“A CRUZ FOI O PÚLPITO ONDE DEUS PREGOU O AMOR” (Santo Agostinho)
Excelentíssimo Reverendíssimo Dom Augusto Alves da Rocha, bispo emérito da Diocese de Floriano, a quem filialmente dirijo uma afetuosa e cordial saudação.
Reverendíssimo Monsenhor Geraldo Gereon, Administrador Diocesano de Oeiras, neste período de “Tempe Sede Vacante” (Tempo do Trono Vazio). Um forte e caloroso abraço a Dom Juarez Sousa que com força e determinação conduziu esta Diocese, e por amor à missionariedade atendeu ao pedido do Santo Padre o Papa Francisco, de ser Bispo Coadjutor da Diocese de Parnaíba, mas que com certeza posso afirmar que neste exato momento irmana-se a todos nós pela força da fé.
Reverendíssimo Padre João, Pároco da Catedral de Nossa Senhora da Vitória, que com maestria, zelo e profunda piedade vem desempenhando o seu ministério sacerdotal jovial… Na pessoa de quem saúdo os demais sacerdotes aqui reunidos, desta e de outras dioceses, os quais condividem comigo a beleza, tanto quanto a dureza da vida sacerdotal. Estimados religiosos e religiosas de vida consagrada, queridos seminaristas, saudações fraternas.
Distintas autoridades civis e militares aqui presentes uma saudação cordial, você que nos acompanha também pelas ondas da rádio, ou por meio televisivo sintam-se envolvidos neste belo momento.
E um externar de carinho bem profundo por todos que aqui se encontram: são milhares de pessoas que acorrem à Capital da Fé, nossa amada cidade de Oeiras-PI, neste período grandioso para reafirmar a beleza da tradição, o amor à cidade e principalmente reabastecer o espírito com a fé necessária para levarmos a bom termo a vida que possuímos.
Confesso que ao receber tal incumbência, para estar aqui pregando para todos vocês, faltaram-me as pernas e precisei sentar estarrecido, mas algo que acredito ser a força do Espírito Santo fez-me recordar as primeiras palavras proferidas pelo Santo Padre o Papa Emérito Bento XVI no instante de sua eleição: “Conforta-me saber que Deus sabe trabalhar com instrumentos insuficientes, ao mesmo tempo confio a minha vida às orações de todos vocês”. Confiante na graça de Deus que supre a nossa limitada condição humana e sendo inebriado por esta atmosfera de fé que paira sobre este local de modo mais intenso neste dia, permitam-me dirigir algumas palavras a mim e a todos quantos desejarem ouvi-las.
Tem algo que em minhas meditações fico a imaginar, sem ter o desejo de exaurir toda compreensão, pois nem o posso, algo que se chama AMOR MISERICORDIOSO DE DEUS PELA HUMANIDADE. Nosso cristianismo nos apresenta tal amor de modo bem impactante; enquanto em outros modos de se ter uma vida espiritual são os seres humanos que em meio a apalpadelas tentam atingir a divindade, em nosso Cristianismo é Deus quem desce da comodidade do seio da Trindade e se encarna assumindo a nossa humana condição para nos resgatar do pecado e da morte, é a misericórdia que vem ao encontro de nossa miséria por amor paternal. Toda vida terrena do Cristo, seus milagres, seus ensinamentos, seu desejo voluntário de ausência de moradia fixa, seus gestos de carinho para com aqueles que eram a escória da sociedade, tudo isso era Seu santo desejo de apresentar Deus como Pai Amoroso e que quer a todos e está a disposição de todos, respeitando a