natural e irresistível em nós. Ainda que cada um tenha a liberdade para o sim ou para o não, é impensável que alguém tenha feito um encontro com Cristo e consiga ficar com Ele numa caixinha pessoal guardada no baú de si. E aqui se entende o “Ele não é manipulável!”. Ao contrário, Ele nos impulsiona para o servir, para chegar a quem e onde Ele mesmo quer chegar e quer se servir de nós para chegar. Ele não precisa de nenhum de nós para realizar o seu plano salvífico, mas se serve de nós para que no envio, no caminho, Ele mesmo indo conosco vai nos moldando, pois como disse o mesmo Dom Armando Bucciol: “a vida humana vivida segundo a fé é participação na vida divina.” E ainda: “a Eucaristia vai nos convertendo a Jesus.

É nesse sentido que os que dizem sim são servos inúteis. Inúteis não porque não trabalham, mas porque o fruto do trabalho é seu. Por mais graças que, aqueles que se deixando guiar por Deus, transporte para o outro, o fruto é seu, pois o verdadeiro fruto é a conversão, é o viver por participação a vida de Cristo, o converter-se a Cristo.

Imbuída deste espírito de partilha, impulsionada pelas maravilhas que recolhi neste encontro, escrevo este simples relato sobre as bençãos e alegrias que consegui captar e trazer do 18º CEN e espero que quem o ler possa encontrar aqui uma fagulha do que por lá foi vivido em torno da Eucaristia. Antecipo que não direi nem o mínimo do que o congresso representou para mim, pois é impossível registrar a totalidade de tudo que vivi neste encontro. Exponho o mínimo daquilo que guardei no coração e que teima em não querer ficar quietinho por lá. Sigo, pois, destacando trechos e momentos que me chamaram a atenção e consegui registrar e tecendo algumas impressões que me atravessaram sobre os temas debatidos.

Além dos pontos já expostos, chamou-me muita atenção as palavras de Dom Armando Bucciol, ao lembrar dos discípulos de Emaús: “não ardia em nossos corações quando ele nos falava no caminho?”. Quantas vezes, Jesus caminha conosco, fala conosco e nós podemos até sentir arder o coração e mesmo assim sermos incapazes de percebê-lo por estarmos presos em nossas desolações egoístas. Como esses discípulos, nós precisamos do partir do pão, do viver segundo a fé. Precisamos confiar que: “a Eucaristia nos livra do pecado” e que “o mesmo Cristo que se deu na cruz está na Eucaristia”. (Dom Armando Bucciol).

Se confiarmos assim, procuraremos viver o sacramento com piedade, conforme disse Dom Antônio Carlos, na oficina – Espiritualidade Eucarística: entre piedade e escrúpulos, “a verdadeira piedade de qualquer sacramento deve ser uma experiência de amor”. Foi muito significante quando o Bispo citou a experiência de um camponês que, na sua simplicidade, ia ao Sacrário todos os dias e foi indagado sobre o que fazia ali, se não sabia rezar, ele disse: “Eu olho para Ele e Ele olha para mim”. Que jeito simples e eficaz de dizer: Jesus só te pede aquilo que te dá.

Nesse sentido, viver o sacramento com piedade é amar; e amar é olhar e se deixar ser olhado por Cristo. O olhar e o deixar-se olhar é piedoso se temos consciência de que, ao estarmos diante da Eucaristia, estamos diante do Sagrado. Com Dom Antônio Carlos entendemos que “o sagrado é uma mediação entre o profano e o divino… Jesus é o sagrado por excelência… uma coisa é sagrada quando ela é instrumento para tocarmos a Deus”.

