AUTORIDADE E COMPAIXÃO

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Um fato social muito importante e recorrente é o fato de o poder não ser, facilmente, bem visto. Mas, contraditoriamente, é o espaço mais querido, mais pretendido e disputado.

Não é de hoje que o poder, e, quem o exerce, é questionado, criticado e colocado em xeque. E, em situações limites é, veemente, rejeitado e combatido.

De um modo geral, a má fama do poder se deve, por um lado, à sua ligação com histórias de dominação, opressão, perseguição, violência e morte e, por outro lado, por estar atrelado a práticas de corrupção, assédios, mentiras, enganações, conchavos, carreirismos…

Mas, o poder é, também, idolatrado. Desde os pequenos postos até os lugares mais elevados, o poder é promessa de status, de ascensão social, de fama, de riqueza, de reconhecimento e de projeção pessoal. Isso não somente no campo social e político, mas, também, no campo religioso.

As relações e práticas de poder, estabelecidas numa sociedade, são critérios que medem a aceitação ou rejeição do poder constituído.

Ora, o poder, em si mesmo, não é mau e desprezível. Pelo contrário, o poder é necessário e imprescindível para a organização da vida, da relação e da justiça social.

Aqui e acolá é possível encontrar relações e práticas de poder diferentes, baseadas no bem comum. São poucas, mas existem. E são modelares.

A intuição de fé, a partir de Jesus Cristo, fundou a concepção de poder baseada no serviço e na compaixão. Essa é a grande virada. Há um deslocamento do lugar de poder: o poder autorizado pelo serviço e pela compaixão em vista do bem comum.

Em qualquer instância de poder, seja ela qual for (social, política ou religiosa), se as relações e práticas não forem de serviço e compaixão, o poder é um mau e, portanto, desautorizado porque fugiu de sua essência e verdade. Nesse caso deve ser, sim, criticado, rejeitado e combatido. Mas, não só o poder estabelecido, isto é, as governanças devem ser criticados, rejeitados e combatidos. As relações de poder estabelecidas entre nós devem receber, também, o influxo de nossa indignação. Porque o “mau poder” tem como precedente as más relações de poder. Quer dizer, mesmo sem cargos, sem postos ou sem lugares de comando, uma pessoa pode exercer papel de domínio e opressão das pessoas.

Jesus é o modelo daquele que tem e exerce o poder. Ele o faz com a autoridade do serviço e compaixão. Na verdade autoridade e compaixão, são duas qualidades dificilmente compatíveis no ser humano, mas, são as feições divinas que se deixam entrever no agir de Jesus” (Johan Konings). Em Jesus prospera um tal senso de humildade, amor e humanidade que, tudo ele faz olhando a pessoa toda e todas as pessoas.

Vejamos o caso do leproso de Marcos. “Um leproso chegou perto de Jesus e pediu de joelhos: ‘Se queres, tu tens o poder de me purificar.’ Jesus ficou cheio de ira, estendeu a mão, tocou nele e disse: ‘Eu quero, fique purificado.’ No mesmo instante a lepra desapareceu e o homem ficou purificado. Então Jesus o mandou logo embora, ameaçando-o severamente: ‘Não conte nada para ninguém! Vá pedir ao sacerdote para examinar você, e depois ofereça pela sua purificação o sacrifício que Moisés ordenou, para que seja um testemunho para eles’” (Mc 1,40-45).

No evangelho, Jesus aponta para um deslocamento necessário à prática do poder em chave de autoridade e compaixão: Ele age partindo da pessoa e não da Lei e gera uma crise de poder muito grande naqueles que dominam, a religião e a vida, pela Lei. Apesar da proibição da Lei, toca no doente de pele, dizendo: “Eu quero, sê purificado”. E a cura sucede. Jesus dá um sinal do Reino. Se ele cura pelo “poder-autoridade” do Filho do homem, não é preciso primeiro consultar os guardiões da Lei.

A conversão do poder acontece pela mudança das relações de poder na forma de Autoridade-Compaixão. Isso caracteriza o Serviço ao bem comum.

 

Por: Pe. Edivaldo Pereira dos Santos

Foto: Google

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