Confira o sermão do encontro proferido por Dom Francisco de Assis, bispo de Campo Maior

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Sermão da procissão do encontro do Bom Jesus dos Passos e a Mãe das Dores

 

Hoje na sede diocesana de Oeiras, Deus preparou este encontro para nós. Venho da diocese de Campo Maior a convite do meu irmão Dom Edilson Nobre para me encontrar com a religiosidade do povo de Deus, nesta sexta-feira dos passos do Bom Jesus.

O povo se encontra com o seu Deus em Jesus Cristo Redentor, Bom Jesus dos Passos. O povo se encontra com Maria Santíssima, a co-redentora, a mãe das dores e da soledade. O povo se encontra com a sua fé na contemplação do amor oblativo de Nosso Senhor dos Passos. Um dia que o Senhor preparou para nós.

Amado povo de Deus, pretendo caminhar pela sagrada escritura, no novo testamento, visitando alguns lugares do encontro de Jesus Cristo com Maria, a mãe da Igreja. Encontros de vida, de esperança e muitos deles marcados pelo sofrimento e pelas lágrimas. O próprio Jesus afirmou “quem quiser me seguir, tome a sua cruz e me siga” e “vai salvar a sua vida”.

A fé de Maria Santíssima foi marcada pela superação de toda dor cruel imposta nos ombros do seu amado Filho e Filho de Deus. Para as mães, os filhos nunca crescem, são sempre meninos, embora grandes. Acredito que Maria, a mãe da soledade e das dores, sempre olhou para Jesus Cristo dizendo em seu íntimo: Filho de Deus, menino meu. Repitamos: “Filho de Deus, menino meu”.

 

O primeiro encontro. Amor que gera vida

O evangelho de são Lucas tão apreciado por nós relata o primeiro encontro de Maria Santíssima com seu filho. Capitulo primeiro, versículo 26 “ o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, a uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José. O nome da moça era Maria”. Querida, preferida e amada por Deus. A igreja declarou que ela foi preparada por Deus para ser a Habitação digna do Filho, do Cristo promessa esperada por todo o Israel.

Amados irmãos, nas palavras do arcanjo se dá o primeiro encontro. Lucas 1,28: “Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo”. Encontro este no seio depositário da Graça Divina.

No poder de Deus, na ação dinâmica do Espírito Santo, se dá o mais sublime encontro da história de toda a humanidade. Um encontro que tem alegria, angústia e pertubação. Quando as palavras de Deus mexem com o coração e isso é sinal que elas encontraram um terreno preparado. Maria Santíssima é a nova arca da aliança e o porto seguro da nossa Salvação… Repita comigo: porto seguro, ancoragem da nossa salvação.

Amados irmãos, a gravidez é sempre uma benção. Razão de alegria. A gravidez nasce do amor e não da aventura de apaixonados. A gravidez reflete a condescendência de Deus. Deve ser gerada do sacramento do matrimônio. Temos histórias diferentes. Por isso a Igreja declara “sim à vida, desde a sua concepção, não ao aborto. Nunca poderá o seio que gera a vida, tornar-se sepulcro da morte, romper um encontro singular. (Dt 30,19) ”escolhe, pois, a vida para que vivas com tua posteridade”.

 

O encontro na manjedoura

Outro encontro lindo e testemunhado pelas cortes angelicais, foi relatado por Lucas evangelista (2,6): “Estando em Belém, completaram-se os dias, e Maria deu à luz seu Filho primogênito, que depois de envolto em palhas, dormiu na aquecida manjedoura, sob os acordes dos coros angelicais.

Santo Afonso de Ligório, do século VII, descreve a sua inquietação: ”que terão dito os anjos vendo a Divina Mãe entrar naquela gruta para dar à luz! Os filhos dos príncipes nascem em quartos adornados de ouro; preparam berços com pedras e mantilhas preciosas; e os primeiros senhores do reino fazem cortejo. E ao Rei do céu prepara-se uma gruta fria e sem luz para nela nascer; uns poucos paninhos para cobri-lo, um pouco de palha para leito, e uma vil manjedoura para o colocar?”

Nesse estábulo, se dá o primeiro encontro do olhar, da face materna e filial, do cheiro e do calor humano e quem sabe, da primeira lágrima. Pois o velho Simeão vai profetizar que “este Menino será razão da queda de muitos e erguimento de outros e Maria Santíssima, Mãe das dores, terá a alma transpassada pela espada” (Lc 2,35).

 

O encontro em Jerusalém

Todos os anos na festa da páscoa judáica em Jerusalém a Família Sagrada de Nazaré ia como de costume. Nesta Cristo menino tinha doze anos e ficou por lá. Em Lucas (2,46): “três dias depois o acharam no templo… E todos estavam maravilhados com a sabedoria dele”. Há no coração de Maria Santíssima um sinal, “pois ela guardava tudo em seu coração”. “Meu filho, que nos fizeste”? Este encontro poderá ter sido o primeiro em que a mãe começa a perceber a nobre missão do seu Filho; “cuidar das coisas de Deus.

