A voz que canta é só a voz que canta

Compartilhe:

É impossível fazer uma retrospectiva que seja fiel a todos os sentimentos e orações vividas nas vezes em que tive a oportunidade de representar Verônica (Maria Beú), na Semana Santa de Oeiras. Não haveria papel, e nem mesmo é possível nomear tudo. Eu poderia separar as impressões de cada Sexta-feira dos Passos e de cada Sexta-feira da Paixão, mas também o relato se tornaria demasiado extenso.

Foram tempos distintos e, por isso, experiências singulares. Quem segue Jesus sabe: mudar é uma decisão que se vivifica no caminho. Em 2006, 2019 e 2026, Verônica foi representada pela mesma pessoa, mas não pela mesma consciência. Em cada momento, havia outra mentalidade, outra percepção de Deus, de si e do outro; outra compreensão crescente da fé, da Tradição e da Igreja de Cristo. Não me cabe esmiuçar essas mudanças que me ocorreram, aqui. Há transformações que pertencem mais à intimidade com Deus; são mais próprias do silêncio do que do discurso.

Ainda assim, para quem me lê, é possível entrever: em 2006, uma jovem encantada, desde criança, com a performance musical do lamento de Maria Beú, na procissão do Bom Jesus dos Passos, ainda sonhava concluir sua primeira graduação em Letras. Em 2019, já formada, professora, concursada, mestra em Letras, dividida entre tantas frentes, mas caminhando com mais firmeza. Em 2026, a maturidade se anuncia: doutora em Letras, situada no centro de todas as atribuições e compromissos esperados e exigidos de uma professora universitária. E, no entanto, algo permanece: a fé daquela mesma menina que foi chamada para ser Maria Beú, quando cantava numa apresentação de trabalho acadêmico na época da graduação. Muita coisa mudou, é certo!, a sua fé, porém, apenas cresceu e se fortaleceu um pouco mais.

Para não me deter em descrições de mim mesma, que poderiam deslizar e soar como autoelogio desnecessário, prefiro falar dos sentimentos e percepções que me atravessaram nesta caminhada em 2026. Desde o convite até a Sexta-feira da Paixão, muitos sinais me tocaram, me moveram e me comoveram profundamente, ajudando-me a rezar e a viver intensamente essa experiência pela terceira vez, mantendo o espírito de oração que me moveu nas outras duas vezes.

Confesso que – quando atendi ao telefone e ouvi: “Bom Jesus dos Passos está precisando de você novamente” – estremeci! Sabendo quem me ligava, já compreendi. Depois de alguns minutos, respondi: “Se Bom Jesus está me chamando, eis-me! Eu vou.” E fui. E segui. O tempo era pouco, as demandas muitas, mas os ensaios foram acontecendo nos intervalos da vida.

Há algo que sempre me marcou: todas as vezes em que subi no tamborete —especialmente no adro da Igreja do Rosário, de onde parte a procissão — eu tremi. Desta vez não foi diferente. O corpo reagiu. Mas o entendimento foi outro. Hoje sei: não era medo. Era o meu corpo tentando dar vazão ao turbilhão de emoções que não cabem dentro de mim.

Isso me remete às mulheres no sepulcro, quando ouviram o Anjo: “Não está aqui. Ressuscitou como havia dito.” Elas saíram correndo com temor e alegria. Foi exatamente esse misto de sensações que me envolveram: temor e alegria. E, somado a elas, uma terceira força: coragem. A mesma coragem de Verônica, que permeia a multidão e, na contramão da violência, chega perto e oferece um gesto de piedade a Cristo. Um gesto que marcou não só o tecido, mas a sua vida inteira pelos séculos dos séculos.

Não comparo essas experiências com a minha, pois seus contextos as tornam incomparáveis. Mas tomo de empréstimo essas palavras: temor, alegria e coragem. Elas me impulsionaram desde o instante em que exprimi este terceiro “eis-me aqui”.

Temor, porque desejei agradar a Deus, ser instrumento em suas mãos, tocar — ainda que minimamente — o coração dos romeiros de Bom Jesus dos Passos. A partir de então, rezando, eu dizia: “Senhor, se minha voz puder abrir a menor fresta no coração dos teus filhos, toma-me: a minha voz é tua voz.” Temor, porque amar a Deus é reconhecer-se pequena diante d’Ele. E, assim, fica difícil negar que, mesmo amando a oportunidade, surgiam repentinas inquietações: “Senhor, por que eu de novo? Será se ainda consigo?…”; até que, sem ninguém explicar, retomei o hábito de calar qualquer pergunta em mim, sempre que entendo que o Eu Sou é também o que diz: Eu quis. E ponto.

