Excelência Rvma. Dom Edilson Soares Nobre,
Bispo Diocesano de Oeiras/PI a quem a gradeço a honra do convite para este momento celebrativo de tanta importância entre as muitas manifestações de fé e piedade de nosso povo de Oeiras e região,
Irmãos no presbitério,
Irmãos salesianos. Colho a ocasião para agradecer a acolhida e a missão a nós confiada na doce colina do rosário.
Povo de Deus de Oeiras e região que testemunha sua fé e devoção neste solene ato de contemplação e piedade.
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo e vos bendizemos. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo!
Irmãos e irmãs,
Iniciamos na noite de ontem o solene Tríduo Pascal, estivemos com Jesus na santa ceia, escutamos seu convite para aderirmos ao seu mandamento maior, o mandamento do amor e agora estamos em plena sexta-feira santa, e é a atitude de adoração que nos é solicitada pela Igreja. Seu mistério de vida, doação, oferta, morte e sacrifício por amor de nós.
Nestes dias altos de nossa fé nos foi dada a divina graça de ver a nossa própria existência imersa na vida de Cristo. Não é um teatro, não é uma simples tradição, não é só um aparato ritual anual de antigas celebrações para sentimentalizar os nossos corações, não somos espectadores ou consumidores destes eventos, mas, estamos aqui reunidos no silêncio da praça das Vitórias, com o coração aquecido pela fé, diante da Igreja Catedral para contemplarmos o mistério da Misericórdia Divina por amor de nós.
A presença numerosa dos fiéis revela o coração mais genuíno do nosso povo que sabe testemunhar a sua fé.
Nós estamos em Jerusalém com Jesus!
É isso que celebramos na jornada silenciosa e longa de hoje!
Mas, não existe dor do homem e da mulher que a esta cruz não se ajuste! (Música – P Geraldo Leite)
Hoje contemplamos o dia em que “o esposo foi tirado” (Lc 5, 33-35), contemplamos suas chagas, tornamos presentes as dores e martírios de tantos irmãos e irmãs.
Deixemo-nos ser tocados por esse mistério, abramos nosso coração e aceitemos com amor a salvação trazida pela Cruz do Senhor, pois, é no aspecto da humilhação e da morte que está sempre inseparavelmente ligado ao mistério da ressurreição e glorificação de Nosso Senhor.
É um salto de qualidade teologal que somente as celebrações destes dias são capazes de proporcionar. Substituindo qualquer palavra ou discurso humano, a liturgia dá vez a um conjunto de gestos silenciosos e profundos que proclamam com eloquência a delicada verdade de nossa fé: do lenho da Cruz pendeu a salvação do mundo.
Caríssimos, recordemos agora os passos de Jesus rumo à sua paixão salvadora. A missão de Jesus, a sua prática pastoral e o acolhimento aos pobres, indefesos e excluídos, sem precedentes na história humana, começaram a preocupar as autoridades. Escutamos de tarde a trama ao redor do sacrifício de Jesus.
Os Escribas, Teólogos eruditos nas Sagradas Escrituras; Os Saduceus, de onde provinham os sumos sacerdotes; Os Herodianos, partido dos amigos de Herodes; Os Anciãos do povo, leigos possuidores de grandes propriedades.
Lamentavelmente todos eles têm a Jesus como inimigo. Os
evangelhos nos mostram como a obra salvadora de Jesus foi dificultada. Seus interlocutores tornaram-se seus opositores. Ele conheceu a resistência, a exclusão, a traição, o abandono, o insulto, a covardia, a calúnia…
Acompanhamos ainda nessas primeiras horas do dia o processo falso e ilegal feito pelas autoridades políticas e religiosas contra Jesus. “Caifás o Sumo Sacerdote em exercício, proclamou solenemente que Jesus é condenado à morte por blasfêmia: Jesus se diz ser Filho de Deus. E todo o Sinédrio através dos seus membros reafirmam unanimemente: seja condenado à morte – à morte! E Pilatos com sua personalidade violenta ratificou a morte de Jesus”. O sacrifício começou. (cf. P José Rolim 2002)
O condenado carregava às costas a haste da cruz até o lugar da execução onde se encontra a parte vertical, fincada no chão, e ficava por horas a fio até que chegasse a morte por espancamento, asfixia, hemorragia, colapso… Diz o profeta Isaias, no quarto cântico do servo de Javé: Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas chagas fomos curados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. (Is 53,5-6).
