Confira na integra o sermão da procissão do Fogaréu

Compartilhe:

“QUEM É QUE VOCÊS ESTÃO PROCURANDO?”

Meus irmãos e minhas irmãs!

Saúdo e cumprimento a todos desejando que a Paz de Deus recebida como Dom e alimentada dia-a-dia, na profecia dos pequenos gestos, palavras, olhares, sentimentos, atos e atitudes favoreçam o seguimento humilde a Jesus Cristo, na Alegria do Evangelho, para a construção de uma cultura de paz, rumo ao Reino definitivo.

Trago e ofereço, a cada um, o beijo dos pobres, das crianças vulneráveis, dos doentes, dos desprezados, dos perseguidos, dos humilhados, dos marginalizados, dos injustiçados, dos abusados e dos violentados da sociedade.

Compartilho, com todos, o sentimento de luto e de indignação com a situação do nosso país. Quantos Absurdos! Que tristeza! Que vergonha! Mas, por causa de Jesus Cristo, do Evangelho e do Reinado de Deus convido a todos a permanecermos na fé, na esperança e no amor, para continuarmos sustentando e insistindo na busca de conversão pessoal, eclesial, social, econômica, política, cultural, ecológica e humana.

Trago, enfim, um alerta muito oportuno do Papa Francisco, dado como motivação para a quaresma deste ano: “cuidemos do nosso coração e das atitudes do coração porque, o Amor corre o risco de resfriar. Ele cita o evangelho de Mateus 24,12.13: “A maldade se espalhará tanto, que o amor de muitos se resfriará. Mas, quem perseverar até o fim, será salvo.”

Acabamos de fazer a procissão do fogaréu, percorrendo as ruas de Oeiras.

O que esta noite tem a dizer para nós?

E essas tochas e luzes acesas, para que são mesmo?

O que procuram aqueles que trazem as tochas?

O que sabem sobre o que procuram?

O que querem daquele que procuram?

Tomemos o Evangelho de João 18,1-14. Ele nos dará informações preciosas e nos colocará na conjuntura dos fatos.

Tendo dito isso, Jesus saiu com seus discípulos, e foi para o outro lado do riacho do Cedron, onde havia um jardim. Ele entrou no jardim com os discípulos. Jesus já tinha se reunido aí muitas vezes com seus discípulos. Por isso, Judas, que estava traindo Jesus, também conhecia o lugar.

Judas arrumou uma tropa e alguns guardas dos chefes dos sacerdotes e fariseus e chegou ao jardim com lanternas, tochas e armas. Então Jesus, sabendo tudo o que lhe ia acontecer, saiu e perguntou a eles: “Quem é que vocês estão procurando?” Eles responderam: “Jesus de Nazaré.” Jesus disse: “Sou eu.” Judas, que estava traindo Jesus, também estava com eles.

Quando Jesus disse: “Sou eu”, eles recuaram e caíram no chão. Então Jesus perguntou de novo: “Quem é que vocês estão procurando?” Eles responderam: “Jesus de Nazaré.” Jesus falou: “Já lhes disse que sou eu. Se vocês estão me procurando, deixem os outros ir embora.” Era para se cumprir a Escritura que diz: “Não perdi nenhum daqueles que me deste.”

Simão Pedro tinha uma espada. Desembainhou a espada e feriu o empregado do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. O nome do empregado era Malco. Mas Jesus disse a Pedro: “Guarde a espada na bainha. Por acaso não vou beber o cálice que o Pai me deu?” Então a tropa, o comandante e os guardas das autoridades dos judeus prenderam e amarraram Jesus.

A primeira coisa que fizeram foi levar Jesus até Anás, que era sogro de Caifás, sumo sacerdote naquele ano. Caifás é aquele que tinha dado um conselho aos judeus: “É preciso que um homem morra pelo povo.”

Nesta noite de fogaréu, entre tochas e luzes, escutamos a perturbadora pergunta de Jesus: “Quem é que vocês estão procurando?”

Um silêncio desconcertante toma conta desta noite… toma conta de todos nós… questiona as nossas tochas e luzes… exige de nós uma resposta

“Quem é que vocês estão procurando?”

