Sermão do Descimento da Cruz proferido por Dom Edilson Nobre

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SERMÃO DO DESCIMENTO DA CRUZ

“Feita de dois riscos é a minha cruz / Sem esses dois riscos não se tem Jesus/ Um é vertical, o outro horizontal/ O vertical eleva, o horizontal abraça/ Feita de dois riscos é a minha cruz/ Sem esses dois riscos não se tem Jesus” (Pe. Zezinho).

Em atitude de veneração, com os olhos do coração, contemplemos a paixão do Senhor nosso, Jesus Cristo Crucificado, de tal forma que reconheçamos na carne do Senhor a nossa própria carne e a carne de nossos irmãos e irmãs sofredores, vítimas do abandono, do descaso, da indiferença, da violência, da fome.

Eis, que estás, Senhor, crucificado entre dois ladrões! Tens a teus pés, tua Mãe, o teu discípulo amado (João), as santas mulheres de Jerusalém, o povo apreensivo, sem entender o que está acontecendo contigo, provavelmente frustrado e decepcionado, pois, havia criado uma expectativa diferente a respeito do teu reinado. Há, também, um povo iludido, ludibriado, manipulado pelas mentiras arquitetadas pelos fariseus, doutores da lei e anciãos. Encontram-se, ainda, os malvados soldados que te escarnearam, te maltrataram, te pregaram na cruz e te arrancaram todo o sangue. Quanta violência! Senhor, ressoam entre nós tuas últimas palavras: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, e ainda: “Tudo está consumado!” E, apagando-se como uma vela disse: “Pai, em tuas mãos, eu entrego o meu espírito!”. Aparentemente, uma história que terminou em tragédia.

Oh vós, oh vós, vós que por aqui passais! Olhai, dizei, quem neste mundo sofreu mais!

Teria sido o fim? Não! Sabemos que não! A esperança não morreu! Após a morte trágica de Cristo houve uma pausa de três dias. Uma trégua para que os corações sossegassem e meditassem, talvez, para trazerem à memória o prenúncio de Jesus: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitará” (Lc 8,22).

Promessa feita, promessa cumprida! Cristo venceu a morte! Ao terceiro dia ressuscitou! Esta é a razão da nossa fé. A cruz, foi o meio e não o fim. Por isso, ela passou a ser sinal de salvação. “Vitoria, tu reinarás! Oh, Cruz, tu nos salvarás!” Hoje, para nós, a cruz representa o próprio Cristo.

Nos tempos atuais, a cruz é símbolo repetidíssimo em suas variadas formas: preside a celebração sobre o altar ou no fundo da abside, encabeça nossas procissões na entrada da Missa e nas procissões públicas, a usamos em nossas casas, em nossos ambientes de trabalho, serve como insígnia para os bispos e religiosos. É o distintivo que mais identifica um cristão católico. Traçar o sinal da cruz em nosso próprio corpo é símbolo de nossa identificação com o crucificado.

Diz o padre Campos em sua obra “Caminhos do Coração”: “A cruz é uma verdadeira cátedra de ensinamento de vida; a cátedra desde a qual Cristo nos transmitiu sempre a grande lição de fé cristã. A cruz resume toda a teologia sobre Deus, sobre o mistério da salvação em Cristo, sobre o sentido da vida cristã. A Cruz é todo um discurso: vem presentear-nos um Deus transcendente que buscamos. Um Deus que vence o mal com sua própria dor, com sua própria morte. Um Deus que é Rei e Senhor representado plasticamente em sua total entrega por amor. Um Cristo-Deus que em sua Páscoa deu ao mundo a reconciliação e a nova aliança com seu sangue derramado”.

Oh vós, oh vós, vós que por aqui passais! Olhai, dizei, quem neste mundo sofreu mais!

A cruz torna-se para nós sinal de esperança e salvação. São muito confortadoras as palavras de São Leão Magno, Papa: “A nenhum pecador é negada a vitória da cruz e não há homem ou mulher a quem a oração de Cristo não ajude. Se ela foi útil para muitos dos que o perseguiam, quanto mais não ajudará os que a ele se convertem?”. E prossegue o Pontífice: “Foi eliminada a ignorância da incredulidade, foi suavizada a aspereza do caminho, e o sangue sagrado de Cristo extinguiu o fogo daquela espada que impedia o acesso ao reino da vida. A escuridão da antiga noite cedeu lugar à verdadeira luz”

Oh vós, oh vós, vós que por aqui passais! Olhai, dizei, quem neste mundo sofreu mais!