Sacro, sagrado, sacralidade são termos comumente empregados entre os cristãos católicos. Mesmo que para muitos não haja um profundo entendimento de sua precisão conceitual e terminológica, quando se ouve esses termos e suas variações se entende que se trata de algo a que devemos devotar especial atenção e zelo. Na riqueza da Igreja muitos são os objetos que ganham dimensão sagrada para nós, na medida em que eles sejam esses “instrumentos para tocarmos Deus”. Mas olhar para a Eucaristia com a convicção de que ali está “o Sagrado por excelência, o Cristo”, faz toda a diferença para os que buscam viver a fé com piedade, com consciência, com amor. É preciso compreender que viver a fé com piedade é buscar o equilíbrio em relação a tudo que nos é sagrado, zelar pelas coisas de Deus “sem laxismo e sem rigorismo”, mas buscando viver a experiência do temor de Deus, como disse o mesmo Dom Antônio Carlos, o temor de Deus “é dom do Espírito Santo que nos recorda do seu amor e de como somos pequenos. […] É preciso ter intimidade com Deus, sem banalizar seus ensinamentos”.

Neste mesmo sentido de ver a necessidade do equilíbrio em relação à vida como Igreja, suas ações, valores, foi como recebi, na conferência: Eucaristia e pluralidade cultural: desafios teológicos e pastorais, as palavras de Dom Sérgio da Rocha. Citando Papa Francisco, ele afirmou: “pela inculturação a Igreja introduz o povo”. E alertou para o fato de que incluir o povo não implica em fazer “inovação à la carte”, pois “as ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, visando a unidade”. O alerta do Bispo, diz respeito aos cuidados que se precisa ter na Igreja quando se trata do diálogo e/ou inclusão com outras culturas. Neste processo, conforme Dom Sérgio pontuou, é preciso acolher sem perder de vista o Magistério da Igreja. A atenção ao Magistério evita o que o Bispo chamou de “inovações fantasiosas e abusos litúrgicos”; destacando que não se pode “nem reduzir e nem rebuscar a liturgia”. Sabendo que “a Eucaristia edifica a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia”, é necessário “conhecer os valores, para poder promover a inculturação … Inculturação – é a encarnação do Evangelho nas culturas”.

Segundo Dom Sérgio da Rocha, para a CNBB, a liturgia essencial leva a pessoa a “mergulhar no Mistério de Deus sem deixar o chão da história”. E assim aconselha: “Nem extremo subjetivismo emotivo e nem rigidez rubricista ou ritualista”.  Promover “a formação litúrgica é levar a pessoa ao Mistério”. E destacou o conselho do Papa Francisco: “abandonemos as controvérsias para ouvir o que o Espírito diz, para contemplar a beleza da liturgia.”

Ouvir ou ensinar a ouvir o que o Espírito diz é um grande desafio para a Igreja num tempo em que a escuta parece não ter lugar na vida social, na vida das pessoas, seja no seus espaços privados, ou nos públicos. Vivemos este desafio até mesmo nos espaços de oração, e de aprendizagem onde o debate, a discussão deveria promover também a escuta.

Apontando esta dificuldade, na oficina: eucaristia e as dimensões sacerdotal, profética e régia do Batismo, Dom Leonardo Steiner, ao falou do “reino de Deus como horizonte do Batismo”, destacou “a carência no Brasil do espírito missionário”, enfatizando que “espírito missionário não é enviar, ter espírito missionário é ir aberto para a escuta”. É preciso ouvir as necessidades das pessoas, “a comunidade tem de se sentir Igreja Católica, tem de ter uma relação afetiva com a arquidiocese”, disse ele. Nesse processo de escuta, ele diz que é preciso “mudar a ideia de padre. O padre não pode ser clericalizado, é preciso entender que o povo é sacerdotal – sacerdote, profeta, rei.”

