Notícia da Diocese

Confira na integra o sermão do encontro proferido por Dom Edivalter Andrade

Autor:

Caríssimo irmão no Episcopado, Dom Edilson Soares Nobre,

Estimados irmãos Presbíteros, Diáconos e Seminaristas,

Estimadas Irmãs Religiosas,

Queridos irmãos e queridas irmãs que, com seus pastores e demais servidores dos poderes constituídos, formam uma parcela do Povo de Deus nesta cidade de Oeiras; o povo querido e amado por Deus!

Com muito respeito à grande tradição religiosa do povo e da Igreja de Jesus Cristo que está em Oeiras e com muita gratidão a Deus por esta oportunidade, venho aqui, com simplicidade participar deste evento que há séculos compõe a história desta cidade e atrai para esta “Capital da Fé” milhares de fiéis provenientes de Oeiras, de cidades vizinhas e de toda a região, fazendo deste acontecimento uma das grandes manifestações religiosas do Estado do Piauí e do Norte e Nordeste do Brasil.

A convite do vosso bispo diocesano, trago-lhes esta mensagem sobre o tema proposto para a Semana Santa deste ano e para esta Procissão dos Passos. Como já é do conhecimento de todos vocês, o tema escolhido está relacionado à proposta da Campanha da Fraternidade que nos convoca a lutar, ainda mais organizados, por Políticas Públicas.

À luz do tema da Campanha da Fraternidade 2019 que é “FRATERNIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS” vocês acolheram para a Semana Santa deste ano o lema: COM BOM JESUS DOS PASSOS, PELA JUSTIÇA E PELA PAZ.

Aqui estamos então queridos irmãos e queridas irmãs para aprender com Jesus como promover Justiça e Paz através das Políticas Públicas que devemos promover e exigir dos poderes municipais, estaduais e federal.  O texto base da CF/2019 nos diz ainda na parte introdutória: “como cristãos, somos chamados à participar da transformação da sociedade.  Um modo de sermos cristãos ativos é ajudar na proposição, discussão e execução de Políticas Públicas para que as pessoas possam ser libertadas pelo direito e pela justiça”[1].  Em outra parte o texto base da CF/19 também nos diz: “É tarefa de todo cristão participar na elaboração e concretização de ações que visem melhorar a vida de todas as pessoas”.[2]

Precisamos recordar que a Constituição Cidadã de 1988 já nos garantiu diversos mecanismos para a nossa participação e exercício da cidadania na proposição e fiscalização das Políticas Públicas. “A Constituição de 1988 possibilitou a participação direta da sociedade na elaboração e implementação de Políticas Públicas através dos conselhos deliberativos, que foram propostos por leis complementares em quatro áreas:  Criança e Adolescentes; Saúde; Assistência Social e Educação”.[3] Precisamos portanto fazer valer nossos direitos, ocupando estes espaços para combater o retrocesso que estamos percebendo na assistência ao povo, e, especialmente aos mais vulneráveis no nosso país.

Aqui viemos irmãs e irmãos, atraídos por Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, para fazer a memória dos Seus passos, mas também dos nossos passos e dos passos de tantos outros irmãos e irmãs que caminham pelo mundo em busca de justiça e de paz. É imensa a procissão dos desassistidos, excluídos e marginalizados. Muitos que aqui se encontram já estão, certamente, com os pés cansados porque além da caminhada que estamos fazendo nesta tarde, já caminharam pela noite saindo de suas casas e comunidades para virem ao encontro do Senhor dos Passos.