Assim, irmãos e irmãs, somos convidados a gozar as riquezas do paraíso, e para todos os batizados está aberto o caminho de volta à pátria perdida, desde que ninguém queira fechar para si próprio aquele caminho que se abriu também à fé do ladrão arrependido (Dimas).

Evitemos que as preocupações mundanas nos envolvam na ansiedade e no orgulho, de tal modo que não procuremos, com todo o afeto do coração, conformar-nos a nosso Redentor na perfeita imitação de seus exemplos. Tudo o que ele fez ou sofreu foi para a nossa salvação, a fim de que todo o Corpo pudesse participar da riqueza da Cabeça.

Perante o suplício do nosso Redentor, quebrem-se as pedras dos corações insensíveis e infiéis e se evidenciem, como sinal de salvação, o amor, a bondade, a pureza, a ternura, a proximidade, a sensibilidade, o altruísmo, a partilha, a justiça, o perdão e o sentimento de pertença ao corpo desta Igreja que por Ele foi pensada para dar continuidade à sua missão. Não nos esqueçamos disto!

Oh vós, oh vós, vós que por aqui passais! Olhai, dizei, quem neste mundo sofreu mais!

Neste instante, daremos início ao Rito do Descimento. Dois personagens, José de Arimatéia e Nicodemos, são convidados a procederem com o rito.

1. Retirem a inscrição INRI = Iesus Nazarenus Rex Iudeum = Jesus Nazareno Rei dos Judeus – Estas palavras inscritas naquela circunstância não foram uma profissão de fé, mas uma forma de zombarem o nosso Salvador.

2. Limpem a face de Jesus – Está totalmente ensanguentada, desfigurada – Nem parece um ser humano. Talvez nos confortem, as palavras do profeta Isaías: “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é meu auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível, como pedra, porque sei que não sairei humilhado” (50,6-7).

3. Retirem a coroa de espinhos – Coroemos o nosso Salvador com o nosso amor, com o nosso afeto, com a nossa entrega, com a coroa imperecível, incorruptível que nos conduzirá ao céu.

4. Coloquem o lençol sobre o corpo de Jesus – Não deixem o meu salvador ao relento, abandonado, desnudado. Deem ao corpo de Nosso Senhor a dignidade que ele merece.

5. Vamos retirar os cravos que causaram os estigmas no corpo de Jesus. Basta! Não há por que deixar este corpo exposto sobre uma cruz. Até mesmo o tirano Pilatos reconheceu que Jesus não merecia tal atrocidade e se esquivou da responsabilidade: “Sou inocente do sangue deste homem. A responsabilidade é vossa” (Mt 27,24).

6. Por favor, retirem o prego (cravo) do braço direito.

7. Retirem o prego (cravo) do braço esquerdo.

8. Retirem o prego dos pés.

9. Por fim, retirem o corpo de Jesus da cruz. Desçam a imagem – Coloquem-na junto à sua Mãe. Maria Santíssima não merece sofrer tanto, vendo seu filho crucificado. É demais, para uma mulher tão santa, tão inocente e tão pura, sofrer tamanha dor. É sempre doloroso ver uma mãe sofrendo por causa de seu filho. No mundo hodierno, nos deparamos com tantas mães que sofrem por terem também seus filhos crucificados, aprisionados, pelas mais variadas razões: as drogas, a prostituição, o desemprego, a fome, a depressão, a discriminação, o bullying e tantas situações que são verdadeiras cruzes a serem superadas.

Ficou somente a cruz (os dois riscos) “Feita de dois riscos é a minha fé/ Sem esses dois riscos religião não é/ Um é vertical, o outro horizontal/ Um vai buscar na fonte/ O outro é o aqueduto/ Feita de dois riscos é a minha fé/ Sem esses dois riscos religião não é” (Padre Zezinho).

O corpo do Senhor Crucificado já está sobre o esquife! Vamos sepultá-lo! Sigamos pelas ruas da cidade, em silêncio, em atitude orante! Deixemos que ressoem somente em nossos ouvidos a marcha fúnebre (executada pela Banda Santa Cecília), alternada com o canto de lamento soado pela voz de Verônica, a nossa maria Beú.

Dom Edilson Soares Nobre

Bispo Diocesano de Oeiras

 

 

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