Percebo mais uma vez, nesses apontamentos, uma discussão atenta à necessidade do equilíbrio, do diálogo, para manter o vínculo entre a Igreja, sua história e a Verdade que ela professa. Nessa perspectiva, a escuta não pode ser promovida com o intuito de mudar a Verdade de Jesus, ou seja, a essência do que a Igreja ensina ao longo dos milênios, mas para que se compreenda o que dificulta a recepção e aceitação dessa Verdade e, assim, encontrar mecanismos de diálogos para torná-la conhecida, para possibilitar a todos a adesão a Cristo. Embora, na sua liberdade, muitos possam não aderir, foi Jesus quem nos disse que chegaria a todos os povos e nações e confiou à Igreja este papel de tornar o Seu Reino conhecido por todos os povos e nações. Portanto, é papel da Igreja tornar Cristo conhecido, aderir a Ele, amá-lo é decisão que se faz na liberdade de cada um.

Esse ponto foi bem discutido na conferência: Eucaristia: alimento para a missão, na qual Dom Walmor Oliveira de Azevedo afirmou: “A santíssima eucaristia é a doação que Jesus faz de si mesmo …  a Igreja existe para evangelizar. Nasce e vive pela Eucaristia e objetiva reconciliar o homem com Deus”. Ou seja, todo diálogo que a Igreja busca estabelecer com os povos de diferentes culturas, não pode fugir da evangelização que é sua meta. Seu objetivo é levar todos ao conhecimento do Deus de Jesus Cristo para que haja a reconciliação, entre Deus e os homens, pela qual o próprio Deus se fez homem e morreu terrivelmente torturado numa cruz.

Nessa conferência, Dom Walmor explicitou três pilares importantes ao se pensar a Eucaristia. Primeiro falou da Eucaristia como “alimento para a missão” e destacou: “não há nada de mais belo do que conhecer Jesus e levar o mundo a Ele”. Segundo, a Eucaristia como “testemunho” – Jesus veio para dar testemunho da Verdade. E destaca que o “leigo formado pela Eucaristia é preparado para uma educação completa para a caridade”.

Não posso deixar de mencionar o momento em que o Bispo falou sobre a “intimidade dos discípulos com seu Senhor”. Eu gosto muito de pensar sobre essa intimidade; de pensar que foi afetuoso, real e próximo o vínculo de Jesus com seus discípulos. Para que Ele pudesse ganhar a confiança deles, enviá-los a serviço do Reino, primeiro atraiu-os para si, ganhou seus corações, tornou-se íntimo deles. Eu creio que é assim até hoje com os discípulos atuais que ele chama para anunciar sua Boa Nova.

Para mim, as mais belas imagens do Evangelho são sempre aquelas em que Jesus toca o coração e a alma dos discípulos com um olhar. Atravessados por esse olhar, os discípulos vão se tornando íntimos de seu Senhor e nessa intimidade vão se dando a viver segundo sua vontade, por amor ao Cristo. Só podemos amar aquele que nos é íntimo, próximo. Eu sempre me questionei sobre como amar os inimigos, os estranhos? E, hoje, entendo que isso só é possível pela intimidade que construímos com Nosso Senhor, pois a partir disso entendemos que o estranho para mim pode ser parte do meu Senhor e devo amá-lo para corresponder ao seu amor; é só Nele que somos capazes de amar quem nos despreza.

Retorno às palavras de Dom Walmor: “Amor não é sentimento. O sentimento é a centelha inicial que leva à totalidade do amor”.  O terceiro pilar é a “missão” que consiste em “converter a consciência individual e coletiva”. Na missão é preciso “explicitar o testemunho com a vida”, entendendo que “os pobres são membros de Jesus”. O Bispo concluiu a conferência com a linda oração poema de D. Helder Câmara – “Mariama”. Eu acompanhei atenciosamente a leitura do poema até ficar parada no verso: “Basta de alguns tendo que vomitar para comer/ mais de 50 milhões morrendo de fome num só ano”.

Que imagem forte e doída me trouxeram essas palavras: vomitar para comer. No meu íntimo gritei: “Socorro, “Mariama”, isso é tão da ordem do dia!”. Quando voltei ao poema, mais uma vez me detive em outra imagem: “Nada de escravo de hoje ser senhor de escravo de amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos.” Basta de escravos! É um mundo de irmãos que nós queremos. O amor pela Eucaristia é frutuoso quando nos ajuda a sermos mais solidários.

