Mensagem de Dom Edilson Nobre para a Quaresma e Campanha da Fraternidade

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“Cristo é a nossa paz: Do que era divido, fez uma unidade” (Ef 2,14a)

Amados irmãos e irmãs!
Pela graça de Deus, estamos começando mais um tempo quaresmal. Tempo oportuno para o fortalecimento da prática da esmola, da oração e do jejum. É, portanto, ocasião especial para a graça da conversão. Na primeira leitura, ouvimos o convite do Senhor através do profeta Joel: “Voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus” (Jl 2,12-13). É um convite ao retorno, porque com muita facilidade nos distraímos e nos desviamos do Senhor, buscando caminhos que corrompem e ferem a nossa própria dignidade. Portanto, deixemos que a voz de Deus venha ao nosso encontro: “Voltai para mim com todo o vosso coração”. Abandonemos tudo o que é supérfluo e passageiro e busquemos o que é essencial à vida. Esta é a proposta da quaresma. Se mergulharmos nesta espiritualidade, poderemos nos preparar bem para a celebração da Páscoa do Senhor.
Ao descobrirmos o caminho adequado, ainda assim, devemos ter cuidado para não nos deixarmos levar pelas nossas vaidades. Eis a advertência que Jesus nos faz no Evangelho de hoje (Mt 6,1-6.16-18): “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (Mt 6,1). Esta justiça mencionada por Jesus é traduzida concretamente pela prática da esmola, da oração e do jejum. Jesus nos adverte para não cairmos no pecado da hipocrisia de realizar tais práticas somente para alimentar a nossa própria vaidade e para dizer publicamente que somos “bonzinhos”. Estas atitudes são imaturas e superficiais e, portanto, abomináveis por Deus.
Não precisamos de publicidade para fazer o bem. Assim nos ensina o Mestre Jesus Cristo: “Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita” (6,3). Diz ainda: “Quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto” (6,6). Por fim, diz Jesus: “Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto” (6,18). Estas e todas as demais práticas que dignificam nossas vidas e elevam nossas almas devem ser feitas por convicção, por amor e de forma desinteressada, sem preocupação com a espetacularização. Assim sendo, “o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”. Que recompensa? A coroa da incorruptibilidade reservada para os que perseverarem neste bom propósito.
Na riqueza da espiritualidade quaresmal, que é tempo de conversão, a nossa Mãe Igreja insere a Campanha da Fraternidade, uma prática já consolidada em nosso país por mais de cinquenta anos. Na ocasião, abordamos sempre temas que nos ajudam a perceber as feridas que se encontram abertas em nossa sociedade e que, como cristãos, não podemos fechar os olhos, pois, do contrário, estamos sendo hipócritas ao querer viver uma fé que não leva à preocupação com o próximo, principalmente o que vive em situação de vulnerabilidade. Isto não é ideologia, é encarnação do Evangelho.
A cada cinco anos a Campanha acontece de modo Ecumênico. Ou seja, o tema é refletido não apenas pela Igreja Católica Apostólica Romana, mas também, por outras Igrejas Cristãs que, juntas, participam do processo e se empenham conosco na abordagem do tema escolhido. Isto é sinal de maturidade, pois, mesmo com as nossas diferenças, somos capazes de dialogar por aquilo que nos une.
“Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, este é o belíssimo Tema escolhido para o ano de 2021. E o Lema, fundamenta-se em Efésios 2,14a: “Cristo é a nossa paz: Do que era dividido, fez uma unidade”. Quanta beleza e riqueza nos propõem este Tema e Este Lema. Trata-se de uma Campanha que nos interpela a sermos maduros na fé e sermos sinais de Deus para o mundo, através do diálogo e do respeito mútuo. A Campanha culmina com o Gesto Concreto da partilha dos nossos dons através da Coleta que se realiza sempre no Domingo de Ramos. Do que se arrecada, 60% fica na Diocese para ajudar nos projetos sociais que a mesma realiza e 40% é destinado ao Fundo Nacional de Solidariedade, administrado pela CNBB para manter as centenas de Projetos coordenados pelas paróquias espalhadas por todo o Brasil. Graças a este nosso gesto de solidariedade, a Igreja Católica consegue realizar ações de impacto que ajudam a salvar vidas em meio aos mais pobres que vivem em situação de vulnerabilidade.
Por ironia, ou por esperteza do diabo, no ano em que se propõe um tema tão palpitante (“Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”) é o ano que mais se manifestam opiniões polêmicas e campanhas maléficas para boicotar um projeto que é, indubitavelmente, graça de Deus. Fico estarrecido com pessoas que se dizem defensoras da fé católica, e que se posicionam desta forma, querendo induzir os fiéis a pensarem que os bispos são idiotas por apoiarem a Campanha da Fraternidade. Como não apoiar? A Campanha é nossa. A Campanha é da Igreja. Se você discorda de algum ou alguns pontos que se encontram no texto-bate, não tem problema. O texto-base não trata da doutrina católica. Ele foi construído por cristãos de diversas Igrejas, inclusive a nossa, para indicar, a partir de uma análise da real situação em que vivemos, algumas chagas da sociedade que precisam ser tratadas na ótica da fé, como, por exemplo, a violência contra a criança, contra a mulher, contra o idoso, contra as minorias; a situação da fome, da exclusão no mercado de trabalho, do racismo, da desigualdade social, etc. Será mesmo que temos que fechar os olhos para estas situações desumanas e injustas? Que fé seria a nossa se ignorássemos a dor e o sofrimento dos nossos irmãos e irmãos?
É preciso ter bom senso. Discordar de um argumento dentro do texto, é possível, não é problema. Mas, não justifica, por esta discordância, querer negar o bem que a Campanha da Fraternidade proporciona a cada um de nós. Não podemos esquecer de tantos irmãos e irmãs que precisam e dependem de nossas atitudes de solidariedade, que, aliás, devem ser atitudes que reflitam a nossa verdadeira conversão.
Estas figuras que se opõem à Campanha da Fraternidade querem perverter, de forma diabólica, com suas ideias, a reta intenção dos nossos fiéis. Fundamentam-se num eixo ideológico de caráter religioso e fundamentalista para gerar uma visão de mundo e de fé que foge do ensinamento do Magistério da Igreja. Não seria isto uma espécie de soberba espiritual, a pessoa dizer que tem a verdade e que os bispos e os padres estão errados e que precisam mudar? Este tipo de pensamento e comportamento é muito perigoso e pode provocar o cisma dentro da nossa Santa Igreja Católica. Teria o Espírito Santo deixado de agir em nossa Igreja? Não! Claro que não!
Portanto, confiemos em nosso Senhor! A turbulência passa! Deixemos que as palavras de São Paulo, da Segunda Carta aos Coríntios nos motivem: “Irmãos, somos embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta através de nós. E nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). A porta está aberta! A oportunidade da conversão está sendo oferecida!
As cinzas impostas sobre nossas cabeças na liturgia de hoje, nos ajudem a fomentar a humildade, o respeito, a união e a obediência à Santa Mãe Igreja. Amém!

Dom Edilson Soares Nobre
Bispo Diocesano de Oeiras

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