Mas nós não trazemos somente o nosso cansaço. Trazemos também o fardo pesado de uma vida sofrida por tantos desafios enfrentados no dia a dia, por tantas lutas para vencer preconceitos e discriminações. Trazemos a nossa vida marcada pela falta das políticas públicas. Trazemos muito sofrimento de pais e mães angustiados por causa de incertezas em relação ao futuro de seus filhos e filhas. Trazemos também a dor provocada pelo crescimento da violência em consequência das drogas, cujas vítimas são sobretudo os jovens; trazemos a vergonha e a dor dos altos índices de violência contra a mulher; das mutilações e mortandades de jovens por acidentes de moto. Trazemos ainda a dor de nossos idosos precariamente assistidos e, neste tempo, muitos deles ameaçados pela não aposentadoria. Trazemos a peleja e a luta dos nossos vaqueiros e de todos os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade que diariamente trabalham arduamente para garantir ao menos o sustento da família. Trazemos nossas angústias e preocupações com o futuro de nossa gente por causa da fata de saneamento básico, do crescimento do desemprego, dos impactos causados por grandes projetos que não levam em conta o meio ambiente e as populações tradicionais; a preocupação da Igreja do Nordeste com a perpetuação do latifúndio e do galopante processo de desertificação do semiárido[4]. Trazemos também a triste realidade de nossas crianças.

Segundo informações da Pastoral da Criança, com dados do IBGE, em nosso Estado do Piauí temos 300.360 crianças na faixa etária de 0 a 6 anos de idade, sendo que deste total, 235.036 (78,3%) pertencem a famílias com renda inferior a 1 salário mínimo. Portanto, vivem na pobreza. A Pastoral da Criança em nosso Estado está conseguindo assistir apenas 12.592 crianças, ou seja, menos de 6% (5,4). Felizmente, a Diocese de Oeiras é a que tem melhor cobertura da Pastoral da Criança, atingindo mais de 16% das crianças pobres. Na região de Oeiras são 12.840 crianças de 0 a 6 sendo 10.900 vivendo na pobreza (84,9%). A Pastoral da Criança aqui assiste 1.800 (16,5%).[5]

Em meio às angústias e tristezas, trazemos também esperança e alegria porque aqui somos acolhidos por Nosso Senhor dos Passos que nos diz: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração e, encontrareis descanso para vós. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). Esta nossa procissão faz valer para nós estas palavras de Jesus porque ao meditarmos sobre a Paixão do Senhor, nós nos reconhecemos nos sofrimentos de Jesus e de sua Mãe e associamos nossas cruzes de cada dia à Cruz Libertadora de Jesus na viva esperança da ressurreição. Esta Procissão dos Passos que une os nossos passos aos passos de Jesus, reflete e evidencia a nossa dura caminhada, e, também a dura caminhada dos irmãos e irmãs que caminham pelo mundo à procura de pão, de paz e de justiça ou à procura de terra, trabalho e teto. Caminhamos em comunhão com a multidão dos caminheiros deste mundo, unidos e fortalecidos pela fé no Cristo Morto e Ressuscitado, que caminha conosco e à nossa frente rumo à feliz eternidade.

Caminhamos com Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos para aprender com Ele a nunca desanimar e a não voltar atrás em nosso compromisso de fé e segui-lo no serviço aos irmãos e irmãs. Caminhamos com Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos para que Ele nos ajude a carregar nossas cruzes e assim possamos dar sentido ao nosso sofrimento e às nossas lutas do dia a dia. A condição para não perdermos a esperança é dar um sentido ao nosso sofrimento. Sobre este tema nos ensinou São João Paulo II:

“O sofrimento deve servir à conversão, isto é, à reconstrução do bem [na pessoa] no sujeito, que pode reconhecer a misericórdia divina neste chamamento à penitência. A penitência tem como finalidade superar o mal que, sob diversas formas, se encontra latente no [ser humano] homem, e consolidar o bem, tanto no mesmo [ser humano] homem, como nas relações com os outros e, sobretudo, com Deus.

Mas para se poder perceber a verdadeira resposta ao « porquê » do sofrimento, devemos voltar a nossa atenção para a revelação do amor divino, fonte última do sentido de tudo aquilo que existe. O amor é também a fonte mais rica do sentido do sofrimento que, não obstante, permanece sempre um mistério; estamos conscientes da insuficiência e inadequação das nossas explicações. Cristo introduz-nos no mistério e ajuda-nos a descobrir o « porquê » do sofrimento, na medida em que nós formos capazes de compreender a sublimidade do amor divino.

