Entre o empobrecimento e a generosidade do pobre

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Não é um discurso vazio, da Igreja, falar do pobre e da pobreza ou de associar, indevidamente, essa realidade com as vertentes de suas opções e virtudes. O próprio Jesus, aliás, é amigo dos pobres e, profeticamente, fica do seu lado, assumindo as consequências do enfrentamento com aqueles que, sendo donos do poder, produzem o empobrecimento. Quer dizer, o pobre e a pobreza, como tal, não é uma opção; não é uma escolha mas, uma imposição sócio-econômica. E, é extamente esse o ponto da divergência e do combate de Jesus. Por isso ele se faz amigo dos pobres e, por coerência, inspira a Igreja a ser amiga e servidora dos pobres.

Os empobrecidos, não obstante a situação de vitimação social, econômica e, até mesmo religiosa, são os pobres de Deus (Anawins de Javé), o achegados a Deus, os confiados ao Senhor, os abandonados em Deus. E, por outro lado, sua pobreza, mais do que um trágico condicionamento, pelo restrito acesso ao poder e suas estruturas de proteção, favorecimento, privilégios e status quo, passou a ser assumida como porta de acesso ao grandioso, amoroso e misericordioso coração de Deus.

O Senhor não é amigo dos empobrecidos e, nem tão pouco, inspira a Igreja a ser amiga por dó ou pena mas, primeiro, porque são injustiçados e, o resgate de sua dignidade só acontece com uma aliança de amor e, segundo, porque livres da posse das coisas e do perigo da autocoisificação, têm a liberdade, inspirados pela fé, de considerar outros bens, maiores e mais duráveis.

A grande questão da opção de Jesus e da Igreja, pelos pobres é que, por detrás dos empobrecidos, existe o pobre e a pobreza, fonte de uma nova relação com os outros e com Deus. Não se trata de espiritualização do pobre e da pobreza, mas, da transfiguração, operada pelo profetismo da fé, diante das situações de injustiça.

O Evangelho de Marcos 12,38-44, nos ajuda a vislumbrar esta grande transfiguração. Na revista pastoral de novembro de 2015, encontrei algumas iluminações que à esta temática que trago a seguir…

O texto do evangelho é o último discurso da vida pública de Jesus, antes da sua paixão. É como uma última indicação das disposições que deve ter seu discípulo.

Nos versículos 38-40, Jesus admoesta os discípulos quanto ao comportamento dos escribas; os v. 41-44 trazem a cena da viúva pobre que deposita seu donativo no templo. Aproximando os dois temas, o evangelista quis estabelecer os contrastes entre os escribas e a pobre viúva, propondo esta última como modelo.

Na primeira parte do texto (vv. 38-40), Jesus começa com uma advertência: “Cuidado com os escribas”, chamando a atenção para a necessidade de estar atento e não se deixar influenciar pelo comportamento deles. Ele aponta duas atitudes dignas de crítica: em primeiro lugar, a procura de reconhecimento e elogios por meio de túnicas vistosas e ricas, a satisfação pelas saudações públicas e gosto pelos primeiros lugares e, em segundo lugar, o desejo de possuir bens, mesmo daqueles que eram objeto da proteção especial de Deus (viúvas e órfãos: cf. Ex 22,21-22).

A segunda parte do texto (vv. 41-44) passa-se na sala do tesouro do templo, no átrio das mulheres, onde havia três cofres destinados a receber as ofertas dos fiéis. Os doadores diziam em voz alta o valor que depositavam e o entregavam a um sacerdote. O evangelista apresenta duas contraposições: muitos ricos / uma só viúva; ofereciam muito / ofereceu duas moedinhas. Essa contraposição faz ressaltar a pobreza da viúva e a sua posição desfavorável. Ela oferece duas “lepta” ou um “quadrante”, respectivamente as menores entre as moedas gregas e romanas. O ensinamento de Jesus aos seus discípulos é solene: A oferta da pobre viúva supera a dos ricos, porque é seu tudo. Os ricos nada têm de prejuízo com o que dão, pois dão do seu supérfluo. A viúva dá tudo o que tem. Ela poderia ter dado só uma moeda, mas deu as duas que tinha e, por isso, seu sacrifício é maior e mais autêntico, mais generoso. A viúva é, assim, apresentada como exemplo, embora na sociedade de então não ocupasse nenhum destaque (por ser mulher e sem marido, sem proteção; e por ser pobre). Ela é exemplo que resume em si, de certa forma, a atitude que cabe ao ser humano diante de Deus.

A grande lição do pobre, em sua pobreza, é a descoberta da riqueza de Deus e, por meio dela viver e praticar a gratuidade com os outros e com Deus.

 

Por: Pe. Edivaldo Pereira dos Santos

 

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