A consagração de Jesus à vontade do Pai, a sua obediência, não significam uma submissão à vontade tirânica que impõe uma linha de conduta. A adesão total de Jesus ao querer do Pai representa a resposta espontânea e livre ao amor infinito do Pai. (P José Rolim 2002). Não há contradição entre o mistério de hoje e o da Vigília pascal.
Um final violento da vida de Jesus já se estava preparando desde os primeiros dias de seu ministério. No Evangelho de João, ele anunciou a necessidade de que o Filho do homem fosse levantado / exaltado (3,14;8,28;12,32) e ele já havia esperado este momento como a hora de sua glorificação. (Moloney, 434). Sob os véus da dor e da tristeza, a crucifixão de Jesus é um momento de glória real, uma exaltação, uma glorificação (12,23), a subida ao trono do amor.
Concentremo-nos no mistério que estamos celebrando nesta noite. O amor de Deus é luz, é felicidade, é plenitude de vida. É a torrente que Ezequiel viu sair do templo que, onde quer que chega, restabelece e suscita vida; é a água prometida à Samaritana que sacia qualquer sede. Jesus repete também a nós, como a ela: Se conhecesses o dom de Deus! (Jo 4, 10). Deus é amor, e a cruz de Cristo é a sua prova suprema.
Deus amou-nos no primeiro modo na criação, quando nos encheu de dons, dentro e fora de nós; amou-nos com o amor do sofrimento na redenção de seu Filho que enfrentou a sua aniquilação, sofrendo por nós os sofrimentos mais atrozes, a fim de nos convencer do seu amor. Por isso é na Cruz que agora se deve contemplar a verdade que Deus é amor (1Jo 4,8).
Celebrar a paixão e a morte de Jesus é “abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil…” por amor ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites e fragilidades, (na CF deste ano 2026 o contemplamos sem teto, solidário com os que não possuem fixa moradia), experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a tentação, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e estendido ao chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado e incompreendido, continuou a amar.
Desse amor resultou vida plena, que ele quis repartir conosco até o
fim dos tempos, esta é a mais espantosa história de amor. Ela é a boa notícia, o Evangelho que enche o coração dos fiéis.
Contemplar a cruz significa ainda assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade… os que sofrem eliminação social e até virtual. Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens.
Neste momento de contemplação do descimento de Nosso Senhor e Salvador, da árvore gloriosa e fecunda, a Santa Cruz e em seguida, da procissão do Senhor Morto, encontraremos a Santíssima Virgem, envolta em dores, (A Virgem das Dores, a Senhora da Piedade, A Senhora das angústias, a Senhora da Soledade, a Senhora das sete dores, a Virgem das lágrimas, a Senhora da Esperança do Calvário…) sua fé foi sendo provada gradativamente e ela fazia de cada dor uma experiência de Deus. O autor antigo atribui a Maria a citação do capítulo dois do livro das lamentações: Grande como o mar é tua dor, “ó Maria” quem te curará? Encontraremos também Maria Madalena, cheia de amor, testemunha forte de fé ardente, sentiremos também a presença de Simão, o cirineu, e refletiremos quão difícil é o caminho do serviço, pode ser que nos lembremos também de Judas, e nos perguntemos se não estamos também nós num contexto de traição que finge amor.
Por fim estamos nós com Jesus, estamos nós, povo de Deus, a multidão. Não aquela multidão subornada pelas autoridades para contribuírem com o mentiroso processo contra Jesus, não. Queremos sim, ser aquela multidão que testemunhou as manifestações do Verbo de Deus agindo no meio de seu povo.
Somos esse povo que embora cansado, nem sempre coerente no
testemunho, nem sempre fiel aos apelos de Deus, nem sempre convertido, fixa os olhos em Jesus e tenta, mesmo que às apalpadelas, perceber o mistério de amor no qual estamos envolvidos.
Numa palavra, a paixão de Jesus é amor. Amor demonstrado, doado, ofertado em favor de nós. E esse é nosso verdadeiro distintivo como cristãos, devemos amar. Analisemos nossas ações, nossas pequenas e grandes incidências na vida das pessoas que nos rodeiam e verifiquemos se de fato seguimos o doloroso caminho da cruz.