Para descobrir o sentido profundo do sofrimento, seguindo a Palavra de Deus revelada, é preciso abrir-se amplamente ao sujeito humano com as suas múltiplas potencialidades. É preciso, sobretudo, acolher a luz da Revelação, não só porque ela exprime a ordem transcendente da justiça, mas também porque ilumina esta ordem com o amor, qual fonte definitiva de tudo o que existe. O Amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem na Cruz de Jesus Cristo”[6]

Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos que passou por esta vida fazendo o bem e “sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados”. E, “com a vida e a palavra anunciou” que Deus é Pai e cuida de todos como filhos e filhas[7]; Ele mesmo nos convida a sermos seus discípulos(as) missionários(as) trilhando o caminho da doação e do serviço como Ele mesmo fez porque “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (cf. Mt 20,28). Ele também nos convida a segui-Lo na dor e no sofrimento.  Nós seremos felizes se pusermos em prática o exemplo que Ele nos deixou quando lavou os pés de seus discípulos e sinalizou no Lava-pés sua disponibilidade de doar-se até o fim. Nesta mesma ocasião ele disse: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”(Jo 13,14).

Pelas estradas da vida, também caminha conosco aquela que foi a primeira discípula. Maria, Mãe das Dores, caminhou com seu Filho Jesus confortando-o em seus sofrimentos, dando-lhe consolo, amparo e apoio na hora da dor como sempre fez em toda sua vida. Precisamos aprender também com Nossa Senhora a vivenciar o sofrimento. Ela que deu o seu sim ao saber pelo anjo que seria a Mãe do Salvador, permaneceu fiel ao seu sim mesmo diante da dor e do sofrimento, sem perguntar se iria sofrer muito ou pouco. Por isso foi a fiel discípula, a fiel seguidora de seu próprio filho Jesus. Sendo presença consoladora na dor de Nosso Senhor Jesus Cristo, Maria é também presença consoladora para todos nós que no seguimento de Jesus tenhamos que passar também pela dor e pelo sofrimento. Assim nos ensina São João Paulo II:

“E é consolador — como é também evangélica e historicamente exato — notar que ao lado de Cristo, em primeiríssimo lugar e bem em evidência junto dele, se encontra sempre a sua Mãe santíssima, porque com toda a sua vida ela dá um testemunho exemplar deste particular Evangelho do sofrimento. Em Maria, os sofrimentos, numerosos e intensos, sucederam-se com tal conexão e encadeamento, que bem demonstram a sua fé inabalável; e foram, além disso, uma contribuição para a Redenção de todos. Na realidade, desde o colóquio misterioso que teve com o anjo, Ela entrevê na sua missão de mãe a « destinação » de compartilhar, de maneira única e irrepetível, a mesma missão do seu Filho. E teve bem depressa a confirmação disso, quer nos acontecimentos que acompanharam o nascimento de Jesus em Belém, quer no anúncio explícito de velho Simeão, que lhe falou de uma espada bem afiada que haveria de trespassar-lhe a alma, quer, ainda, na ansiedade e nas privações da fuga precipitada para o Egito, motivada pela decisão cruel de Herodes.

E mais ainda: depois das vicissitudes da vida oculta e pública do seu Filho, por ela certamente partilhadas com viva sensibilidade, foi no Calvário que o sofrimento de Maria Santíssima, conjunto ao de Jesus, atingiu um ponto culminante dificilmente imaginável na sua sublimidade para o entendimento humano; mas, misterioso, por certo sobrenaturalmente fecundo para os fins da salvação universal. A sua subida ao Calvário e aquele seu « estar » aos pés da Cruz com o discípulo amado foram uma participação muito especial na morte redentora do Filho, assim como as palavras que ela pôde escutar dos lábios de Jesus foram como que a entrega solene deste Evangelho particular, destinado a ser anunciado a toda a comunidade dos fiéis.