Na oficina: Celebração Eucarística: ritos e formas, Dom Edmar Peron tratou da importância da participação ativa do povo na Celebração Eucarística, e por isso mesmo enfatizou os perigos de se querer fazer uma Missa a gosto. Questionou: “se isso acontecer, como fica a participação ativa?”. Dom Edmar destacou os cuidados que se deve ter com a liturgia, sugerindo que é preciso evitar superficialidades, exemplos: “ensaiar a assembleia para participar é diferente de pedir palmas”.  Destacou que “O canto é fundamental para ajudar a fazer a experiência, ele pode levar as pessoas a participar ou a não participar.” Os que vivem em busca de inovação e inserção precisam entender que não há rito a ser criado. Tudo está revelado na fé da Igreja. Disse ele: “Não é criar o rito, é entrar no rito”. Na liturgia, “somos todos convidados a viver a experiência do gesto e da Palavra”. Também é preciso ter cuidado com superficialismo, com o atropelo. “o rito mais importante não é tirar o solidéu do Bispo, é dizer o Amém. É prestar atenção nas palavras.”.

Não se pode esquecer, conforme explicou o Bispo que todas as formas e ritos têm um único objetivo: “encontrar o Senhor e viver a vida Dele”. Nunca se pode pensar que “a Liturgia é uma representação da salvação”. Ela precisa fazer com que os fiéis saiam da Igreja com vontade de ler a Bíblia”. E por isso cabe perguntar: “Os fiéis vivem da Liturgia que celebram? Somos capazes de ir nos reconciliar, de pedir perdão…”. Isso só vai acontecer se o rito for “encarnado em nossa existência e não o vivermos no automático”. Ele destaca: “A liturgia não pode fechar o coração, mas não pode ficar no sentimentalismo. A liturgia é o nós celebrante.”

“O nós celebrante” vai nos tornando atentos ao chamado de Deus, à vida da Igreja e às necessidades do próximo. Com Nossa Senhora, eu creio que o nós celebrante é o eis-me dito com a confiança que vem da intimidade com o Senhor e que nos leva à livre condição de servos por amor, de servos de Deus.

Um encontro como este, voltado para a Eucaristia, nos direcionando para pensar sobre este sacramento como o cume da vida da Igreja, não deixaria passar despercebida a pessoa de Nossa Senhora, o sacrário primeiro de Cristo. Sobre esta presença, destaco a catequese mariana proferida por nosso Bispo da Diocese de Oeiras-PI, Dom Edilson Soares Nobre. Ele trouxe como título de sua pregação o tema: Maria no Evangelho de Lucas: a perfeita discípula. Pelo título, Dom Edilson já demostrou que falaria da grandeza de Nossa Senhora pela sua participação fiel na vida de Cristo. A única que pode receber o título de discípula perfeita, porque confiou e seguiu Jesus num sim inteiro, jamais vacilante, do início da encarnação do Verbo até sua Ressurreição e Glória.

Apoiado no Evangelho de Lucas, Dom Edilson demonstrou a importância de Maria, do seu discipulado, sempre enfatizando que tudo na Bem-aventurada está em função de Jesus. Disse ele: “Jesus ocupa o centro da vida de Maria, da vida da Igreja e assim aprendemos com Maria que Jesus deve ocupar o centro de nossas vidas. Ela, a Mãe de Jesus nos leva a voltarmos nosso olhar e atenção para o seu filho, o nosso Senhor Jesus Cristo, porque ela sabe que o Salvador é Cristo. Mas nós não podemos esquecer que ela é a Mãe do Salvador.” Sendo, pois, sua discípula perfeita, Maria nos ensina o modo mais eficiente de entrarmos no seguimento de Jesus, Ela nos capacita para também nós sermos seus discípulos, ainda que imperfeitos, pelo menos, perseverantes na fé, na esperança, no amor.