Alegria, porque não há como negar: é uma graça imensa viver (e não, simplesmente, representar) esse papel. Um sonho de infância que sei ser também o sonho de muitas outras meninas e mulheres. Não é simplesmente cantar para a multidão; isso, por si só, é pouco. É sobre reconhecer que o canto é dom, e ter a oportunidade concreta de devolvê-lo a Deus, prestando um serviço ao seu povo, junto com sua Igreja.

E coragem. Coragem para sustentar essa tradição centenária de Oeiras, que hoje, com os recursos midiáticos, ultrapassa o local e alcança tantos olhares. Há uma expectativa crescente e multiplicada. Há julgamentos. E há, sobretudo, a responsabilidade de se esforçar para tocar numa esfera tão sensível, se não a todos, à maioria dos que estão naquela multidão: a dimensão da fé que nos é tão cara. A voz que canta precisa, de algum modo, alcançar essa dimensão constituinte do ser de cada romeiro de Bom Jesus dos Passos. Coragem para entregar o melhor de si na intenção de não decepcionar os romeiros, mas também para compreender que nem todos rezarão e nem todos acolherão a voz que canta com o mesmo amor.

Coragem para amar Cristo, porque amar Cristo nunca foi simples. Os discípulos fugiram. Verônica ficou com os que permaneceram, demonstrando que sua coragem era, na verdade, amor.

E foi essa quarta palavra que se impôs dentro de mim em todo o caminho: amor.

Foi o amor que me mobilizou e me sustentou. Amor que também enfrenta incompreensões. Quem assume esse lugar precisa saber: nem todos serão compassivos. Às vezes, basta não agradar, por razões diversas como gostos pessoais de timbre, por exemplo; nem precisa errar tecnicamente falando. E é preciso estar pronta para acolher possíveis rejeições também. Faz parte da decisão de ser de Cristo. Por isso, às futuras Verônicas (Marias Beús), deixo um conselho: coragem! Faça tudo por amor a Jesus. Faça sua parte, realize o seu esforço até o grau máximo possível às suas capacidades humanas, confie o mais à providência de Deus. Faça de sua voz véu e lance-o sobre a face de Cristo com o máximo de firmeza e suavidade que sua voz permitir. E o mais, deixe que cada um escolha o que fará com aquilo que escuta. Alguns transformarão em véu, outros em chicote. Sempre foi assim. Na mesma cena: o mesmo Cristo, a multidão, o chicote e o véu.

Em meio a essa profusão de pensamentos, meu terceiro “sim”, para representar Verônica, foi se revestindo de temor, alegria, coragem e amor. Um amor sentido e vivido desde o convite até o momento de devolver o sudário. Um amor que se manifestou em tantas atitudes que se torna impossível narrar tudo. Por isso, detenho-me em alguns sinais que, para mim, foram profundamente reveladores de Cristo.

Esses sinais me ensinaram algo essencial: a voz que canta é só a voz que canta.

A voz que canta não é a mão que entrelaça agulha e  linhas e faz do tecido veste. Quando a costureira disse: “Não vou cobrar, é minha contribuição”, ali vi Jesus sendo amado na arte e na delicadeza silenciosa de quem trabalha para vestir o outro, como quem cuida de um corpo sagrado.

A voz que canta não é a mão que, com paciência e cuidado, aquece o ferro e, entre o vapor e o silêncio do trabalho, percorre o tecido, alisando-o para que a beleza visual se revele sem dobras. Foi então que, no fim do trabalho, quase como quem deixa escapar um segredo, a frase se desprende: “Que beleza do céu!”. Foi nesse gesto atento, nesse zelo quase devocional, que vi Jesus sendo amado nas mãos de minha auxiliar, quando notei que ela se alegrou ao cuidar das roupas de Maria Beú, porque, no íntimo, ela reconheceu que seu trabalho se oferecia inteiro a Deus.

A voz que canta não é a mão que carrega o tamborete no meio da multidão, abrindo espaço em silêncio, caminhando com pressa para, com precisão, chegar antes de todos e preparar o ponto em que a voz ergue o lamento. A voz que canta não é o braço que se levanta e acena com a mão, destacando-se no meio da multidão, para comunicar às Marias, em cada estação, onde deve ser o ponto do cantar, garantindo que tudo aconteça no tempo certo, como se tivesse havido ensaio. Vi Jesus sendo amado nessa contribuição e agilidade de pessoas que desejam que tudo dê certo.

A voz que canta não é nenhuma das mãos que arrumam o cabelo, preparam a maquiagem, ajustam o véu e, pouco a pouco, compõem a personagem, não para encenar, mas para construir uma presença que, embora não seja teatral, pede uma espécie de entrega performativa. Vi Jesus sendo amado no zelo e na delicadeza de cada uma dessas mãos que trabalham para que o aspecto visual participe de forma ajustada da atmosfera de memória e oração que envolve a procissão.

A voz que canta não é quem segura o microfone em cada passo. Ali, ainda, vi um pai ensinando o filho. A tradição sendo transmitida. A fé sendo ensinada. Vi Jesus sendo amado no amor sendo aprendido.