Testemunha da paixão pela sua presença, nela participante com a sua compaixão, Maria Santíssima ofereceu uma contribuição singular ao Evangelho do sofrimento, realizando antecipadamente aquilo que afirmaria São Paulo com as palavras citadas no início desta reflexão. Sim, Ela tem títulos especialíssimos para poder afirmar que « completa na sua carne — como igualmente no seu coração — aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo ».[8]

Que importância tem para nós esta Sexta dos Passos? Qual o significado que ela tem em nossa vida? Será que esta participação na Procissão dos Passos ajuda-nos a firmar os nossos passos no caminho de Jesus? Nos ajuda a sermos mais cristãos? De tudo o que Jesus nos ensina com sua dor, seu sofrimento, seu sacrifício e sua morte na Cruz em obediência à vontade do Pai, o que é que tomamos para nós como propósito de vida?

 

Para firmar nossos passos no caminho de Jesus, vamos contemplar a sua dor, o seu sofrimento tomando como referência as SETE PALAVRAS, sete expressões que, segundo a tradição cristã, foram ditas por Jesus na Cruz e que revelam sua identidade e sua missão. Para esta nossa reflexão que segue, apoiemo-nos no texto do Sacerdote Jesuíta, Pe. Adroaldo Palaoro, SJ[9]

Vamos contemplar o significado das “palavras pronunciadas por Jesus na Cruz”, deixando-nos impactar e iluminar por elas. São palavras densas, carregadas de vida; palavras surpreendentes, onde Jesus sai de si e se dirige aos outros. A meditação sobre estas palavras deve provocar alguma mudança em nós.

  1. PERDÃO. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”(Lc 23,34)

Jesus, na sua vida pública, sempre revelou o perdão do Pai; no encontro com os pecadores deixou transparecer a misericórdia reconstrutora de Deus. O perdão foi a marca de sua vida e deve ser também a marca dos seus seguidores. Ele pediu aos seus discípulos para “amarem os seus inimigos” e “orarem pelos seus perseguidores”; insistiu que devemos perdoar até “setenta vezes sete”.

É difícil perdoar: a dor, o orgulho, a própria dignidade, quando é violentada, grita pedindo “justiça”, buscando “reparação”, exigindo “vingança”… Mas, perdão? Nos dias atuais estamos nos distanciando sempre mais da prática do perdão e aderindo à ideia de que a vingança seja o melhor remédio para combater a violência. Felizmente a maioria da população, segundo pesquisas recentes, é contra a liberação do comércio de armas. Muitos estão se tornando adeptos da pena de morte mesmo com o risco de morte de inocentes.

Surpreende-nos que Jesus na Cruz seja capaz de continuar vendo humanidade em seus executores; Ele é capaz de continuar crendo que há esperança para aqueles que cravam seus semelhantes na Cruz. Porque, esta palavra de perdão, dita a partir do madeiro, é sobretudo uma declaração eterna: o ser humano, todo homem e toda mulher, conserva sua capacidade de amar nas circunstâncias mais adversas. E todo ser humano, até aquele que é capaz das ações mais atrozes, continua tendo um germe de humanidade em seu interior e que permite que haja esperança para ele.  Perdoar é atrever-se a ver o que há de verdadeiro, de beleza em cada um.

O perdão é capaz de ver dignidade e faísca de humanidade escondida no coração do agressor. O perdão abre futuro, destrava a vida e não se deixa determinar pelos erros do passado; ele quebra distâncias, nos faz descer em direção à fragilidade do outro, ao mesmo tempo que revela nossa fragilidade. É enquanto pecadores que somos chamados a perdoar e não enquanto justos. Por isso, no perdão é onde mais nos assemelhamos a Deus, pois só Ele podia inventar o perdão.

Deus também continua me perdoando hoje, pelas atitudes pecaminosas em minha vida que destroem, rompem, ferem os outros e o meu mundo.

Assim, nesta primeira Palavra de Cristo na Cruz, tomamos consciência da importância fundamental do perdão na vida do Cristão, pois “Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão”. (Jo 4,20-21).

– Deixar ressoar esta expressão de Jesus: Fiz experiência de perdão? Sou capaz de perdoar e acolher o perdão?

