Palavra do Bispo

29º DOMINGO TEMPO COMUM

1ª Leitura – Is 53,10-11; 2ª Leitura – Hb 4,14-16;  Evangelho – Mc 10,35-45

13º ROMARIA DA TERRA E DA ÁGUA DO PIAUÍ

Caros Irmãos e irmãs, Romeiros(as) da Terra e da Água,

Depois de ouvirmos na liturgia dos domingos precedentes o terceiro anuncio da paixão, as dinâmicas do amor, e a advertência quanto ao uso dos bens materiais, hoje Jesus desmonta o ídolo do poder: do poder político, econômico, das comunicações e de todos os poderes exercidos em pequenos raios ou em grandes raios que se manifestam como escravizante instrumento de dominação, da presunção de ser melhor que os outros, ou que provoca humilhação, ou qualquer tipo de sofrimento, injustiça, exploração e marginalização dos outros. E indica o poder como o serviço ao outro, o tutelar o outro, cuidar do outro e pastorear o outro.  O autêntico poder está no servir a todos a ponto de dar a própria vida para o “resgate de muitos”. Um serviço dom de si que comporta a renúncia das ambições pessoais, e se realiza no serviço ao bem comum. Neste sentido vale lembrar todo o empenho de preparação e realização da 13º Romaria da Terra e da água, a Jornada Missionária Mundial que celebramos hoje, os inúmeros homens e mulheres de boa vontade  e missionários que sem medir esforços se deixam consumir na missão evangélica pela defesa da vida, pela garantia dos direitos e da dignidade da pessoa humana e da Terra, casa de todos.

Na liturgia de hoje, percebemos como Jesus reage vivamente diante da ameaça  contra a vida da comunidade por causa da ambição desenfreada dos primeiros lugares, pela conquista do poder: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda”, quando estiveres na tua glória”. Participar da gloria de Jesus é a vocação de todos, Não privilégio de alguns. É dom e graça que não podem ser usurpados.

Ao mesmo tempo Jesus propõe uma justiça social baseada no serviço, e até oferece a própria vida pelos irmãos. A imagem do serviço proposto por Jesus, contrapõe-se à ideia de poder baseado em atender somente aos interesses de uns poucos ou de grupos, de uma economia de exploração e de exclusão, de alianças políticas ou sociais que para garantir os privilégios de uns abandonam os outros, ou até mesmo, os exploram, marginalizam ou perseguem. Diante disso, Jesus chamou os seus discípulos e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo;  e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos.  Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos” (Mc 10,42-45).

Servir é o protótipo do Messias e dos seus discípulos missionários e de todos os romeiros que marcham nessa caminhada com o Cristo servo da vida e da paz. Vida e paz que são desejos de Deus.   A Carta aos Hebreus (4, 14-16) nos recorda que o Sumo Sacerdote e Servo do Senhor, para realizar o desejo de Pai, evidencia a sua grandeza de poder no serviço aos homens por meio de sua misericórdia, da  sua compaixão em relação aos  que vivem na condição de miséria. E ao se compadecer das fraquezas e dos sofrimentos dos outros, serve-os de forma eminente  para os resgatar das suas condições de sofrimento. Deste modo, Ele formula o seu projeto onde cada um é servidor de todos, é sensível à dor do outro, e se sente interpelado e questionado pelo sofrimento do outro.

O Profeta Isaías  exprime o Cristo servo assumindo a condição de Servo Sofredor, e se compadecendo da dores e dos sofrimentos dos outros ao ponto de oferecer-se a si mesmo de modo livre e voluntário, como só o amor sabe fazer, no  qual o Justo servidor justifica muitos outros seus servos, e incansavelmente, os atende.

Nesta 13ª Romaria da Terra e da água do Piauí, podemos perceber o quanto Jesus, Servo de YHWH, assume o sofrimento de tantos homens e mulheres explorados, empobrecidos, abandonados, esquecidos e abandonados, e se faz servidor de todos. Deste modo, Ele nos motiva a celebrar a humildade e o serviço, e a nos oferecer voluntariamente na luta pela defesa da vida e da paz, projetos de Deus e Direito dos povos. Jesus, o Servo Sofredor aceitou a condição humana por amor para nos dá a oportunidade de experimentarmos a graça e a misericórdia do Pai, e de superarmos a falsa imagem de Deus que distribui  poderes e privilégios para alguns em detrimento da miséria e do sofrimento do outro. E ao mesmo tempo, nos ensina que o verdadeiro discípulo missionário,  deseja estar próximo ao seu Senhor, de sentar-se ao seu lado disposto a servir e dar a sua vida em resgaste dos sofredores e dos necessitados.

A partir do Cristo servo, ser cristão é viver servindo a partir da lógica da gratuidade, participando do mesmo cálice e do mesmo batismo de Cristo numa aliança com Deus e com os irmãos, sobretudo nos momentos trágicos da vida humana, participando do seu sofrimento em fidelidade ao projeto do Pai. Para isso, todos os cristãos são chamados a viver a experiência de Canãa e da Samaria, onde se reconhece que Deus criou a terra como casa de todos, e a deu para a sua descendência.