Voltemos ao Evangelho!

A narrativa de João fala de um riacho… de um jardim… de Jesus entrando no jardim com os discípulos e das muitas vezes que tinham ido neste jardim. Este jardim recorda o ambiente do paraíso do Gênesis de onde o homem foi expulso. A Serpente, inimiga de Deus, incitou Adão e Eva à traição da desobediência a Deus. Eles entraram na conversa da serpente; foram seduzidos por ela porque queriam conhecimento, independência, liberdade, prazer, poder, liberdade, grandeza. E, para se igualar a Deus colocaram-se como inimigos de Deus. Adotaram, para si, as intenções da serpente.

“Quem é que vocês estão procurando?”

Jesus entra no jardim para enfrentar e derrotar a serpente, símbolo do mal que oprime e mata os homens. Ninguém tem poder para prender Jesus ou defendê-lo. Ele se deixa prender. Ele se entrega livremente. Ele dá própria vida, cumprindo até o fim a missão que o Pai lhe confiou. Foi ele mesmo, Jesus, quem disse: “Ninguém tira a minha vida; eu a dou livremente. Tenho poder de dar a vida e tenho poder de retomá-la. Esse é o mandamento que recebi do meu Pai” (Jo 10,18). Ele dá própria vida, cumprindo até o fim a missão que o Pai lhe confiou.

“Quem é que vocês estão procurando?”

“Jesus de Nazaré!”

Esta é a resposta que surge entre os que buscam por Jesus. Uma resposta sem qualquer convicção, sem qualquer sentimento ou emoção. Uma resposta de quem, simplesmente, está cumprindo uma ordem, obedecendo um comando. Uma resposta de quem não conhece quem é Jesus e, por isso, não o reconhece, embora ele diga, insistentemente, “Sou Eu”. Não conhecem Jesus porque não conhecem o Pai. Não conhecem o caminho, a verdade e a vida. São cegos. Carregam tochas mas, não têm a luz. Não sabem nada de Jesus. Não sabem nada de Nazaré e, nem tão pouco do Mistério que envolve a vida de Jesus, em Nazaré.

Procuram Jesus como um impostor, mas, Ele é o Messias; Procuram Jesus como um malfeitor e, no entanto, ele só passou fazendo o bem. Procuram Jesus como um criminoso e, Ele é inocente. Procuram Jesus como um metido a Senhor e Ele, ao invés, é um servo. “Ele tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2,6-8)

“Quem é que vocês estão procurando?”

Judas é o mentor da busca por Jesus. Ele também conhecia o jardim porque tinha ido muitas vezes com Jesus e seus companheiros. Ele se associou aos inimigos de Jesus. “Judas arrumou uma tropa e alguns guardas dos chefes dos sacerdotes e fariseus e chegou ao jardim com lanternas, tochas e armas” (Jo 18,3).

Por causa dos ambiciosos projetos pessoais, ignorou o original chamado de Jesus como um dos Doze; desprezou a história de amor e amizade constituída no caminho do discipulado; passou a desrespeitar o pão da mesa comum; deixou-se seduzir e corromper pela fantasia do dinheiro; ficou cego em relação ao Mestre manso e humilde de coração e, finalmente, empurrado para dentro da noite escura da vaidade do poder que, sempre usa os artifícios da obscuridade, da enganação, da intimidação das armas e da falsa luz da verdade executou, com um Beijo, seu plano de traição, entregando Jesus.

“Quem é que vocês estão procurando?”

Pedro sai em defesa de Jesus e apela à violência. Desembainha a espada e fere o empregado do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Imediatamente Jesus repreende e contém o ímpeto violento de Pedro. Jesus é o Príncipe da Paz. Não é a violência da Espada que Jesus quer mas, a radicalidade do Amor. A única espada de Jesus é a Palavra. Assim diz a Carta aos Hebreus “A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto onde a alma e o espírito se encontram, e até onde as juntas e medulas se tocam; ela sonda os sentimentos e pensamentos mais íntimos. Não existe criatura que possa esconder-se de Deus; tudo fica nu e descoberto aos olhos dele; e a ele devemos prestar contas” (Hb 4,12.13).