liberdade de quem o queira buscar de coração sincero, que ama o pecador, não a sua mácula. E vendo que a má utilização da liberdade humana fazia com que a mesma liberdade, muitas vezes não abraçasse o que Ele propunha, muito antes de se sentir fracassado na missão, Ele chega a este ato extremo de Amor, carregar sobre si o peso dos nossos pecados, morrer dando a sua vida em troca da nossa salvação, o Justo pelo injusto, como Ele mesmo nos afirma em várias passagens: “Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como uma galinha reúne seus pintinhos sob suas asas, e vós não quisestes” (Lc13,34), ou “ninguém me tira a vida, mas por mim mesmo eu dela me despojo” (Jo10,18), é o escancaramento do amor de Deus sem limites tão bem retratado naquela singela canção conhecida por todos nós: “prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Ao olhar a imagem do Bom Jesus dos Passos, não apenas no fator estético de tão bela peça, mas lançando um olhar de fé ao contemplar seus flagelos, sua expressão de dor física, ao lermos os relatos da Paixão de Cristo os quais atestam tamanha crueldade para com o Cordeiro de Deus, nasce em mim uma pergunta: Deus precisa, meus irmãos e irmãs, ficar dando ainda provinhas de amor para conosco? Não, definitivamente não, peremptoriamente não. A cruz, não me referindo ao madeiro somente, mas a tudo que ela significa para nós, a maior prova de amor incondicional pela humanidade, pois ao nela morrer Jesus carrega sobre si aquilo que era débito nosso e nos abre as portas do paraíso, depois dela não podemos e seria até audacioso de nossa parte achar que Deus algo nos deva, que ele precise ainda comprovar seu amor. “A CRUZ FOI O PÚLPITO ONDE DEUS PREGOU O AMOR” (Santo Agostinho)… Contemplar as Chagas de Jesus nos faz acreditar que Elas ferem os corações mais duros e aquecem as almas mais frias…
Os Passos de Jesus em direção ao Calvário são revestidos de misericórdia até mesmo oferecida aos seus algozes “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc23,34). Nos passos de nossa vida terrena carregar as nossas cruzes não significa prazer sensitivo à dor, aos problemas, às provações, mas é a prova que damos por meio da fé que aquele que caminha com Jesus, enquanto peregrina nesta terra sofre em comunhão com os sofrimentos de Cristo e tem a plena consciência de que seu fim último não será uma gélida ou quente sepultura, mas o retorno aos braços de Deus Pai, desejo supremo da alma humana, a visão beatífica. Por isso temos ciência de que é duro seguir a Cristo, mas quem o ama verdadeiramente é impossível deixar de segui-lo, pois nEle e somente nEle todo vazio interior do coração humano é preenchido. Ó Bom Jesus dos Passos ajudai-nos a carregar as nossas cruzes com coragem e resignação.
Mas quem exala amor jamais está sozinho, além de muitos que no caminho doloroso do calvário choravam ao verem as atrocidades gratuitas oferecidas Aquele que só ofereceu amor, veio ao seu encontro uma presença refrigéria, uma inigualável pessoa que nutria para com Ele uma intimidade desde a sua concepção , quando do seu Sim ao arcanjo Gabriel: MARIA SANTÍSSIMA, na ocasião intitulada VIRGEM MÃE DAS DORES, VIRGEM MÃE DA SOLEDADE. Cantemos: “Pela Santa Virgem, que com grande dor, foi ao Vosso encontro perdoai, Senhor!”