A propósito de tudo isso, o Papa Francisco nos recorda em primeira encíclica, Laudato Si que todos são chamados a habitar “terra, nossa casa”, com dignidade, superando a cultura do descartável, do desfrute do planeta sem que seja resolvido o problema da pobreza, da sustentação do ecossistema terrestre e aquático, e da vida humana (Cf. Laudato Sí 20-22; 27-28). Pois, os maus tratos da terra e a falta da disponibilidade da água, e da água potável provocam muitas mortes todos os dias (Cf. Laudato Sí 29). A destruição dos aquíferos pelos grandes projetos nos serrados, pela poluição, pelas atividades extrativistas, pelo agronegócio e pelas indústrias, e, ao mesmo tempo, a tendência de privatização dos recursos hídricos colocam em risco o acesso a água potável, que é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque isso significa negar o direito à vida radicada na sua inaliável dignidade (Cf. Laudato Sí 30).  Vale lembrar que a terra e água foram criadas por Deus, e Deus as deu- a todos, é direitos dos povos e garantia de vida e de Paz. Garantir água e terra para todos é servir a Deus presente na pessoa humana e nas obras de  suas mãos. Quando se fala de garantia da terra n

O ser cristão na dinâmica do Cristo servo faz a experiência de Betânia diante do sofrimento da Migração forçada e do trabalho escravo que ameaçam a vida e a paz, manifestando a  nobre vocação humana de participar responsavelmente da ação criadora de Deus, que faz referência a soluções integrais que consideram as interações dos sistemas naturais, humanos e sociais capazes de combater a pobreza, restituir a dignidade aos excluídos e de cuidar da natureza.  Ou seja, a experiência de Betânia contempla um processo de desenvolvimento considerado uma necessidade humana não de maneira isolada, mas a destinação dos bens a todos de modo integral e integrante ( Cf. Laudato Sí 138-139. 141).

Os discípulos missionários, os Romeiros de Cristo são chamados á colocar em prática as palavras e os gestos de Jesus contando com a força, com graça, com a misericórdia de Deus, na gratuidade de amor e do serviço em relação aos desejo profundo do Pai. Isto equivale a sentir-se interpelado pelo outro, sentir-se provocado pelo amor do Pai à viver a comunhão e a aliança com Cristo servo que vive a compaixão com situação de dor, de miséria e de sofrimento dos homens e das mulheres que sofrem por conta do mal uso e da mã distribuição da terra e da água, dos bens públicos, e dos “Direitos dos povos e garantia de Vida e Paz”. Deste modo,  o encontro com o  outro  é o encontro com a imagem e semelhança de Deus que clama para ser amado, para ser respeitado na íntegra dignidade, e não com um inimigo a ser destruído.

A partir de Cristo Servo  se compreende essa Romaria da Terra e da Água como a expressão de uma Igreja missionária a caminho, nas estradas, “em saída”, que louva a Deus e clama por libertação. Como Igreja unida em missão, anúncio, testemunho, em comunhão com Cristo profeta, sacerdote e pastor, que para realizar o projeto do Pai  combateu todas as estruturas de poder tiranos centradas nos seus interesse, que combateu as raposas devoradoras de vidas humanas, que combateu atitudes farisaicas ou levíticas que ignoram os empobrecidos, os violentados nas estradas de Jerusalém para Jericó de nossas cidades, de nossas periferias, de tantos homens e mulheres, jovens e famílias que são forçados a migrarem forçadamente, em busca de sobrevivência.

Povo de Deus em Romaria é uma expressão do  encontro com Deus que ouve, ver, conhece, desce a caminha com o seu povo. (cf. Ex 3,7)  É encontro com irmãos irmanados no mesmo batismo, na mesma fé, na mesma esperança e na mesma caridade que ver no outro o rosto de Deus e que se sente impelido a agir diante de sua dor, do seu sofrimento, do seu abandono, da sua exclusão.

Reafirmamos o que afirmamos em maio do ano passado, na Assembleia Geral da CNBB: “Movidos pela presença vivificante do Espírito Santo em nossas igrejas particulares, temos a obrigação pastoral de fazer tudo o que estiver ao noos alcance para a colher o clamor que sobe das comunidades dos campos, das florestas e das águas deste nosso País, deste nosso “Piauí, terra querida”. (Cf. A Igreja e a questão agrária brasileira.., 138)

Roguemos ao Deus de amor, origem e esplendor da criação, que derrame sobre nós a sua força e coragem  para cuidarmos da Terra e da água, dádivas de suas mãos generosas, direito de todos e garantia de vida e de paz. Que o Senhor nos ilumine na promoção do bem comum, na promoção da dignidade humana, no cuidado com todas as suas criaturas.  Que o Senhor nos fortaleça na promoção do seu amor,  da justiça e da paz. Que o Senhor nos livre  da indiferença em relação ao outro e à casa de todos, da sua exploração e de qualquer forma de exclusão social.  Para que venha nós o seu Reino assim na Terra como Céus. “Para que todos tenham vida em plenitude”. Que nossa Mãe querida da Vitória interceda por nós. Amém.

 

Dom Juarez Sousa da Silva – Bispo de Oeiras

 

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