FRATERNIDADE E MISSÃO EM TEMPO DE PANDEMIA

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Estranhamente, a pandemia da Covid-19 não criou uma crise, revelou-a pré-existente à sua chegada. Podemos falar em crises. Inúmeras crises-pandêmicas camufladas, escondidas e abafadas. Longe de serem controladas ou vencidas, dado que foram maximizadas pela coisificação das pessoas, pelo endeusamento do poder, pela exacerbação econômica e pela dissolução de sentidos.

A linha do nosso horizonte, nesse tempo de pandemia da Covid-19, parece-se com o entardecer, onde o sol se esconde cedo, trazendo os uivos e os chiados do medo, no breu da noite. Tudo seria mais tenebroso, não fosse o céu pontilhado de estrelas, chamando-nos para esperanças múltiplas.

De fato, do outro lado da mesma história que grita seus ais, podemos ver e contemplar a vida que não para e que pede passagem, mesmo que em pequenas brechas. Todos nós, de certa forma, fomos desterritorializados e perdemos nossos discursos prontos, nossas teorias bem formadas, nossos sonhos intocáveis, nossas seguranças bem pagas, nosso status quo.

Fomos obrigados a voltar ao que sempre fomos e de cuja realidade procuramos fugir o tempo todo; as vezes nos alienando, as vezes fantasiando, as mentindo e as vezes negando: nossa humana realidade de seres carenciais. Sim! Somos necessitados uns dos outros, sofremos pelo distanciamento e precisamos de proximidade, queremos calor e aconchego humano, mas, na vida louca que estávamos vivendo não tínhamos tempo de ser humanos, quanto mais maridos, esposas, filhos, irmãos, família, cristãos…

De tão trágica e absurda a pandemia nos colocou, de novo, no centro. Ganhamos a oportunidade de voltar a ser gente, pessoa, família, missão. Nunca foi tão verdadeira e sincera a saudade sentida e a dor compartilhada, a lágrima caída e a solidariedade expressada, a presença acolhida e as mãos entrelaçadas.

A pandemia não passou e, por enquanto, não tem hora para acabar. Mas, podemos dizer que o novo cenário, tanto local como mundial, é propício e equivalente à solidariedade, à fraternidade e à missão. Este é o céu pontilhado de estrelas no entardecer desta pandemia. Estamos todos mais abertos e acessíveis. Esta é a hora! Este é o tempo! Este é o lugar!

A dura realidade permanece diante de nós, em carne viva. Mas, de certa maneira, a proximidade da dor e da morte, num face-a-face, sem ter como fugir, parece ter restituído parte de nossa sensibilidade e inquietude humana, perdida ou sequestrada pelo capitalismo despersonalizante.

É próprio do Evangelho de Jesus Cristo distinguir e destacar a importância da vida em qualquer estágio, situação ou necessidade. Os desafios presentes em cada hoje nosso, nos oferecem um campo aberto para o testemunho profético, do amor humano, ao mesmo tempo que nos chama à conversão.

Não temos outro caminho a seguir porque não temos outro amor para viver.

Sejamos solidários e fraternos. Este é o maior conteúdo da missão à qual fomos chamados.

Mas é bom que tenhamos claro que, o primeiro espaço da missão de amorização solidária acontece em cada um de nós. Para conseguirmos alcançar os outros. Por outro lado, interessa-nos, não apenas sair vitoriosos em relação ao vírus e à covid 19. Nossa maior luta será a de vencer a nós mesmos e nossas resistências, distanciamentos, medos e insensibilidade. Por isso, cada dia de perseverança já é uma vitória sobre tudo aquilo que, estranhamente, nos desmobiliza em relação à luta.

Sigamos em frente! Sigamos! Não como super heróis da telinha, mas como humanos sensíveis da terra.

Feliz ano novo a todos!

 

Por: Pe. Edivaldo Pereira dos Santos

Foto: Google

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