Em cada momento desse, em cada pessoa dessa, em cada serviço prestado em torno de uma única das muitas personas que participam da Semana Santa de Oeiras, eu vi Jesus sendo amado na diligência, na prontidão de quem faz algo aparentemente simples, mas o faz com leveza e amor, porque sabe que o simples não é menos importante.

A voz que canta não são as palavras de incentivo, os olhares de confiança, os sorrisos que sustentam. Não é quem reconhece a voz de longe e –  para dizer: “eu sabia, essa voz só tem um endereço” – chega perto para expressar palavras que tocam profundamente e encorajam. Eu vi Jesus sendo amado em cada pessoa que (antes, durante e depois da procissão) se aproximou entregando à voz que canta confiança – não, exatamente, pelos elogios, que são frutos da delicadeza de quem é de Deus, mas pelas orações, que misturadas a palavras generosas, abençoam e transmitem a sensação de que a voz que canta cumpriu sua missão.

A voz que canta está longe do mistério sublime da bênção dos sacerdotes e da oração do Bispo. Sobre isto não há nem o que mensurar. Mas eu vi Jesus me amando em cada bênção sacerdotal que recebi pessoalmente e em cada oração do Bispo dirigida a todos nós.

Para concluir, ainda que este seja um relato que, no fundo, não se encerra, guardo comigo uma certeza: a voz que canta não é uma Maria que caminha só.

Recordo-me de um instante simples e, ao mesmo tempo, revelador. Enquanto eu sussurrava a melodia, cuidando para não perder o tom, uma das Marias, com leveza e afeto, disse: “Eita… com a boca fechada já está assim, imagine quando abrir.” Naquele momento, mais do que uma fala, houve uma presença. Ela não estava alheia; ela escutava, compreendia e, de algum modo, sustentava. E aquilo apenas confirmou algo que eu já intuía em silêncio: a força da presença das outras Marias nesse caminho.

Muitos perguntam: o que fazem as outras Marias? Hoje posso afirmar: elas caminham, mas não apenas caminham. Elas caminham junto! E isso transforma tudo. No meio da multidão, elas se fazem presença que sustenta, que, sem dizer nada, afirma, passo a passo: você não está só. Aproximam-se, seguram a mão, abrem espaço, encorajam com palavras simples e necessárias: “vai dar certo”, “está lindo”, “vamos”. E, assim, a caminhada se torna comunhão.

Além disso, a voz que canta não é a pessoa que convida, ou seleciona, escuta, organiza, prepara a voz para esse momento. Há quem convoca, acompanha, cuida de todo o gesto, orienta a postura e com serenidade diz: “está pronta, pode ir”, e, ainda assim, permanece por perto, observando, zelando, rezando em conjunto, desejando que tudo aconteça como deve ser.

E é nesse tecido de presenças, discretas, fiéis e orantes, que a voz que canta encontra o seu lugar. Nunca sozinha, mas sustentada por muitos que, com palavras, ações ou silêncios, também amam e servem o mesmo Deus.

Vi Jesus sendo amado na pureza de cada criança que abraçou Verônica em mim. Na timidez dos pedidos de fotografias… Na simplicidade de tantos gestos e olhares.

No final do percurso, vi Jesus sendo amado, quando uma amiga me entregou as Flores de Passo, como quem oferece consolo, no instante em que eu ia devolver o sudário, compreendendo aquela entrega. E, então, a lágrima que já nascia nos olhos, encontrou caminho e deslizou. Não era lágrima de dor, mas de gratidão. Uma lágrima inevitável, que escapa quando tudo termina. Uma gota que resume o caminho em que temor, alegria, coragem e amor me assinalaram em muitos instantes que permanecem em mim.

Depois de observar e viver tudo isso, compreendi, de forma concreta, o que significa: “Somos servos inúteis; fizemos apenas o que devíamos fazer”.

É nesse sentido que afirmo: a voz que canta, no conjunto da obra, é só a voz que canta. E isso não a exalta e nem a diminui. Apenas coloca cada coisa no seu lugar.

Ser a voz que canta é muito, porque foi Deus quem quis. E também é pouco, porque nunca é só. Com Deus, tudo é o que é.

E eu sou profundamente agradecida por ter sido, mais uma vez, apenas isto: a voz que canta. Isso porque todos os talentos que o Bom Deus me confiou só farão sentido, para mim, se no retorno Dele, eu tiver a graça e a benção de ouvir: “muito bem, serva boa e fiel!”.

 

Elimar Barbosa de Barros

05 de abril de 2026

Fotos: Samuel Valentim

Posts Relacionados

AMIGOS DO
SEMINÁRIO

ESCOLA
MISSIONÁRIA
DISCÍPULOS DE
EMAÚS - EMIDE

Facebook

Instagram

Últimos Posts