Observo que, na vigília da juventude, ver uma multidão de pessoas adorando o Santíssimo Sacramento, de mãos dadas com Nossa Senhora pela meditação piedosa do Santo Rosário, em plena madrugada e na chuva, encheu-me o coração e a alma de alegria porque me fez crer ainda mais que na Igreja Católica existe uma consciência sólida da presença de Maria como Mãe de Cristo e nossa. Há uma consciência da importância de estar com Maria para estar com Jesus; do poder que por Graça Maria tem e emprega no cuidado dos seus filhos. É lindo pertencer a uma Igreja que reconhece o Salvador e que tem uma Mãe como escola para a salvação.

Para mim, foi lindo também perceber como Frei Gilson, que animava o povo com louvor e pregação, saiu do centro, se colocou ao lado, para que o centro fosse ocupado por Jesus Eucarístico, quando iniciou a adoração. Ele continuou cantando, adorando com a música, mas ao lado do palco, porque o centro agora era altar. Com esta cena, eu fiquei numa locução interior: É assim que é. É assim que tem de ser. Quando Jesus chega, eu preciso desocupar o centro pra Ele ocupar. Toda a centralidade da minha vida é Dele, mas é preciso que eu saia e livremente conceda a Ele este lugar.

Movimento interior semelhante, experienciei durante o show de Pe. Fábio de Melo. Chamou-me muita atenção sua postura, quando o Bispo subiu ao palco para cumprimentá-lo. Naquele instante, olhando Pe. Fábio ao lado do Bispo, percebi-o ligeiramente um passo atrás do Bispo, de mãos postas, numa atitude de reverência, uma postura de quem reconhece a ordem das coisas na Igreja. Eu fiquei contemplando a cena e me deixei conduzir pelos pensamentos, questionando aquilo que via:  como pode um Pe. Fábio que eu via imenso nesse palco, ser agora apenas um Padre diante de um Bispo? A partir disso, refleti sobre a percepção da hierarquia da Igreja, de como tudo na Igreja nos evangeliza, ela nos ensina como devemos nos comportar diante de Deus: pequenos, mas prontos para ouvi-lo e ter com Ele. Padre Fábio, uma estrela na evangelização com beleza da arte, soube sair do centro e o fez espontaneamente.

Mais uma vez refleti sobre a importância de saber sair do centro. Quando Deus nos colocar em qualquer posição de destaque, nunca podemos esquecer que naquela posição estamos a serviço Dele, mas a posição é Dele. Sendo Dele, a qualquer momento Ele mesmo a revoga, seja por um instante ou para sempre, apenas para dialogar conosco ou para nos reposicionar noutros espaços. O fato é que precisamos estar prontos para sempre entregar a Ele o que é Dele. É fazer tudo consciente de que é tudo Dele. E se assim o servirmos, seremos felizes e será sempre a maior alegria vê-lo chegar. Sempre que Ele chegar, manifesto em uma das mais variadas formas com que Ele pode se apresentar a nós, nós o reconheceremos e seremos felizes em nos retirar pra Ele reinar. Saberemos reverenciá-lo com alegria!

Além disso, registro aqui trechos das palavras de Pe. Fábio de Melo que me marcaram, no show: “não dá para ser um homem cristão, se eu não for um homem Eucarístico… a Igreja não precisa de funcionários, a Igreja precisa de meu coração… Deus não pode fazer nada com minhas obras se antes ele não possuir meu coração… viver eucaristicamente exige solidariedade. Nós não nascemos solidários. Precisamos ser educados para a solidariedade… Eu não divido o que tenho somente, eu divido o que eu sou. Nada pode impactar mais do que encontrar uma pessoa que sabe dividir quem é”.

Não se pode negar que em um evento como este, que reúne pessoas de todo o Brasil, muitos têm a oportunidade de dividir quem são através do acolhimento; eu sofri este feliz impacto pela boa acolhida de pessoas em Recife; pude entender na convivência o que bem disse Padre Reginaldo Manzotti: “a Eucaristia conserva, renova e aumenta a vida na graça… Acolher bem é Evangelizar”.