No esplendor dessa santa e feliz paixão recebemos força para sermos fiéis à nossa missão. Aceitemos o seu convite, e repitamos entre nós as suas palavras, na expectativa de sua Ressurreição.
Irmãos e irmãs, fixemos o nosso olhar para o alto da Cruz. É ele o cordeiro imolado, é Cristo a nossa Páscoa.
1. JOSÉ DE ARIMATEIA E NICODEMOS
Dois homens alcançam o alto da Cruz. José de Arimatéia, com permissão de Pilatos, tira o corpo de Jesus. O Evangelista João acrescenta: E foi também Nicodemos o mesmo que tinha ido de noite encontrar-se com Jesus (Cf. 19, 38-39). Aprenderemos com este gesto uma das obras de misericórdia corporais. O corpo de Cristo, a sua Igreja continua sofrendo. Há guerras no mundo. Há divisões eclesiais… lutemos com as armas do amor pela unidade do mundo e da Santa Igreja, corpo de Cristo. Nestes dois homens estão os primeiros sinais de uma comunidade que nasce aos pés da cruz (Cf. Moloney, 445).
2. JOÃO BATISTA
Na tradição do nosso povo aqui de Oeiras também encontra-se João Batista que aponta o cordeiro de Deus, aqui imolado para a nossa salvação.
3. O LETREIRO
Na narrativa da paixão que escutamos na liturgia da tarde de hoje, se dizia que Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na cruz; nele estava escrito: “Jesus o Nazareno, o Rei dos Judeus“. Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade. O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. (Jo 19, 19-20). Pilatos que durante o processo de condenação de Jesus havia insistido sobre a realeza de Jesus (Cf. Jo, 18, 33.37.39) continua sua sarcástica proclamação desta verdade numa proclamação multilíngue que anuncia a verdade de Jesus como Rei e Senhor. (Cf. Moloney, 439).
4. O VÉU
Senhor é vossa face que eu procuro, não me escondais a vossa face
(Sal 27, 8-9).
Verônica (aqui chamada popularmente e ternamente de Maria Beú) representa este anseio que une a todos nós mulheres e homens, o desejo de contemplar a face de Deus. No caminho da Cruz, Verônica presta um socorro com delicadezas femininas: oferece a Jesus um sudário, uma toalha para enxugar seu rosto desfigurado.
Ela não se deixa contagiar pela brutalidade dos soldados, nem paralisar pelo medo dos discípulos. É a imagem da mulher boa que, na perturbação e na escuridão dos corações, mantém a coragem da bondade, não permite que o seu coração se obscureça.
No início, Verônica vê apenas um rosto maltratado e marcado pela dor. Mas o ato de amor imprime no seu coração a verdadeira imagem de Jesus: no Rosto humano, cheio de sangue e feridas, ela vê o Rosto de Deus e da sua bondade, que nos acompanha mesmo na dor mais profunda. Só com o coração podemos ver Jesus. Só o amor nos torna capazes de ver e nos torna puros. Só o amor nos faz reconhecer Deus, que é o próprio amor. (Cf. J Ratzinger – Via Sacra 2005).
Na tradição oeirense este véu hoje é colocado nas mãos de Maria Santíssima. Ele, olhando para nós, seus filhos, apresenta o rosto de seu amado Filho que é nossa Salvação.
Se o nosso rosto não tem expressão / imprimi em nós a vossa face, Senhor /Se o nosso rosto está distante / Se os nossos gestos dividem
/ Se as nossas escolhas ferem / Se os nossos projetos excluem (Cf. Papa Francisco – Via Sacra 2025) / Se a violência nos domina / se o perdão retarda
5. A COROA DE ESPINHOS
Os soldados teceram uma coroa de espinhos e colocaram-na na cabeça de Jesus (Jo 19, 2).
6. O LENÇOL
Um gesto de respeito e de humana caridade ao corpo martirizado do Senhor.
- OS CRAVOS DAS MÃOS DO SENHOR (braço direito e esquerdo)
Jesus tomou a Cruz sobre si e saiu para o lugar chamado “Calvário”, em hebraico “Gólgota”. Ali o crucificaram com outros dois: um de cada lado, e Jesus no meio (Jo 19, 17-18).