  1. CONTIGO. “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43)

Jesus sempre viveu “em más companhias” e agora morre entre dois ladrões. Mais uma vez, não assume o papel de juiz sobre os outros, mas oferece uma nova chance de salvação. Ele é o moribundo que dá vida: presença solidária, que, mesmo em meio ao pior sofrimento, oferece companhia a outros sofredores. Um dos ladrões, impactado pela serenidade e testemunho de Jesus “rouba o paraíso”.

Jesus revela uma promessa que muitas pessoas precisam ouvir hoje, sobretudo aqueles que carregam cruzes injustas e pesadas, que vivem realidades atravessadas pela dor, pela solidão, dúvida, incompreensão ou pranto… Como soarão estas palavras no interior de cada um de nós: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Hoje: porque as mudanças, a nova criação, a humanidade reconciliada, não tem que esperar mais; hoje, agora, já…; talvez esse “hoje” não chega é por causa de tantas pessoas que não decidem, não optam, esperam sentadas…

Estarás comigo: uma promessa de viver em sua companhia e desperta ecos de uma plenitude que não conseguimos entender.

No paraíso: um lugar de plenitude de vida, onde não haverá mais pranto, nem dor; realidade já presente onde habitará a justiça e a paz.

Quando Cristo profere a segunda Palavra na Cruz, observamos dois ladrões crucificados, um de cada lado. Nestes dois ladrões vemos a prefiguração de duas atitudes que podemos abraçar em nossa vida: a atitude do desespero em meio ao sofrimento, zombando da salvação e, por conseguinte do Salvador; e a atitude de reconhecimento e confissão do pecado, resignação em meio ao sofrimento presente, com vistas na esperança da glória futura.

 

– Deixar ressoar esta expressão de Jesus para construir, hoje, o Paraíso em nosso cotidiano.

– Como viver hoje no paraíso? Neste momento, a quem podemos despertar a esperança?

 

  1. APOIO. “Mulher, eis o teu filho; filho, eis a tua mãe” (Jo 19,26)

Maria, mulher do “sim”; “sim” que se prolonga até à Cruz, onde, de pé, revela sua presença materna e consoladora junto a seu Filho Jesus. A presença de Maria na vida de Jesus não é acidental: foi aquela que mais amou, conheceu e seguiu Jesus. Ela agora é nossa referência fiel no seguimento do seu Filho.

Despojado de tudo, Jesus tem um tesouro a nos dar: entrega sua própria mãe para que ela seja presença cuidadora e de ternura junto aos seus filhos sofredores. Jesus não nos deixa órfãos; sempre precisamos dos cuidados e do consolo de uma mãe; alguém para nos acompanhar nas horas mais obscuras e difíceis; alguém que nos sustenta nos momentos trágicos; alguém que compartilha nossas perdas… e que também está presente nas horas boas, que chegarão. É como se Jesus nos dissesse: “Para viver o meu seguimento, inspire-se nela, tenha-a como referência”. Não estamos sozinhos: há muitas presenças marianas em nossas vidas – amigos, pais, filhos… São tantas pessoas junto ao pé da cruz, inumeráveis homens e mulheres de Igreja que foram e são companheiros de caminho, de esforço, de apoio, de buscas e de amor. João, também de pé junto à Cruz, representa todo seguidor fiel de Jesus, mesmo nos momentos de crise.

Assim, nessa Palavra de Cristo, somos agraciados com Sua Mãe, que doravante estará a nosso lado a nos conduzir a seu Filho amado.

 

“Jesus é o Filho Único de Maria. Mas a maternidade espiritual de Maria estende-se a todos os homens que Ele veio salvar: “Ela gerou seu Filho, do qual Deus fez “o primogênito entre uma multidão de irmãos” (Rm 8,29), isto é, entre os fiéis, em cujo nascimento e educação Ela coopera com amor materno”. (Catecismo da Igreja Católica § 501).

 

– Deixar ressoar estas palavras de Jesus: ser presença materna e cuidadora junto aos sofredores; prolongar o modo solidário de Maria junto aos crucificados.