Façamos uma prece pelas mães que perdem os seus filhos. Muitas mães veem sair pela porta da sala em busca de oportunidade em outras terras e nunca sabem quando vão voltar. Alguns nem voltam. São os encontros derradeiros. Outras mães perdem o filho para as drogas e a criminalidade só restando a elas banhar o rosto de lágrimas a cada noite depois de sua oração. Mães que não se cansam de rezar o terço pedindo livramento para seus filhos em um mundo cruel. Mães que esperam, que continuam esperando um abraço, um sinal de vida.

Uma prece pelas mães que só encontraram seus filhos já sem vida, ceifada na juventude e muitas vezes extirpada pela violência.

 

Encontro nas bodas de Caná

Maria santíssima, a mãe que encoraja seus filhos para que possam recuperar a alegria. Há no evangelho de João, capítulo 2, um encontro de dois corações. Um coração que pede. Um coração que pode. Repita comigo: Um coração que pede. Um coração que pode.

A Mãe Santíssima depois da aflição dos noivos pede ao Bom Jesus, com tão mansa voz: “eles não têm mais vinho”. E ele pode e diz: “enchei as talhas de água”. Um encontro que recupera a festa da vida. Espante a tristeza, lave o rosto, levante-se. “ A festa continua”. Repita comigo: “a festa continua”. Diga ao seu irmão: a festa continua!

Entre nós há quem perdeu a alegria, o sentido, o horizonte, o gosto pela vida. Façamos uma prece pelas pessoas doentes de depressão. A doença dos nossos dias que pode levar a morte silenciosa e lenta. Fiquemos vigilantes para que ninguém sofra desse mal. Em Caná da Galileia os potes estavam vazios, não se ouvia mais a música da dança. O encontro da Mãe das dores com seu Amado Filho e Nosso Redentor muda tudo. O Bom Jesus dos Passos muda tudo. Repita comigo: “O Bom Jesus dos Passos muda tudo”. Reze, peça ao Bom Jesus. Confie. Tudo fez e faz por você. Ele assumiu suas dores. Ele caminha entre nós. Experimentou nossa vida em tudo, exceto no pecado, disse o apóstolo Paulo. Conheceu o pior da humanidade, seu maior sofrimento. Ele pode ajudar você. Ele quer ajudar você a carregar a cruz. Por amor e total misericórdia.

Como disse o centurião romano: “basta uma palavra vossa e meu filho ficará curado” (Mt 8,8); como disse jesus ao cego: “eu quero, fica curado” (Mt 8,3), e ainda: “levanta-te e anda” (Jo 5,8); Efetá: abre-te! (Mc 7,34)

Amados irmãos, este encontro é transformador: Jesus proclama agora aos homens e mulheres doentes: Efetá: abre-te. E Paulo apóstolo completa: “Jesus veio salvar os pecadores, dos quais sou o primeiro (…) Encontrei misericórdia” (1tm 1,15). Quem segue os passos do Bom Jesus, é alcançado pela graça! Diga comigo!

 

Encontro lindíssimo foi com a samaritana (Jo 4).

No pingo do meio dia, debaixo de sol inclemente, jesus chega ao poço e pede água à samaritana. Encontro bendito. Ela se esquece até do pote vazio, pois mais vazio estava o coração dela. Vazio de amor, de afeto, de compreensão. Ninguém ajudava carregar a dor que ela trazia. Jesus é a água da vida. Por isso, naquele encontro ela exclama com a voz da alma: “Senhor, dá-me dessa água”. (Jo 4, 15).

Vivemos numa sociedade que tem sede e a maior delas é a sede de Deus. Como diz o salmo, a minha tem sede de deus, do deus vivo (salmo 42). Há sede de amor, de diálogo, de possibilidades que favoreçam à vida…

Uma sociedade de desencontros e desencantos que geram a intolerância, que geram violência. Encontros são pontes, declara o papa Francisco. O mundo de hoje precisa criar a cultura do encontro, da proximidade.

Chega de lados opostos. Encontros de unidade embora sejamos diferentes no modo de agir e até de pensar. Não se cultive a cultura da violência. “Em Cristo, somos todos irmãos” (Mt 23,8).

 

Encontro do Bom Jesus com a dor da traição

No Evangelho de João (12,13) há um encontro de jesus às portas de Jerusalém. Lá a multidão grita: “hosana, bendito o que vem em nome do senhor, o rei de Israel”. O Rei no jumentinho, o povo num grande cortejo real sob o olhar das autoridades que não queriam a novidade deste encontro.

Os fariseus fazem muitas investidas contra o povo para que pedisse a condenação do Bom Jesus,  diante dos tribunais. O que era festa tornou-se confusão. O que era esperança virou ilusão. Aquilo que era alegria agora se tornou lágrimas inconsoláveis.