Jesus foi pregado na cruz. Uma tortura terrível. E enquanto está
pendurado na cruz, muitos zombam dele e até o provocam: Salvou outros e não consegue salvar-se a si mesmo! … Ele confiou em Deus; que Deus o liberte agora, se o ama. Pois ele disse: “Eu sou Filho de Deus (Mt 27, 42-43). Assim, é ridicularizada não só a sua pessoa, mas também a sua missão de salvação, aquela missão que Jesus, precisamente na cruz, estava a levar a cabo.
Quantas vezes, diante de uma provação, pensamos que fomos esquecidos ou abandonados por Deus. Ou até somos tentados a concluir que Deus não existe.
O Filho de Deus, que bebeu até ao fim o seu cálice amargo e depois ressuscitou dos mortos, diz-nos, pelo contrário, com todo o seu ser, com a sua vida e a sua morte, que devemos confiar em Deus. Nele podemos acreditar. (Cf. Camilo Ruini – Via Sacra 2010)
8. O CRAVO DOS PÉS DO SENHOR
Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a paz (Is 52, 7). Os pés do Senhor estão sobre o madeiro da cruz. Adorando a Santa Cruz, cantamos:
Sanctus Deus / Sanctus Fortis /Sanctus Immortalis
Numa grandeza simbólica a celebração deste dia pascal canta a força de Deus e nós movidos de fé, vemos força, santidade e imortalidade nestes benditos pés agora inertes do Senhor. Na madrugada da ressurreição, eles ressurgirão e serão forte sustentáculo não mais do anúncio nas montanhas, mas, da marcha da estrada da Igreja que caminha na certeza da Pátria definitiva, alcançada pelo mistério da nossa redenção.
9. A DESCIDA e A ACOLHIDA NOS BRAÇOS DE MARIA SANTÍSSIMA
O corpo sagrado de Nosso Senhor é descido da Cruz. Jesus que tinha sido proclamado e coroado rei diante de Pilatos (cf. Jo 18, 28- 19,16), proclamado rei depois pela inscrição colocada no alto da Cruz (Jo 19, 19-22) que tinha agido como rei ao instituir um novo povo de Deus do alto da cruz (Jo 19, 25-27) vendo Maria e João, foi agora ungido com uma grande quantidade de aromas, envolvido em faixas de linho e depois depositado num sepulcro novo (Jo 19, 40-42). Jesus é o Rei!
E é colocado, segundo antiga tradição, nos braços de sua mãe. Eis que reencontramos Maria Santíssima no alto do Gólgota. Seu fiat não terminou. Recebendo o corpo de Jesus em seus braços Maria Santíssima é a Mater Dolorosa. Maria é representada com o coração traspassado por sete espadas, símbolo da dor suprema, para evocar aquela misteriosa profecia que o ancião Simeão lhe dirigira durante a apresentação do menino Jesus no Templo: Também a ti uma espada traspassará a alma (Lc, 2, 35). É como se, simbolicamente, a lança que perfurou o lado do Filho morto atravessasse agora também a Mãe.
O mapa de nosso Estado indica o aumento de 17,6% da violência contra a mulher… até quando, Mãe? Ajuda-nos!
E é perante esta figura de mulher e mãe «dolorosa», sinal e síntese de todas as mulheres e mães dolorosas, que entoaremos os cânticos mais conhecidos da piedade cristã e mariana.
Salve, Maria. Mãe do Crucificado, Mãe do Ressuscitado. Tu mereceste trazer em teu ventre o homem-Deus. Cessarão as lágrimas e a dor deste último abraço será substituída pela radiante luminosidade da Páscoa da Ressurreição.
Irmãos e irmãs, sigamos, portanto, esta singular procissão. Na beleza austera da celebração desta noite, pedimos que nos venha o perdão, nos seja dado consolo, cresça a fé verdadeira e a redenção se confirme ( super populum ), pois, não existe nenhuma morte ou dor que não tenha já sido por ele visitada!
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo e vos bendizemos.
Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo!
P Francisco Inácio, SDB
Sit laus et gloria Christo
Feria Vi in Passione Domini, 03 de abril de 2026
Sermão do Descimento – Praça das Vitórias – Oeiras/PI










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