 

  1. SOLIDÃO. “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27,46)

O grito de Jesus na Cruz condensa o grito da humanidade sofredora; é o próprio Deus que grita seu abandono.

Esse grito de Jesus revela uma Presença no próprio abandono, embora, de imediato não se sinta esta presença. Grito que não fica no vazio, mas aponta para a Vida.

Todos perguntamos: “Onde está Deus no sofrimento, na violência, na morte…?” E Deus responde, perguntando: “Onde está você no meu sofrimento, na violência que sofro, na morte… de meus filhos/as?”

O sofrimento da humanidade é o sofrimento de Deus; Deus não é insensível e distante da dor dos seus filhos. Quem não passa por momentos de noite escura, de insegurança, de absoluta incerteza…? Quem não viveu experiências de abandono, de falta de sentido na vida, de solidão, de rejeição…? Quem não tem momentos de ceticismo, de amargura, de medo, de dúvida…? Quem não se pergunta, talvez por um instante, onde está Deus agora?

Nesses momentos temos a impressão de que todas as nossas opções foram equivocadas, que cada decisão nos levou por um caminho sem saída… Nesses tempos nos atormenta o fracasso, a miséria, própria e alheia. É do meio desta situação que brota um grito desesperador, como o de Jesus… No entanto, nos atrevemos a seguir adiante, com nossos projetos, compromissos e esforços em seu nome. O desafio está em não ceder, em não crer que tudo tem sido uma mentira. O desafio é não abandonar, não render-se. Entende-se, assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e que continua ecoando como clamor angustiado. Não são poucos os gritos dos mais pobres e excluídos. É um clamor forte pela intensidade de suas carências. Um clamor surdo porque não consegue impactar de modo a conseguir respostas prontas e imediatas aos graves problemas que os afligem.

O grito dos sofredores é sempre forte. Forte pela violência das necessidades e das urgências para a garantia de uma vida mais digna. Em Cristo se condensam todos os gritos da humanidade sofredora. Sua força, no entanto, não consegue incomodar a todos os que precisam ser interpelados pela exigência  deste clamor. Um grito, pois, é a expressão do mais forte sentimento que está no centro do próprio coração; é, também, a expressão mais concreta do que aflige o coração.

Um grito é, na verdade, um convite a um compromisso solidário. O grande grito de Jesus é a certeza de tudo o que sustenta o seu coração; ao ecoar junto aos crucificados, provocará grandes novidades. Um grito que não fica no vazio mas aponta para a vida.

Este sentimento de abandono, sentido por Cristo padecente na Cruz, nos mostra a dor do abandono que sente o pecador que se afasta de Deus. E todo esse sofrimento foi assumido pelo Cristo em nosso lugar: “Ele não cometeu pecado, nem se achou falsidade em sua boca (Is 53,9). Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje; ele, maltratado, não proferia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça. Carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro para que, mortos aos nossos pecados, vivamos para a justiça. Por fim, por suas chagas fomos curados (Is 53,5). (I Pd 2,22-24)

– Deixar ressoar este grito de Jesus: quais são os gritos surdos que brotam da realidade hoje.

  1. SEDE. “Tenho sede…” (Jn 19,28)

Jesus sempre foi um homem “sedento”: fazer a vontade do Pai, realizar o Reino, comprometer-se com a vida, ser presença solidária junto aos sofredores, fazer conhecido a Deus como Pai/Mãe… Agora grita sua derradeira sede: um mundo sem dor, sem exclusão, sem violência. Um mundo de justiça e paz. Grita o homem com a garganta ressequida: sede na garganta e sede no coração. Sede expansiva, sede que descentra.

Grito que se multiplica em milhares de gargantas espalhadas pelo mundo: quero “justiça”, clamam os injustiçados deste mundo; quero “pão”, pede a criança com a barriga inchada de ar e de fome; quero “paz”, exclama a testemunha de atrocidades sem fim; quero “amor”, pede o jovem solitário por ser estranho; quero “moradia”, sonha o morador de rua que dorme em um banco da praça; quero “trabalho”, suspira uma jovem que se sente fracassar; quero liberdade escreve o presidiário em seus poemas; quero saúde, recita o enfermo em seu leito… Vozes de compaixão, vozes de pranto, vozes que refletem as dores do mundo.