A violência nunca foi e, nunca será, um bom recurso de defesa. Violência gera, sempre, violência, por menor que ela seja. A cultura da violência se nutre de pequenos gestos, palavras e atitudes violentas em nosso cotidiano. Vamos aceitando a violência e justificando-a, até que ela se torna mostro e nos engole.

A campanha da Fraternidade, em 2018, faz constatações alarmantes em relação a violência e nos desafia à superação da violência pelo reforço dos laços fraternos.

A pergunta de Jesus aos que o procuravam, também, se dirige a nós… a cada um de nós.

“Quem é que vocês estão procurando?”

“Quem é que você está procurando?”

Olhando para a História da Salvação compreendemos que Deus é quem toma iniciativa em tudo, no amor e na misericórdia.

 

Deus nos amou primeiro!

São João em sua primeira carta nos diz: “E o amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Amados, se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais viu Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus está conosco, e o seu amor se realiza completamente entre nós. Nisto reconhecemos que permanecemos com Deus, e ele conosco: ele nos deu o seu Espírito. E nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. Quando alguém confessa que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. E nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele. Nisto se realizou completamente o amor entre nós: o fato de termos plena confiança no dia do julgamento, porque tal como Jesus é, assim somos nós neste mundo. No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor. Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4,10-19).

 

Deus nos procurou primeiro

Na narração sobre a criação, a primeira grande obra de Deus é a luz. “Deus disse: faça-se a luz” e assim se fez. Deus Iluminou o mundo; pôs luz nas trevas; separou a noite do dia. As outras obras de Deus acontecem sob o poder da luz.

A primeira grande busca de Deus se dá no Paraíso do Gênesis, em meio às trevas da desobediência e do pecado. Adão e Eva caíram nas redes da serpente. Afrontaram a Deus e, depois, colocaram-se em fuga, foram se esconder, com medo dos passos e da voz de Deus que, antes, era a plenitude de tudo. Deus insiste em chamar Adão: “onde você está?” (Gn 3,9). Adão e Eva respondem com desculpas e justificativas. Deus, porém, os coloca diante das consequências do pecado: a inimizade com a serpente e a perda do paraíso.

Desde o Paraíso do Genesis, Deus nunca deixou de procurar o ser humano até encontrá-lo e resgatá-lo:

Foi assim, no Dilúvio, libertando das águas;

Foi assim, no Egito, libertando da escravidão;

Foi assim, no Deserto, libertando da idolatria;

Foi assim, no Exílio, libertando da humilhação;

Foi assim, na Encarnação, libertando do pecado;

Foi assim, na Cruz, libertando da morte;

Continua sendo assim na Eucaristia, libertando na fome de Deus;

Continua sendo assim na Comunidade, libertando do isolamento e do individualismo;

Continua sendo assim na vida pessoal: em cada situação concreta e em cada acontecimento, nos garantindo a salvação e vida eterna.

O símbolo do Pastor que busca a ovelha perdida é, sem dúvida, a imagem mais bonita e mais eloquente do Deus que não cessa de nos buscar. Ele nos procura até nos encontrar.

“Quem é que você está procurando?”

Antes de mais nada, olhe para aquele que tem procurado a você!

A experiência do Deus que nos procura, incessantemente, nos faz ir ao seu encontro e, também, procurá-lo!

Sua busca nos atrai e desperta nosso desejo, nossa fome e nossa sede.

Sua proximidade desbanca o nosso medo e nos enche de confiança.

Seu amor nos permite conhecer o seu nome e chamá-lo com a intimidade de um familiar.

Sua misericórdia nos faz descer do trono do orgulho, colocando-nos ao lado dos irmãos.

Sua bondade nos faz acreditar no bem, fazendo-nos pessoas do bem.

Seu reinado nos faz servidores da justiça e da paz.

Escutemos o que nos diz o profeta Isaías: “Procurem o Senhor enquanto ele se deixa encontrar; chamem por ele enquanto está perto. Que o ímpio deixe o seu caminho e o homem maldoso mude os seus projetos. Cada um volte para o Senhor Deus e ele terá compaixão; volte para o nosso Deus, pois ele perdoa com generosidade” (Is 55,6.7).