Para avaliar a grandeza da dor de Maria neste encontro, intuindo que a morte de SEU DIVINO FILHO era iminente devemos trazer para bem próximo do nosso entender o inigualável amor que a tal Mãe consagrava a tal Filho. Todas as mães sentem como próprias as dores dos filhos. Lembremos da mulher cananeia, quando gritou em súplicas ao Senhor lhe livrasse a filha do demônio, disse tão somente: “Senhor, tem compaixão de mim; minha filha está atormentada pelo demônio” (Mt 15,22). Que mãe, porém, jamais amou a seu filho, quanto Maria amou a Jesus? Era-lhe Jesus Filho e Deus ao mesmo tempo. Que viera ao mundo para atear em todos os corações o fogo do Amor Divino, que naquele momento esvaia-se em sangue devido aos cruentos tratos. Jesus sangrava visivelmente, Maria em Seu interior sofria hemorragias invisíveis, mas reais, por isso a Igreja é sábia ao intitulá-la Rainha dos Mártires. Seu coração, pelo amor, estava unido completamente ao de Seu Divino Filho. Este misto de serva e Mãe, fez-lhe fazer uso de toda fé que possuía. O instinto exclusivamente materno fazia-lhe querer estancar o sofrimento e digladiar com os fortes soldados romanos arrancando dos mesmos seu amado e leva-lo para ser tratado em suas feridas e acalentado ao seu colo… A Mãe-Discípula, mesmo sem compreender tamanha dor resignava-se e acreditava, com certeza acalentada pelo olhar sereno de Seu Divino Filho, que muito lhe falava sem palavras. Tudo o que acontecia tinha um significado profundo revestido de amor, pois o sofrimento, amados e amadas no Senhor é um ponto entre felicidades, sua fé não lhe permitia aceitar que ali seria o fim, mas o meio pelo qual os Planos Divinos seriam concretizados… Daí o porque de aos pés da cruz Ela permanecer de pé, não apenas como demonstração de sua posição corporal do momento, mas a solidez de sua confiança no Pai do Céu, de seu sim dado a Deus na Anunciação.
Na Via-Crucis e aos pés da Cruz, diante de Jesus, Maria une a sua dor à de Seu Filho e nos mostra que o amor de Deus é mais forte do que a morte. A sua dor é uma “dor cheia de fé e de amor. A Virgem no Calvário participa da potência salvífica da dor de Cristo, unindo o seu “fiat”, o seu “sim”, ao do Filho. Diante do sofrimento do Filho, Maria confia em Deus. Sabe que na Cruz Jesus derramou todo o Seu precioso sangue para libertar a humanidade da escravidão do pecado e da morte eterna. A Virgem Maria, que acreditou na Palavra do Senhor, não perdeu a sua fé em Deus quando viu o Seu Filho rejeitado, ultrajado e colocado na Cruz. Permaneceu diante d’Ele, sofrendo e rezando, até o fim. E viu o alvorecer radioso da Sua Ressurreição. Maria nos ensina que quanto mais o homem se aproxima de Deus, mais se aproxima dos homens. O fato de Maria, na hora da Cruz, ter permanecido totalmente em si, sem necessidade de calmantes, sofrendo tudo fortificada pela fé é a razão pela qual se faz também tão próxima dos homens. Há se diante da morte de um ente querido nós nos lembrássemos da atitude da Mãe das Dores e a imitássemos em sua confiança plena, sofreríamos pelo impacto da ausência de reações humanas no corpo sem vida da pessoa que partia: sorrisos, abraços, palavras, mas não sofreríamos pelo desespero de perda, pois não se perde aquele que se ama e que é devolvido aos braços de Deus. Por isso, a Virgem das Dores pode ser com todo mérito a Mãe de toda consolação e de toda ajuda, refúgio dos pecadores, auxílio dos cristãos, uma Mãe à qual em qualquer necessidade qualquer um pode dirigir-se em sua fraqueza e em seu pecado, porque ela acolhe todos e para todos é força aberta da bondade divina.
Concluo, meus irmãos e irmãs, esta minha reflexão com uma breve e conhecida oração atribuída a Santo Inácio. Desejo que seja recitada por todos nós para darmos prosseguimento a tão magno momento. Após cada invocação repitamos:
ALMA DE CRISTO, santificai-me. Corpo de Cristo, salvai-me. Sangue de Cristo, inebriai-me. Água do lado de Cristo, lavai-me. Paixão de Cristo, confortai-me. Ó Bom Jesus, ouvi-me. Dentro das Vossas Chagas, escondei-me. Não permitais que de Vós me separe. Do espírito maligno, defendei-me. Na hora da minha morte, chamai-me. E mandai-me ir para Vós, para que Vos louve com os Vossos Santos, por todos os séculos. Assim seja, Amém!
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Ao Rei dos Séculos, Imortal e Invisível, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!!!
Por: Pe. Sérgio Leal de Moura
DIOCESE DE PICOS
(Vigário Paroquial de Acauã-PI)










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