Há alaridos, e também sussurros, todos carregados de sensibilidade dolorida. O grito de Jesus na Cruz recolhe todos esses brados da humanidade quebrada. E não há explicação; não há sentido; não há justiça. Só um grito a mais.

A sede de Jesus desperta em nós outras “sedes”: de quê tenho sede? Sede de sonhos, de mundo novo… Sede mobilizadora que ativa as melhores energias dentro de nós, que desperta nossa criatividade… Sede que purifica nossa capacidade de escutar os gritos, de perto e de longe. O quê fazer?

“Quem tem sede venha a mim e beba”. Quem não tem sede não busca, não cria.

Na quinta Palavra de Cristo na Cruz, Ele expressa a debilidade de seu corpo em meio aos tormentos suportados até aquele instante, e exaurido pela perda de sangue e água durante todo esse martírio, diz: “Tenho sede”. Essa “sede” de Jesus, não era um fator simplesmente biológico, decorrente das circunstâncias da Paixão. Essa “sede” de Jesus era algo mais profundo. É a sede de levar a salvação a cada ser humano da face da terra. Essa Palavra de Jesus na Cruz nos remete ao momento em que Ele pede de beber à samaritana (cf. Jo 4,1-15) no poço de Jacó, como se pedisse a cada um de nós, a nossa vida, a nossa alma para lhe saciar a sede. Ele afirma para a samaritana que Ele é a água viva (cf. Jr 2,13), quem Dele beber não terá sede:

“Respondeu-lhe Jesus: Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva. (…) o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna”. (Jo 4, 10.14).

– Deixar ressoar essa súplica de Jesus: A quem precisamos nos atrever a escutar?

 6 COMPROMISSO. “Tudo está consumado” (Jo 19,30)

Parece contradição alguém dependurado na Cruz afirmar que tudo está consumado; tem-se a impressão de fracasso total. Mas na Cruz Jesus leva até às últimas consequências sua Encarnação: mergulha e se faz solidário com todos os crucificados da história. “Desce” até às profundezas do sofrimento humano e ali revela a presença do Deus compassivo.

No alto da Cruz, Jesus tem consciência que não viveu em vão; sua presença fez a diferença; viveu para os outros. Jesus morre com as mãos cheias de vida; gastou a vida a serviço da vida; deixou pegadas nos corações de quem encontrou pela vida. “Jesus morreu de tanto viver”. Morreu de bondade, de compaixão, de justiça.

Jesus teve um “caso de amor” com a vida; viveu intensamente.

Uma vida consumada faz fecunda a morte. Uma história consumada de Amor. Vida consumada quando se consome no serviço aos outros. Jesus desencadeou um movimento de vida.

Essa penúltima Palavra de Cristo na Cruz vem selar todas as profecias a seu respeito. Nestes momentos finais Cristo nos diz com essa Palavra que toda a vontade do Pai para nos salvar foi cumprida Nele e por Ele.

Com essa Palavra Jesus nos ensina a perseverar em nossa fé até o fim. Confiando Nele (cf. Fl 4,13) não devemos jamais olhar para trás (cf. Gen 19,26Lc 9,62), mas, seguir sempre em direção ao alvo (cf. Fl 3,14), à nossa meta: a salvação que nos é ofertada gratuitamente por Deus.

Assim, temos nessa Palavra de Jesus o cumprimento das Escrituras, e o ensino salvífico de perseverar até o fim, confiados sempre no Senhor.

“Como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só, todos se tornarão justos” (Rm 5,19). Por sua obediência até a morte, Jesus realizou a substituição do Servo Sofredor que “oferece sua vida em sacrifício expiatório”, “quando carregava o pecado das multidões”, “que ele justifica levando sobre si o pecado de muitos”. Jesus prestou reparação por nossas faltas e satisfez o Pai por nossos pecados”. (Catecismo da Igreja Católica § 615)

– Deixar ressoar esta afirmação de Jesus: quão plenificante é poder dizer a cada dia: tudo está consumado. É poder dizer como Pablo Neruda: “Confesso que vivi”.