A busca de Deus não é algo circunstancial e momentâneo, imediatista e mágico. Procurar o Senhor é uma postura de fé e vida; é uma aliança.

Por isso, a carta ao Hebreus traz este alerta: “Mas Deus, queixando-se contra o seu povo, diz: ‘Eis que virão dias, fala o Senhor, nos quais concluirei uma aliança nova com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não será como a aliança que fiz com seus antepassados, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los sair da terra do Egito. Uma vez que eles não foram fiéis à minha aliança, eu também não me preocupei mais com eles, diz o Senhor. Esta é a aliança que vou concluir com a casa de Israel, depois daqueles dias, fala o Senhor: Porei minhas leis na mente deles e as imprimirei em seus corações; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Nenhum deles terá mais o que ensinar ao seu compatriota nem ao seu próprio irmão, dizendo: Conheça o Senhor! Pois todos me conhecerão, desde o menor até o maior. Porque eu vou perdoar as faltas deles e não me lembrarei mais dos seus pecados’.” (Hb 8,8-12. Confira, também, Jr 31,31-34).

“Quem é que você está procurando?”

A procura pelo Senhor se faz no Hoje de cada dia, fundamentado em tudo o que o Senhor realizou e continua realizando como obra de Salvação em nossa vida. E isso só acontece se nos deixamos conduzir pelas luzes do Espírito Santo que nos foi dado.

Por isso, escutemos o que diz o Espírito Santo: ‘Hoje, se vocês ouvem a voz dele, não fiquem de coração endurecido como no dia da revolta, no dia da tentação no deserto. Ali os pais de vocês me tentaram, pondo-me à prova, embora já tivessem visto as minhas obras durante quarenta anos. Por isso, aquela geração me desgostou, e eu disse: ‘Eles têm sempre o coração transviado, não conheceram os meus caminhos. Por isso, eu jurei na minha ira: Jamais entrarão no meu descanso’.” Portanto, irmãos, tenham cuidado para que não haja entre vocês nenhum homem de coração perverso e sem fé, que se afaste do Deus vivo. Animem-se uns aos outros a cada dia, enquanto dura a proclamação desse hoje, a fim de que ninguém de vocês se endureça, enganado pelo pecado. De fato, nós nos tornamos participantes de Cristo, contanto que mantenhamos firme até o fim a confiança que tivemos desde o início. Quando se diz: “Hoje, se vocês ouvem a voz dele, não fiquem de coração endurecido como no dia da revolta”, quais foram aqueles que se revoltaram depois de ter ouvido a sua voz? Não foram todos aqueles que tinham saído do Egito graças a Moisés? E quais foram aqueles de quem Deus se desgostou por quarenta anos? Não foram aqueles que tinham pecado, e cujos cadáveres caíram no deserto? E para quem foi que Deus jurou que não entrariam no seu descanso? Para aqueles que não tinham acreditado. Vemos assim que eles não puderam entrar aí, por causa da sua falta de fé.

Por isso, tenhamos cuidado enquanto nos é oferecida a oportunidade para entrar no descanso de Deus. Não aconteça que alguém de vocês fique para trás! Nós também recebemos como eles uma boa notícia. Mas a mensagem que eles ouviram, de nada lhes adiantou, pois não permaneceram unidos na fé com aqueles que tinham ouvido. Nós, porque acreditamos, podemos entrar nesse descanso, conforme Deus disse… “. (Hb 3,7-4,5).

Não nos cansemos de amar a Deus porque ele nos amou primeiro!

Não nos cansemos de procurar a Deus por que ele nos procurou primeiro!

Deixemos que as luzes do Espírito Santo nos conduzam ao verdadeiro encontro com Jesus.

 

Oeiras, 29 de março de 2018.

 

Padre Edivaldo Pereira dos Santos

Administrador da Paróquia São José (Paes Landim, PI) e

Área Pastoral São Miguel Arcanjo (São Miguel do Fidalgo, PI).

 

Posts Relacionados

ANO
JUBILAR

AMIGOS DO
SEMINÁRIO

ESCOLA
MISSIONÁRIA
DISCÍPULOS DE
EMAÚS - EMIDE

Facebook

Instagram

Últimos Posts