Não posso deixar de contar que eu tive a graça de experienciar bem esta verdade. A forma como fui acolhida em Recife me evangelizou na prática tanto quanto, ou mais do que, tudo que aprendi teoricamente. Pude aprender o sentido palpável da encarnação da Eucaristia na existência, na vida. Eu vi tanta bondade na pessoa que me acolheu que constrangida, não vi nela outra coisa senão o amor de Cristo que impulsiona, compele como está em 2 Cor 5,14.

Posso dizer aqui que vi também como Deus é bom. Como ele nos dá mil vezes mais do que pedimos e sempre se utiliza de pessoas de corações abertos para nos abençoar. Digo isto porque desde o instante em que fui incentivada por um amigo (Renato) a fazer a inscrição para o evento (menos de um mês para tudo acontecer), já vi aí o agir de Deus. E então, em prece, pedi um sinal ao Senhor para saber se eu deveria ir, se teria a sua benção. O sinal que eu pedi foi uma carona. Deus não me deu a corona; trouxe-me, por intermédio de outro amigo de Deus e meu (Pe. Pereira), uma pessoa que me acolheu com sua família. Essa família me proporcionou hospedagem, alimentação, traslado, companhia no evento, passeios e convivência fraterna. Essa enviada de Deus não me ofereceu só um lugar para dormir, ela cuidou de mim como uma filha, saiu de seu quarto para me acomodar nele, porque era o melhor quarto de sua casa. Eu ganhei a amizade de uma família inteira e só posso dizer com o coração cheio de gratidão: No 18º CEN, Carlúcia me evangelizou muito!

É imensurável o bem que a hospedagem solidária traz para os peregrinos de Jesus, com certeza tanto quem abre sua casa e seu coração para acolher, como quem abre o coração para ser acolhido toca com os dedos o Mistério do Evangelho de Jesus. Vi nessas boas pessoas almas alimentadas pela Eucaristia, como disse Padre Reginaldo Manzotti: “o que o alimento produz para o corpo, a Eucaristia produz para a alma … a Eucaristia é o pão dos peregrinos”.

Os peregrinos somos todos nós que cremos ser a vida na terra uma passagem para a eternidade, portanto a Eucaristia é o alimento que nutri a alma, dando-lhe a energia necessária para manter-se firme nesta travessia. Na Eucaristia nós encontramos Deus, como disse o Eminentíssimo Cardeal Antônio Marto – nomeado Legado Pontifício, na Missa de Encerramento do evento: “Na Eucaristia, o Senhor continua a dizer hoje a nós: Sou eu. Eu estou aqui por ti e para ti…, por amor de meu povo.”. O Cardeal demonstrou que nossa postura ao comungar é um sim para Jesus, se tivermos esta consciência, diz ele: “o Amém dito ao comungar é mais do que um eu acredito na presença real, é um dizer: sim! eu quero, Ó Senhor! Eu quero viver de teu Amor. Quero colaborar contigo para a redenção do mundo…” e afirma ainda: “Quando comungamos. Se fazemos com fé, nossa vida transforma num dom a Deus e aos irmãos como foi a vida de Jesus.”

Diante disso, entendemos que nossa missão é ser presença de Jesus no mundo. Só assim seremos eucarísticos como Ele nos fez para ser. Só assim viveremos a fé com alegria e entusiasmo como temos sido exortados a ser pelo próprio Cristo, pela sua Igreja e pelo testemunho dos seus santos. Exortação esta que continua sendo uma tônica no apostolado de Papa Francisco. Finalizo este relato deixando a pergunta feita pelo Bispo na Missa da vigília da juventude, no 18º CEN: Qual diferença você faz no mundo por acreditar na Eucaristia?

 

Profa. Ma. Elimar Barbosa de Barros

(Leiga – Diocese de Oeiras)

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