  1. SENTIDO. “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23,46)

Só quem viveu intensamente uma vida expansiva pode acolher a própria morte com paz, confiança, serenidade e abandono nos braços do Pai. Jesus morre como tinha vivido: ancorado na confiança do Pai.

Jesus, que sempre prolongou as mãos do Pai, agora entrega-se confiadamente nos braços do mesmo Pai. Jesus sempre viveu em profunda sintonia com o Pai; agora Ele dá um “salto vital” nos braços do Pai.

Ao “entregar seu espírito” Jesus é “aspirado” para dentro de Deus. A morte nos inspira medo; mas na morte, somos todos iguais, sozinho diante de Deus.

A morte é a última ponte que nos conduz ao Pai. Seremos abraçados do outro lado da ponte. Nosso destino é o coração de Deus.

Não só na hora da morte, mas a cada dia somos chamados a “entregar o espírito”; num mundo em que todos buscam seguranças, que em tudo querem ter “salva-vidas”, num mundo que nos convida a ter as costas cobertas… queremos arriscar, apostar pelo Reino; queremos nos sentir confiados, atravessar tormentas ou espaços serenos, sentindo-nos protegidos pelas mãos do Pai. Mãos que curam, acariciam, sustentam…

 “A morte de Cristo é ao mesmo tempo o sacrifício pascal, que realiza a redenção definitiva dos homens pelo “cordeiro que tira o pecado do mundo”, e o sacrifício da Nova Aliança, que reconduz o homem à comunhão com Deus, reconciliando-o com ele pelo “sangue derramado por muitos para remissão dos pecados”. (Catecismo da Igreja Católica § 613)

Neste momento em que Cristo consuma o Santo Sacrifício para a redenção da humanidade, sua Cruz torna-se venerável para nós cristãos! Ela que fora objeto de maldição será doravante símbolo da salvação como nos ensina São Paulo:

“A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina”. (I Cor 1,18); “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”. (Gal 6,14); “Espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfando deles pela cruz”. (Col 2,15).

– Deixar ressoar em nosso interior as palavras de entrega de Jesus: vivemos amparados pelos mãos providentes e cuidadosas do Pai; sentir-nos movidos a prolongar as mãos do Pai.

Estas palavras, proferidas por Jesus no alto da Cruz, causam um profundo impacto em nosso coração. Tal impacto nos faz ter os olhos fixos no Crucificado; a partir do Crucificado ativar um olhar comprometido com os crucificados da história. Só podemos crer no Crucificado se estivermos dispostos a tirar da Cruz aqueles que estão dependurados nela (Jon Sobrino).

O que vemos ao contemplar o Crucificado?

A Cruz é expressão da máxima compaixão e comunhão, com Jesus e com os sofredores. Ela aponta para Aquele que foi fiel ao Pai e ao Reino. Por isso, a Cruz não é um “peso morto”.

A partir da Cruz de Jesus, iluminamos e damos sentido às nossas cruzes.

 

Sermão Preparado por Dom Edivalter Andrade, Bispo de Floriano, para a Sexta dos Passos de 2019 em Oeiras-PI.

[1] CNBB – Texto Base, CF 2019, p. 14

[2] Idem, p. 17

[3] Idem, p. 22

[4]  CNBB-Nordeste – DOCUMENTO DE FORTALEZA, Agosto de 2018

[5] Relatório da Pastoral da Criança para o Piauí, divulgado em março de 2019

[6]  JOÃO PAULO II, Sobre o Sentido Cristão do Sofrimento no Mundo, Fevereiro de 1984

[7] Missal Romano, Oração Eucarística VI-B.

[8] JOÃO PAULO II, Sobre o Sentido Cristão do Sofrimento no Mundo, Fevereiro de 1984, n. 25

[9] Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, As Sete Palavras de Jesus.

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