 

 

Encontro com as mulheres que choram

Na sexta-feira vai ressoar o mais triste grito; “crucifica-o !” Neste caminho de dor uma multidão segue o Cristo que padece carregando pesada cruz, “as mulheres batiam no peito e lamentavam. Jesus olha para elas e num encontro que vale uma vida toda lhes diz “ não chorem por mim, chorem por vossos filhos (…) Se eles fazem isso ao lenho verde, que acontecerá ao seco?” (Lc 23,27).

Amado povo de Deus, cabe aqui uma pausa para que nos penitenciemos: a cruz do Bom Jesus não é dele, é nossa. Nele não há pecado, sobre ele estão os nossos pecados. Podemos meditar que dentre essas mulheres há uma que sofre mais que todas: Maria Santíssima das dores.  Quanta dor no coração da Mãe que sabe da santidade e pureza do seu Filho. Ela que conhece profundamente o coração dele. Todo feito de amor, só de amor. Como nos lembra são Francisco de Assis: Mas “o amor não é amado”. Também reza Santo Afonso: “queria a divina mãe abraçar a Jesus, mas a repelem com injúrias, e a empurram para diante do Senhor aflitíssimo.  Um homem todo cheio de sangue e de chagas, dos pés até a cabeça. A Mãe Dolorosa olha para ele, e quase não o conhece. Olhares dolorosos com tantas flechas. O coração da mãe e do filho foi traspassado.”

O encontro do Bom Jesus dos Passos com a Mãe das dores

Amado povo de Deus, nesta hora se descortinam os pecados da humanidade e novamente, como Adão e Eva, se coloca despida diante de Deus. Santo Afonso nos leva ao coração de Maria quando reza: “…ó Mãe de misericórdia, vede as minhas misérias e tende piedade de mim. Ouço que todos vos chamam refúgio dos pecadores, esperança dos que desesperam, sede também o meu refúgio, a minha esperança, o meu auxilio. Deveis salvar-me com a vossa intercessão. Socorrei pelo amor de Jesus Cristo. Estendei a mão a um pobre caído que se recomenda a vós. Sei que é a vossa consolação ajudar um pecador, quando é possível; ajudai-me, já que o podeis fazer. Pelos meus pecados perdi a Graça Divina e a minha alma. Entrego-me em vossas mãos; dizei-me o que hei de fazer para de novo entrar na Graça do Meu Senhor; quero fazê-lo sem demora”.

Encontro com o perdão: podemos alcançar o paraíso

É chegada a hora de pedir perdão. Olhemos para o coração de Cristo, Bom Jesus, para sua face ensanguentada, nos deixemos banhar pelas lágrimas de sua misericórdia e supliquemos à Maria Santíssima que nos ampare neste vale de lágrimas criado pelo pecado.

Amado povo de Deus, nos evangelhos há muitos encontros de Jesus com as suas ovelhas. Ele é o Bom Pastor que veio trazer vida em plenitude.

Quero chamar a vossa atenção, ao término deste sermão do encontro. Alguns pregadores anunciam a rejeição da cruz, como se ela fosse um atraso de vida. Pregadores anunciam prosperidade para os fiéis como obrigação de Deus. Queridos irmãos, Deus não deve nada a ninguém, entendamos: ele já fez a oferta fundamental para todos: a salvação redentora de Cristo no lenho da cruz; outra coisa não passa de detalhe. Somos herdeiros de Deus, pois somos filhos. O Bom Jesus dos Passos é o Penhor dado para que todos alcancem salvação.

 

 

O último encontro e o último olhar

João 19,25: “junto à cruz de jesus estava de pé sua mãe (…) Perto dela, o discípulo que amava. Do coração amoroso de Jesus pendente no madeiro redentor, além da dor, palavras que ecoam agora nesta praça: “mulher, eis aí o teu filho! Eis aí a tua mãe! “tudo está consumado. Inclinou a cabeça e entregou o Espírito.” (Jo 19,27).

Amado povo de Deus, foi o último olhar nesses passos de sofrimento. Foram as últimas lágrimas do coração materno dilacerado. A cortina da vida se rasga. É chegada a hora da salvação. Deus vai glorificar o seu Filho e o glorificará logo. No diz Afonso de Ligório “A dor de Maria na paixão de Jesus Cristo não foi estéril, ao contrário, uma dor que produziu frutos abundantes de vida eterna.  Pelo sacrifício dolo­roso de Maria, a Virgem dolorosa, ela foi feita de­positária dos merecimentos de Jesus Cristo, Co-redentora e Mãe de todos os fiéis que lhe foram confiados na pessoa de João. Se quisermos um dia ir gozar no céu, sigamos os Passos do Bom Jesus e sejamos devotos servos da Mãe das dores.”

Soframos com paciência as nossas penas e peçamos perseverança para que em dias atuais possamos ser “sal da terra e luz do mundo”, “numa Igreja em saída”, “misericordiosa e samaritana”. Amém!

 

 

Cidade de Oeiras, 23 de março de 2018

+ Francisco de Assis, Bispo de Campo Maior

 

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