Palavra do Bispo

Reflexão por ocasião da Dedicação da Catedral

Autor: Dom Edilson Soares Nobre

Amados irmãos e irmãs!

Deus nos proporciona o privilégio de nos reunirmos mais uma vez aqui nesta amada Igreja Catedral de Nossa Senhora da Vitória, neste tempo em que vivenciamos os seus festejos, para celebrarmos mais um aniversário de dedicação deste templo que para nós católicos tem um significado todo especial. Por isso estamos aqui reunidos: leigos engajados, religiosas, padres e bispo. A ocasião é oportuna para refletirmos sobre o nosso ser Igreja e sobre os desafios que o mundo de hoje nos apresenta. Somos cientes de que como Igreja temos a missão de evangelizar, de anunciar Cristo ao mundo e propor o Reino que Cristo instaurou para que se consolidem a justiça, a paz, a fraternidade, a solidariedade, a unidade, e experiência do amor nas relações com Deus e com o próximo, não obstante o pluralismo e a diversidade que são óbvios aos nossos olhos em nosso dia a dia.

Bem sabemos que antes de lançarmos a semente, devemos levar em conta o contexto social, político, econômico e cultural em que estamos inseridos. Vivemos em num tempo de modernidade acentuada onde a racionalidade e a subjetividade se destacam. Um tempo de modernização que gera a relativização dos modelos tradicionais de sentido. Consequentemente as estruturas de plausibilidade social e, entre elas, a mais importante nas culturas tradicionais, a religião é profundamente abalada no cenário atual. Assim, o papel de controle na gestão da fé, antes, próprio da religião, vai migrando para a autonomia do sujeito. O sujeito vai gerenciando a sua forma de crer (uma espécie de religião à la carte). O mundo atual não se destaca pela indiferença à crença, mas pelo seu desprendimento do controle das instituições religiosas, provocando uma individualização e uma subjetivação desta (Deus sim, Igreja não).

Existe hoje uma pluralidade de ofertas de sentido, o que, inevitavelmente, gera uma relativização dos modelos únicos de sentido. Isto provoca, do ponto de vista cultural e religioso, o relativismo e o fundamentalismo. A matriz religiosa em nosso país se caracteriza da seguinte forma: Catolicismo popular; catolicismo devocional de mediação (os santos); tendência à superstição; tendência ao sincretismo religioso ou múltiplas vivências religiosas e as procissões. Isto pode ser um problema se não mergulhamos em águas mais profundas. Daí porque o Papa Bento XVI propõe uma “renovação espiritual”. Aparecida propõe uma “conversão pastoral”. O Papa Francisco nos convida a partirmos para as periferias existenciais: uma “Igreja em saída”.

Daí nos damos conta que é necessário superar a cultura do improviso e investirmos sempre mais na pastoral de conjunto e na formação dos leigos e leigas como “sujeitos eclesiais”. O Documento 105 da CNBB (Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade), já na sua introdução afirma: “É com alegria e admiração que nós, Bispos, pastores da Igreja de Cristo, expressamos o nosso agradecimento aos cristãos leigos e leigas, pelo testemunho de sua fé, pelo amor e dedicação à Igreja e pelo entusiasmo com que se doam ao nosso povo, às nossas comunidades, às suas famílias, às suas atividades profissionais, até ao sacrifício de si” (n. 1). Sim, meus irmãos e minhas irmãs! Cada cristão leigo e leiga recebeu pelo Batismo e pela Crisma a graça de ser “sal da terra e luz do mundo”. Isto se dá aqui, no hoje da história.

Quem tem esta compreensão com mais clareza vai poder assimilar as palavras de Jesus que nos foram dirigidas no Evangelho de hoje (Jo 12,24-26). “Em verdade, em verdade, vos digo: se o grão do trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas se morre, produz muito fruto”. Como ser este grão? Como ser enterrado na terra? É claro que um dia todos nós seremos enterrados, quando este nosso corpo já não tiver mais vida. Mas, na verdade, já vamos sendo enterrados à medida em que vamos sendo consumidos pela nossa entrega e pela nossa doação. Vamos sendo enterrados à medida que nos tornamos fermento na massa. A Igreja de Jesus gera pessoas que, às vezes, silenciosamente, suas presenças são mais ativas do que qualquer turba barulhenta. Parecem não existir e, no entanto, o seu olhar, o seu sorriso, seus pequenos gestos movimentam águas, anteriormente paradas. Só quem não se apega à sua vida, quem é proativo e sensível ao próximo (igreja em saída) vai compreender estas palavras: “Quem se apega a sua vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna”.

Senhora da Vitória, eis que nós, teus filhos, aqui reunidos com o coração em festa, nos colocamos sob o teu olhar materno e pedimos, oh, Mãe! Que nos apresentes ao teu Filho Jesus. Colocamos sob o teu patrocínio a dinâmica pastoral desta Igreja Diocesana de Oeiras, este Bispo, estes padres, estas religiosas, os seminaristas, as crianças, os jovens, os adultos e idosos, os pais e mães de família, as pessoas que sofrem e se recomendam às nossas orações, a nossa cidade, os governantes, a todos os homens e mulheres que são chamados neste mundo a ser são da terra e luz do mundo! Amém!

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